Nós não somos lixo, filho. (Conto)

Não somos lixo, filho. (Diário de Ana Rita)

Hoje volto a escrever, porque preciso organizar as ideias. O dia foi longo e pesado, daqueles em que a casa parece mais pequena depois de uma discussão, embora a cabeça não pare de girar.

Tudo começou quando ouvi o Tomás, o nosso filho, a levantar a voz lá fora. Estava eu à beira do fogão, o caldo verde a ferver, cheia de vontade de preparar um jantar bom para todos, quando o som das palavras cortou-me o pensamento pela raiz.

Pai, já disse que não, bolas! Não ouves? Essa tralha devia ir para o caixote do lixo, não entrar cá em casa!

A voz dele ecoou até à cozinha. Fiquei parada com a concha no ar, apenas olhando para o cozido, o cheiro do fumo do chouriço misturado ao susto que senti. Virei-me só para ver o Joaquim, o meu marido, na entrada do barracão, de mãos nos ombros de uma cadeira velha de madeira, daquelas com pernas esculpidas como já não se fazem. Estava a tentar contornar o Tomás, que bloqueava a entrada com os braços cruzados e o olhar duro.

Tomás, tentei eu, baixando a voz, limpando as mãos no avental , não é tralha nenhuma. O teu pai só quer restaurá-la. Olha só a madeira, o trabalho ali!

Mãe, não comeces, atirou o Tomás, nem me olhando . Pai, a bem, ouviste? Tens 72 anos, já não podes andar a carregar pesos. Lembras-te do que o médico disse, depois do problema do coração?

O Joaquim ficou calado, as mãos a tremerem na cadeira. Pousou-a devagar no chão e endireitou-se. Conheço-o há tanto tempo que, só pelo jeito, vi que estava a conter-se para não rebentar.

Não carreguei sozinho, respondeu calmamente. O senhor António do quintal ao lado ajudou-me. Viemos os dois.

É igual! resmungou o Tomás com um gesto largo. O problema é que vocês transformaram a casa numa feira de velharias. Olha o canto dos cómodos: três guardados. No barracão, mais dois. Os frascos do verniz espalhados, pincéis e panos para todo o lado! Mãe, sabes que isso é perigoso, não sabes?

Fui ter com o Joaquim, sentindo aquele cheiro a madeira fresca, óleo de linhaça e cola de carpinteiro: o cheiro do nosso passado. Quando começámos a restaurar móveis, há meio ano, voltei a sentir-me útil, como nos tempos em que tudo estava por fazer.

Nós somos cuidadosos, filho, disse-lhe, a tentar manter-me calma. O verniz está num caixote de ferro lá fora. Só trabalhamos nos dias bons, de janela aberta.

Mãe, isso não conta, o Tomás já tinha o telemóvel na mão, a pesquisar qualquer coisa. Olha aqui: incêndios em casas de idosos, podes ver as estatísticas. Quantos por causa de solventes e vernizes?

Já chega, Tomás, o Joaquim aproximou-se dele. Passei a vida numa oficina. Sei bem mais de segurança do que tu.

Pai, isso foi há trinta anos. Agora és reformado, o coração já não é o mesmo. Eu não quero estatísticas, só quero que vocês não se metem em sarilhos.

Não estamos em sarilhos, senti um nó na garganta ao responder. Estamos vivos. Dá-nos alegria. Compreende isso, filho?

Só então o Tomás olhou para mim. O que vi nos olhos dele doeu. Uma espécie de pena, misturada com irritação, como se eu fosse uma criança teimosa.

Mãe, eu percebo que estão aborrecidos, falou como quem explica a tabuada a um miúdo . Por que não vão antes a um centro? Inscrevo-vos num curso, levamos-vos uns dias ao Algarve, sei lá.

Não estamos aborrecidos, o Joaquim recusou, . Queremos estar em casa, com o nosso ofício.

Que ofício, pai? riu-se o Tomás . Dar nova vida a móveis velhos, encher a casa de porcarias envernizadas? Isso não é ofício nem sei bem o que é.

Tomás! não aguentei Como falas assim com o teu pai?

Falo como deve ser, mãe. Alguém tem de ser realista aí em casa. Ficamos sempre eu para resolver tudo depois

Resolver o quê? o Joaquim empalideceu.

O Tomás passou a mão pela testa, respirou fundo e baixou o tom:

Pai, mãe, sou vosso filho, quero o melhor. Mas isto tem de ser seguro e sensato. Sinceramente, já pensei vender esta casa daqui a uns anos. Comprava-vos um apartamento em Lisboa, perto de nós. O dinheiro que sobrar ajuda à Lídia com a universidade; ela está quase a entrar.

Aquelas palavras bateram-me como uma bofetada. Vi ali o meu Tomás o bebé que embalei noites inteiras, acompanhei ao primeiro dia de escola, que amei mais do que tudo. E, de repente, falava do lar onde vivi quarenta anos como se fosse um número, uma transação.

Tomás, a voz saía-me trémula esta é a nossa casa. Aqui somos felizes.

Acham que sim, mas vivem num mundo à parte. Eu só quero garantir que nada vos acontece.

Queres é que nos fechemos entre quatro paredes, à espera do fim resmungou o Joaquim. É isso?

Não digas disparates, pai.

Somos felizes aqui! gritou o Joaquim, que até me assustou. Somos felizes entre cadeiras velhas e cómodas gastas, com as mãos sujas de verniz! Assim sentimos que ainda somos alguém, que ainda criamos!

O Tomás ficou branco. Acabou por virar costas e ir para dentro.

Fica o aviso disse ele , vamos voltar a este assunto. Pensem nisso.

Fiquei a vê-lo afastar-se, depois olhei para o Joaquim, de ombros caídos, parado a olhar para a cadeira de pernas esculpidas, agora esquecida no chão. Fui abraçá-lo. Ele correspondeu, tremia.

Quim, não te aborreças. tentei acalmar Ele não entende.

Não entende, repetiu ele. Tem quarenta e cinco anos e não entende.

Ficámos assim juntos, até o Joaquim voltar a pegar na cadeira para a levar ao barracão.

No jantar, estávamos os três à mesa. O silêncio pesava. O Tomás comia depressa, de olhos postos no prato; o Joaquim pouco tocou na sopa. Tentei falar da Lídia, da Anabela, do trabalho. As respostas do Tomás eram monossilábicas:

A Lídia está bem, a estudar. A Ana está bem. O trabalho está mais ou menos igual.

Perguntei:

E aquela proposta na escola? Era para avançar a coordenadora?

Sim, já é coordenadora. Mais uns euros, mas também mais dores de cabeça.

Dá-lhes um beijinho nosso.

Ele acenou.

O Joaquim levantou-se, suspirou.

Vou ao barracão.

Descansa, Quim. pedi Não forces.

Deixa, Rita. Faz-me bem.

O Tomás seguiu-o com o olhar e resmungou:

Teimosos como mulas, os dois.

Sentei-me a olhar para ele.

Tomás, entendes que isto não é só teimosia, pois não? A nossa vida já não gira à volta do trabalho papá na oficina, eu na biblioteca; depois tu cresceste, foste para Lisboa, fizeste a tua família. Ficámos os dois. E a casa ficou silenciosa, muito silenciosa.

Ele ouviu, mas permaneceu de rosto fechado.

Um dia, o teu pai encontrou um móvel velho ao pé dos contentores ali no largo. Trouxe-o. Passou dias a raspar tinta, a lixar, a ver renascer a madeira, como se desse nova vida a algo esquecido. Nós também renascemos com aquele móvel. Sentimos que ainda éramos úteis. Isso, filho, é fundamental.

Mais silêncio. Por fim, o Tomás suspirou.

Mãe, eu percebo. Mas vejo riscos, vejo-vos a envelhecer sem apoio. O pai já teve um susto, tu também tens problemas de tensão. Vivem afastados, longe da cidade, e eu só imagino se um dia algo acontece

Não somos inválidos. interrompi Somos idosos, sim, mas ainda fazemos a horta. Só queremos ser respeitados como adultos.

Não vos trato como inválidos. Mas seria mais sensato terem os serviços perto. Centro de saúde, supermercado, farmácia

Aqui temos gás, só usamos a lareira para a sauna.

Ele encolheu os ombros, irritado.

Complicam a vida. E complicam a minha, da Lídia, da Ana.

Percebi nessa altura que ele não ia ouvir-nos. Não ouvia há muito. Na cabeça dele, seríamos mais felizes num apartamento pequeno, controlados, sem hobbies, previsíveis.

Vamos deixar isto por agora, Tomás propus. Descansa. Amanhã voltamos a falar.

Ele acenou, fechou-se no quarto antigo dele. Lavei a loiça a pensar em tudo aquilo. Depois fui ao barracão.

O Joaquim estava sentado numa banqueta, a lixar a cadeira. A luz pendurada iluminava a cabeça branca, as mãos devagar a trabalhar. Fui por trás, pus as mãos nos ombros dele.

Vai ficar bonita.

Vai, disse ele só é preciso colar uma perna.

Ficámos calados um pouco.

Quim, será que ele não tem razão? Talvez devíamos reduzir, ficar só com duas peças restauradas

Ele parou, pousou a lixa no joelho, olhou-me nos olhos:

Se cedermos, vai sempre querer mais. Primeiro as cadeiras, depois a horta, depois diz para não irmos ao campo, depois vende-nos a casa. E acabamos num apartamento a dar migalhas aos pombos Viver para quê?

Percebi que tinha razão, mas doía ver o Tomás ir embora zangado. Sempre achei que as famílias se entendiam melhor mas talvez não. Somos uma família como todas: filhos adultos a querer comandar, pais antigos que não aceitam.

E o que fazemos? perguntei.

Continuamos. Fazemos a nossa vida.

Assenti. Fui dormir.

No dia seguinte, preparei panquecas, pus doce de abóbora, natas. O Joaquim lia o jornal, o Tomás apareceu quase sem falar.

Estão bons.

Come, apanhaste pouco ontem. dei-lhe mais um prato.

Olhei-o a mastigar, tão crescido, tão distante.

Tomás, estás zangado connosco?

Não, mãe. Só me preocupo.

Compreendes mesmo o que significa isto para nós? Estes móveis, este trabalho?

Mãe, eu percebo que queiram estar ocupados. Mas escolham algo mais seguro, sei lá tricot, flores.

Também temos flores. Tomates, até pepinos começamos a semear.

Então para quê a tralha?

Não consegui explicar-lhe. Não era só madeira velha. Era sentido de utilidade, memória, ligação ao passado e à família.

Conta-me, disse apenas.

Vocês recusam ouvir o bom senso disse ele, terminando o chá. Vou à minha vida, hoje depois de almoço. Pensem bem no apartamento. Já vi um T1 perto de Alvalade, é luminoso e quente.

Vamos pensar, prometi, sabendo que o Joaquim recusaria.

Tomás arrumou para ir embora. O Joaquim saiu para o quintal sem nada dizer. Fui arrumar a loiça, mãos a tremer. Um prato caiu, partiu-se em dois. Ajoelhei-me, juntei os cacos, e desta vez já não contive: chorei. Chorei como já não fazia há muito.

O Joaquim, vendo-me assim, correu a abraçar-me.

Não chores, Rita. Ele que vá à vida. Nós somos felizes.

Não somos, Quim. Ele é nosso filho. Só temos este.

Ele faz a vida dele e nós a nossa.

E ele não devia também tentar entender-nos?

O Joaquim hesitou:

Devia, sim. Ao menos respeitar.

Assenti, limpei as lágrimas, continuei a rotina, fui até à horta, trabalho nas mãos até acalmar.

Ao almoço, vieram os dois à mesa. O Tomás ficou pouco tempo, pegou nas coisas e despediu-se:

Ligam-me se precisarem. E cumprimentos à Lídia e à Ana.

O Joaquim apertou-lhe a mão sem emoção. Vi o meu filho partir, ficando aquela sensação de vazio. Mal desapareceu o carro, o Joaquim levou-me para dentro.

Anda daí. Ninguém morre por isto.

A casa ficou mais pequena, mais silenciosa. Senti que algo tinha partido – mais que um prato, mais até que o próprio filho.

As semanas passaram. O Tomás não telefonava. Quando ligava, era rápido, seco. Devia estar aborrecido e à espera que lhe déssemos razão. Mas nós, eu e o Joaquim, não cedíamos. Continuámos no barracão, eu a limpar, ele a lixar, como sempre.

Numa noite, chamou-me o telefone.

Mãe? era a Ana, mulher do Tomás, voz aflita O Tomás está no hospital.

Senti o mundo a desabar.

Um acidente, Rita. Um camião entrou-lhe pela frente. Está vivo, mas…

Desliguei, contei ao Joaquim. Ele ficou quieto, só disse:

Vai. Tu vai. Eu fico.

É o nosso filho.

Ele fez a sua escolha.

Por favor, Quim.

Vai, mas depois falamos.

Fui o mais rápido possível para Lisboa. Passei a noite no hospital. O Tomás estava mal, mas sobreviveu. Chorou quando me viu, pediu perdão.

Mãe, eu estava errado. Devia ter compreendido.

Passei dias com ele. Continuava a pedir desculpa, disse que, quando saísse, queria restaurar um móvel com o pai, aprender, perceber o valor daquelas coisas.

Falei ao Joaquim. Ele só respondeu:

Não estou pronto para o perdoar.

E fiquei dividida, entre a dor e o amor, a esperança de reconciliação.

Passaram-se meses, um inverno inteiro. O Tomás recuperou, voltou a trabalhar, ligava ocasionalmente. Mas nunca enfrentava o pai.

Na primavera, numa manhã, lá estava ele, à porta da nossa casa com um móvel velho nos braços. Tinha aprendido a restaurar, sozinho. Trouxe-o como prova.

Pai, disse ao Joaquim, fiz este para ti. Quero mostrar que respeito o teu trabalho. Ensinas-me?

O Joaquim passou as mãos no móvel, demoradamente. Depois de muito silêncio, respondeu:

Está bem feito. Vê-se que te esforçaste, Tomás.

A reconciliação não foi plena, mas sentiu-se um fio. Ainda vai demorar, pensei. Mas já não há gritos, já não há porta fechada.

À noite, sentámo-nos os dois na varanda, a beber chá e ver Lisboa ao longe a acender luzes. O Joaquim apertou-me a mão.

Amanhã começo a restaurar o trinchante antigo, sorriu ele.

E eu ajudo, disse.

Sabia que naquela casa pequena, cheia de móveis gastos e risos partilhados, não éramos lixo nem passado. Ali éramos gente. Gente que escolheu como quer viver. E isso, sinto cá dentro, é tudo.

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Nós não somos lixo, filho. (Conto)
Jedna staršia pani mala psíka.