Diário de António, Julho, na costa de Cascais
“António, ainda estou aqui.” Ela foi chegando devagarinho, flutuando na água clara, o cabelo ondulando ao sabor do vento. Promete-me: não me chores antes do tempo.
António, olha só este azul! exclamou Leonor, com aquele encanto genuíno de quem sabe saborear a vida. Todo o seu rosto, bronzeado pelo sol, os olhos de luz intensa, reflectiam uma alegria contagiante enquanto abria os braços como se quisesse abraçar o Atlântico inteiro.
A brisa brincava com os seus cabelos castanhos, já meio dourados do sol. Eu disse-te que este mês ia ser o melhor das nossas vidas!
Ali, sobre a areia fina e branca de Cascais, ajeitei o chapéu de palha e forcei um sorriso. Por dentro, sentia-me sufocado de medo. A ideia de que tudo aquilo podia ser a nossa última oportunidade para resgatar a felicidade perdida martelava a minha cabeça.
Pois é, Leonor, este mês vai ser inesquecível arrisquei em tom leve, querendo acreditar nas minhas palavras. Tu tinhas razão, como sempre.
Mas a sombra do que ouvira dois meses antes nunca me largava: “Cancro, fase avançada, dois, três meses”, dissera o médico. Viemos para este mar porque a Leonor tomou a decisão de viver, não de se render.
Vamos dar um mergulho? Leonor puxou-me pela mão com um sorriso maroto nos olhos. Vá lá, António! Lembras-te de quando éramos miúdos e saltávamos do cais na Figueira da Foz? Tinhas sempre medo de perder os calções na corrente!
Ri-me e, só naquele instante, o peso no peito pareceu aliviar. Era este o dom da Leonor: arrancar-me do negrume.
Medo não. Prevenção! atirei, fingindo seriedade. Mas olha, se vier um tubarão, a culpa é só tua!
Rimos como dois adolescentes a caminho do mar. Ela saltava nas ondas, eu observava-a, o coração a rebentar de amor e de angústia. Era linda. Não sabia lidar com a possibilidade de a perder.
“O amor dá-nos a força para esperar o melhor, até quando tudo parece impossível.”
A nossa história começou no décimo ano, numa terriola do interior onde toda a gente se conhecia. Leonor entrou na escola como um raio de sol nova na vila, o sorriso aberto, o cabelo a reluzir e mal dava para acreditar que uma rapariga assim reparasse em mim. Eu, todo alto e desajeitado, enfiado nos livros, achava impossível.
Foi num baile da escola, embalada por música dos Xutos & Pontapés, que ganhei coragem de a convidar para dançar.
És diferente sussurrou ela, com os olhos presos nos meus. Não tentas ser melhor do que és.
E tu não tens receio de acabares a dançar com os meus pés? brinquei. Ela riu-se e foi ali que começámos a ser inseparáveis.
Depois do secundário, fui para Lisboa tirar Engenharia, a Leonor para o Porto, Letras. Mandávamos cartas compridas, desejando férias para nos encontrarmos. A distância só reforçou o sentimento. Aos vinte e dois, acabados de formar, casámos discretamente no salão dos Bombeiros Voluntários flores de plástico, músicas do Tony Carreira no CD, mas um mar de felicidade à nossa volta.
A vida a dois foi feita do costume: casa alugada, trabalho a dobrar, sonhos de comprar um lar próprio e abrir um café junto à praia. Vieram as rotinas, as chatices. Discutíamos por pequenas coisas pratos por lavar, contas por pagar. Uma vez, explodi:
Se calhar fazíamos melhor cada um ir à sua vida!
Leonor, calada, sentou-se no sofá e só disse baixinho:
António, amo-te demasiado para deitar isto fora. Vamos tentar viver diferente.
Assim começámos a ter um dia só para nós por semana, sem telemóveis, sem stress. Caminhávamos pelo paredão, bebíamos chá na varanda, revíamos os velhos tempos. E como uma flor adormecida, o amor voltou a desabrochar.
Cinco anos depois, comprámos uma casinha com jardim e, finalmente, abrimos o nosso café de esquina. Chegaram as filhas Mariana e Benedita, gémeas, a encher a casa de confusão e gargalhadas. A Leonor era tudo o que uma mãe podia ser meiga, paciente, inventando histórias para dormir. Eu pensava muitas vezes: Que sorte a minha
Com o tempo, claro, as raparigas cresceram e foram para a faculdade, lá em Coimbra. Ficámos com vazio em casa e para compensar, atirámo-nos ao trabalho já tínhamos o segundo café e passávamos noites a fechar contas. Até que, num dia igual a tantos, Leonor caiu no chão do café, exangue.
Leonor! Leonor! gritei, aos sacolejos, até vir o INEM.
O diagnóstico foi só cansaço. Ando só um pouco esgotada, António, passa, minimizou ela. Mas logo no dia seguinte voltou a cair. O médico não quis encarar-nos quando murmurou: “cancro, já sem hipótese de operar, talvez dois meses…”
Em casa, Leonor falou com serenidade:
Não chames as miúdas, não quero que me vejam assim. Leva-me para junto do mar. Era o nosso sonho, lembras-te? Estar deitados na areia, beber uma caipirinha, dançar até cair de cansaço… Vamos agora.
Quis contestar. Mas como negar-lhe esse último desejo?
António, onde andas? veio a onda e ela, a sorrir, interrompeu-me os pensamentos. Tu vais longe!
Estou aqui disfarcei as lágrimas, mergulhando ao lado dela. Estava a lembrar-me de como me limpaste o relógio ontem ao jogarmos às cartas. És bruxa!
Distraído! riu-se ela, ecoando pela orla. Logo à noite quero dançar, ouviste? Há fado ao vivo naquele restaurante. Quero dançar até não poder mais!
Tens a certeza? Não preferes descansar? Hesitei, sentindo-me culpado. Ela odiava que eu lhe lembrasse a doença.
António, eu estou viva e quero viver! declarou com firmeza. Promete que não me vais enterrar antes de tempo. Promete.
Eu prometo murmurei, abraçando-a na água morna, como se o mar nos guardasse dos males do mundo.
Aquele mês junto ao Atlântico pareceu um sonho: passeios infindáveis na marginal, gelados de nata ao pôr-do-sol, danças ao som de guitarras portuguesas. Leonor florescia, os olhos brilhavam como nunca. Cheguei a perguntar-me se o médico teria errado. Seria um milagre?
Numa noite, no balcão do quarto de hotel, Leonor olhou-me e disse:
António, não tenho medo. Se isto for o fim, fui feliz: tenho-te, tenho as nossas filhas, tenho este último pôr-do-sol. Tive uma bela vida.
Não digas isso a voz tremeu-me . Ainda havemos de dançar nos casamentos dos nossos netos.
Ela sorriu e segurou-me com força.
Quando voltámos a casa, ela pediu nova consulta. Eu só pensava no pior, o tempo passado.
Mas, após exames demorados, o médico olhou para nós com surpresa:
Isto é praticamente impossível. Através dos exames novos, vejo que a doença quase desapareceu. A Leonor tem um organismo de ferro.
Olhei para ambos, sem acreditar. Leonor chorava de alegria. Abraçámo-nos ali, sem vergonha, enquanto o médico se retirava.
António, foi este mar sussurrou. E o nosso amor.
Foste sempre tu a salvar-me respondi.
Voltámos àquilo que gostávamos: o café, os velhos amigos, novos projetos. Leonor ficou mais um mês a terminar tratamentos, e a doença cedeu. As miúdas souberam de tudo e vieram a correr. A casa ficou outra vez cheia de riso.
Ao vê-la, penso: Como fui cego em jovem. Ela parecia adivinhar-me os pensamentos e piscou-me o olho:
António, não te ponhas triste. Faz lá aquelas tuas panquecas, já nem me lembro do sabor!
Fiz, claro, e comemos os dois na varanda, a ver o sol a cair no mar, confiantes de que, juntos, nenhuma tempestade seria capaz de nos derrubar.
Esta história ensinou-me: o amor e a esperança têm a força de desafiar até o destino. Leonor e eu provámos; a fé e o carinho verdadeiros podem mesmo operar milagres.







