O Vítor conduzia pela estrada até uma aldeia remota quando, de repente, reparou numa rapariga parada junto à berma. Já era tarde e não havia mais ninguém por perto além deles. Ele travou o carro. – Precisa de boleia?

14 de janeiro

Hoje foi um daqueles dias que ficam cravados na memória. Saí cedo do Porto com o camião carregado, porque, apesar de ser dia de Santo Amaro, a entrega não podia esperar. A minha mãe tinha-me preparado uns pastéis de batata tão bons, que o cheiro tomou conta da cabine logo que comecei a rodar. Senti uma pontinha de felicidade e liguei a rádio, onde passava um pimba alegre que me animou o resto do caminho.

Já era noite fechada quando passei por uma aldeia perto de Coimbra. Quase ninguém por ali, tudo parado. Ao passar pela paragem do autocarro, reparei numa rapariga junto à estrada, a fazer sinal com a mão. Encostei e ela veio logo ter comigo, claramente aliviada. Devia ter ficado por ali tempo demais e já sentia o frio húmido que se cola ao corpo nestes campos.

Pode levar-me? perguntou, a voz a tremer.

Claro, entre! A estas horas quase não passam carros. E já deve estar a congelar. Estava à espera há muito?

Já sim respondeu, e de repente ficou lavada em lágrimas.

Fiquei surpreendido e perguntei, em voz baixa:

Aconteceu-lhe alguma coisa?

Entre soluços, contou-me:

O meu nome é Deolinda. Hoje celebram o Santo Amaro, fim dos festejos de Natal, e uma colega do trabalho convidou-me para passar o fim de semana na aldeia dela. Disse que vinha buscar-me à paragem, mesmo junto ao mini-mercado. Aceitei, porque este ano também acabei com o namorado antes do Natal e preferi sair de casa e não pensar nisso.

Ela disse para eu apanhar o autocarro para Góis e telefonar quando chegasse. Quando saí, liguei-lhe e ela pediu-me que esperasse um pouco, que estava quase a chegar.

Olhei à volta não havia nada, nem casas, só o breu e a aldeia a uns bons quinhentos metros. Só depois percebi que tinha apanhado o autocarro errado; devia ir para Lousã, não para Góis. Quando me dei conta, ele já se ia embora. Gritei, mas o motorista nem ouviu E claro, aquele era o último autocarro do dia.

Não passava ninguém para Coimbra, só um ou outro carro virado ao contrário. Ainda pensei ir a pé pela estrada, mas verdade seja dita Assustei-me um bocado e fiquei ali quase três horas, no frio, a tentar arranjar boleia. Se não fosse o senhor, não fazia ideia de como me safava Muito obrigada.

Sorri e disse-lhe, a tentar aliviar:

Ora, podes tratar-me por tu, sou o Martinho.

Ela sorriu de volta, e notei nos olhos castanhos aquela mistura de timidez e força, tão portuguesa, que me encantou logo ali. Parámos mais à frente, porque achei que precisava aquecer-se e comer alguma coisa. Abri o saco dos pasteis de batata da minha mãe.

Prova, são tradição lá em casa, principalmente nestes dias frios.

Deolinda tinha trago fiambre, queijo e um chocolate preto. Fizemos um piquenique improvisado, partilhando histórias e risos. Quando o sono apertou, improvisámos camas na cabine: ela ficou lá em cima, eu nos bancos.

Já deitados, ouvi a voz dela, baixa:

Martinho, és casado?

Não.

Porque não?

Sabes, só agora conheci uma rapariga de quem realmente gostei mas ainda não tive coragem de lhe dizer isso.

Entendo respondeu ela, a sorrir com ternura.

Vamos dormir. Amanhã tenho de entregar a mercadoria cedo brinquei.

A viagem até Lisboa correu animada. Deolinda não parava de rir, dizia que nunca tinha tido uma aventura assim, e que agora já estava contente por tudo ter acontecido assim. Eu sentia cada vez mais que o destino me tinha pregado uma bela partida, destas que só se explicam quando se acredita em fado.

Quando chegámos novamente à cidade, parei o camião junto à estação:

Deolinda, posso pedir-te o número de telefone?

Ela olhou-me com surpresa:

E aquela rapariga de quem gostaste e sorriu de lado não vais falar com ela?

Ri-me alto:

És tu! Desde ontem que não me sais da cabeça. Gostava mesmo de te rever e continuar esta história, se tu também quiseres

Quero muito. Foste um verdadeiro cavalheiro e fizeste-me sentir em casa, mesmo no meio das estradas.

Quatro meses depois, em abril, casámo-nos numa igrejinha perto do mar. E penso tantas vezes: na vida, o destino aparece mascarado de desencontros e estradas erradas, só para nos levar à pessoa certa.

Hoje aprendi que o maior presente está nos encontros inesperados e que nunca devemos ter medo de parar para alguém perdido no caminho.

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O Vítor conduzia pela estrada até uma aldeia remota quando, de repente, reparou numa rapariga parada junto à berma. Já era tarde e não havia mais ninguém por perto além deles. Ele travou o carro. – Precisa de boleia?
Na konci materskej dovolenky budem povinná manželovi vrátiť výživné na dieťa?