Mónica ouviu a família e deixou a sobrinha entrar no apartamento. Mas nunca poderia imaginar como tudo acabaria para ela.

Leonor mudou-se para longe dos pais, para outra cidade estranha um lugar feito de ruas em ziguezague e nuvens de sardinhas flutuando. Lá, estudava entre as sombras dos plátanos e tentava recordar o sabor dos pastéis de nata da infância. Quando terminou o curso, cruzou-se com um homem que usava sempre meias às riscas e, antes dela perceber, estavam casados com uma única aliança feita de azulejos partidos.

A sua irmã, Beatriz, ficou com os pais. Casou duas vezes, divorciou-se outras tantas, e agora caminhava com dois filhos altos e sonolentos atrás dela, como se fossem carapaus em fila. Leonor e o marido viviam num apartamento herdado da avó dele, no coração de Lisboa, onde as paredes murmuravam fados antigos ao pôr do sol. No início, os euros fugiam-lhes das mãos como areia da Praia da Nazaré nada chegava, sobretudo com uma filha pequena a embalar entre sonhos. Mais tarde, a vida abrandou: lá conseguiram poupar uns tostões, compraram um T2 com vista para a Sé e, com pincéis de cor e promessas, renovaram cada metro quadrado. Alugaram-no a estranhos que pareciam sair de revistas de moda dos anos 80.

O tempo escorregou como chuva nos elétricos. A filha deles cresceu entre estantes de livros e fadistas à janela, entrou na escola de enfermagem. Leonor e o marido já planeavam dar-lhe o apartamento alugado assim que se casasse era esse o destino das casas, pensavam: passar de mão em mão como receitas de bacalhau.

Beatriz, porém, tinha uma filha inquieta, Matilde, que entrou na universidade de Coimbra numa primavera de caracóis gigantes. Beatriz e os pais começaram a perguntar, em vozes arrastadas como pregões antigos, se Matilde poderia viver temporariamente no tal T2 arrendado por Leonor. Leonor não conseguiu dizer não à irmã, não entre sonhos em que as ruas se dobravam e os sinos tocavam fora de hora.

Matilde estudou rodeada por gatos azuis e depois arranjou trabalho numa pastelaria forrada a azulejos ondulados. Conheceu um rapaz de olhos líquidos, e depois de seis meses de café com cheirinho e conversas fiadas, ele pediu-a em casamento. E Matilde estava grávida tão grávida quanto as laranjeiras em janeiro.

Então, Leonor confrontou Beatriz: se a sobrinha ia formar família, devia procurar outro ninho. O casal prometeu ir procurar uma casa. Um mês depois, Matilde telefonou a Leonor ou foi um pombo-correio, ninguém se lembra bem a pedir para ficar mais um pouco, dizendo que se mudaria logo após a boda. Entretanto, a filha de Leonor também encontrou alguém, mas ninguém tinha coragem de expulsar Matilde, tão grande o peso da barriga e do futuro.

A boda aconteceu e, pouco depois, nasceu o bebé de olhos extraordinariamente verdes. Quando as amêndoas desapareceram e o último convidado adormeceu na escada, Leonor anunciou que era tempo de procurarem outra casa aquela pertencia à sua filha que em breve casaria, havia sido esse sempre o plano. Porém, Matilde arranjava desculpas com sabor a caldo verde: não havia casas, o bebé tossia, faltava o comboio para todo o lado. A certa altura mudou o número do telefone e passou a não atender nem abrir a porta, como se a casa tivesse crescido raízes e se tornasse invisível à família. Até o marido de Leonor lá foi bater, e depois ouviu-se um boato vindo de Beatriz: que, desde essa visita, Matilde já nem leite tinha para o bebé.

Um dia, a paciência de Leonor e do marido esgotou-se como garrafas de vinho num arraial. Expulsaram, em berros e lágrimas, toda a família do apartamento. E, de repente, durante dois anos inteiros feitos de noites de nevoeiro e saudade, ninguém mais falou com Leonor. Comentavam pelas esquinas, entre os candeeiros trémulos, como é que alguém podia ser tão frio de coração, a ponto de deitar uma sobrinha e um recém-nascido à rua, assim, no meio de um sonho de Lisboa sem fim.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

five + two =

Mónica ouviu a família e deixou a sobrinha entrar no apartamento. Mas nunca poderia imaginar como tudo acabaria para ela.
O presente do papaiEle desembrulhou o presente cuidadosamente, revelando um antigo violino que, segundo o pai, havia pertencido ao seu avô e esperava ser revivido nas mãos do neto.