SEGUNDA-FEIRA, 8 DE NOVEMBRO
Hoje, como em qualquer outra manhã, o escritório ganhou vida logo depois das oito. Conversas sobre o fim de semana, risos em torno da máquina de café, o tilintar dos sapatos nos corredores a rotina normal de uma empresa grande aqui em Lisboa. Quem fala de segundas-feiras? Para mim, todas são parecidas, exceto pelo peso levemente maior das segundas: sinto-me sempre a pôr as ideias em ordem, o corpo a ajustar-se ao ritmo do trabalho.
Sentei-me na minha secretária, lado a lado com os colegas do meu departamento. O ambiente é aberto, mas gosto de arrumar os papéis junto à janela, onde consigo sentir o bulício da Avenida da Liberdade através do vidro. Os meus olhos, castanhos, de traço sereno, concentravam-se nos relatórios do último trimestre, tentando preparar-me para a reunião semanal.
Não demorou muito para o Tomás, gestor do departamento ao lado, aparecer à minha mesa. Encostando-se descontraidamente ao tampo, exibia aquele sorriso marcante, a tentar suavizar a abordagem habitual:
Bom dia, Marilena! Como é que correu o fim de semana?
Tentei não transparecer, mas sei que um pequeno suspiro me escapou. Já me habituei ao convívio diário e sei que ser cordial faz parte do jogo social no escritório, mas preferia que certas questões não surgissem.
Foi tranquilo, obrigada. Dediquei-me às arrumações lá em casa respondi, mantendo uma expressão neutra, a esconder o quanto detestava conversas sobre a minha vida privada. E tu, aproveitaste?
Foi espetacular! exclamou ele, animando-se com o próprio relato. Fui até à Costa com uns amigos, grelhámos sardinhas, houve fado e tudo! Tens de vir connosco da próxima vez. Agora, desde que te separaste, não tens grandes compromissos, pois não? Ainda te estás a habituar, imagino…
A irritação subiu-me à pele, mas recusei alimentá-la. A última coisa que queria era voltar a ser tema de conversa na copa.
Sim, estou divorciada, Tomás. E agradeço, mas não me apetece juntar-me a grupo nenhum para já, muito menos com pessoas que não conheço bem.
Ele não desarma.
Ora, não sejas assim! Depois de um divórcio, nada como recomeçar, experimentar coisas novas! Olha que eu… Não queres jantar comigo na sexta?
Para evitar prolongar o assunto, tratei de arrumar os papéis rigorosamente, encarando-o de frente.
Tomás, a sério, agradeço a atenção, mas não estou à procura de companhia nem de aventuras. Prefiro manter as coisas profissionais.
Ele riu, despreocupado.
Não tens de fazer de difícil, Marilena. Achas que não és suficientemente interessante para alguém? Eu acho que eras uma boa companhia.
Respirei fundo, já sem paciência para rodeios.
Só quero trabalhar. Espero que respeites isso.
No entanto, o Tomás não pareceu levar a sério a minha resposta. Afinal, para ele, um “não” nunca soa definitivo.
As semanas seguintes foram um teste à minha paciência. Ele aparecia, sempre com uma desculpa precisava de esclarecer alguma dúvida, pedir um ficheiro, emprestar uma caneta ou, simplesmente, saber como estava eu hoje. Tudo envolto naqueles sorrisos de quem julga que a insistência é charmosa e nunca um incómodo.
Por vezes, apetecia-me gritar. Outras, limitava-me a responder secamente, sempre tentando manter o tom profissional, para não dar armas a terceiros. Numa destas ocasiões, já tarde, com o escritório quase vazio, ele voltou à carga. Entrei na defensiva assim que ouvi os passos na carpete macia.
Ainda aqui? São quase nove da noite! Vem comigo até à Baixa. Conheço um sítio com uma noite de jazz excelente.
Fechei o portátil e olhei-o nos olhos, firme.
Tomás, por favor, já chega. Não estou interessada. Agradeço que respeites os meus limites.
Vi uma sombra a passar-lhe pelo rosto, mas a arrogância não desapareceu.
Que raio se passa contigo? Achava que depois do divórcio estar assim era normal! Só te quero mostrar que há vida e vira a conversa para a auto-comiseração: O que é, achas que não sou suficiente para ti?
Fiquei a olhar para ele. O tempo pareceu parar aquele silêncio pesado, o único som vindo do ar condicionado suspenso na parede.
Não tem nada a ver contigo. Simplesmente, não quero. Não encontres drama onde não existe.
Ele virou costas, atirando uma última farpa:
Vais acabar sozinha, sabes disso? Depois não digas que não te avisei!
A porta bateu com força. Fiquei ali sentada, o peito apertado, a tentar perceber se tinha falhado em explicar ou se era ele o surdo das palavras dos outros.
O pior foi nos dias seguintes. O Tomás, qual sombra persistente, continuava a aparecer. Se eu ia à copa tomar café, ele estava lá. Se precisava imprimir algo, ele surgia com um Olá forçado, a fingir que nada tinha acontecido. Os colegas notaram, mas fingiram que não viam. Ninguém quer lidar com conflitos desses na empresa.
Na quinta-feira cedo, fui buscar café. Havia só três pessoas na copa. Ele estava lá, claro.
Marilena talvez tenhamos começado mal. Queria só ser teu amigo.
Lavei a chávena e tentei ignorar, mas ele continuou, a voz mais aguda.
Que mal te faço? Não te pedi em casamento, foi só um jantar! Ou tens medo de gostar de mim?
Virei-me, o sangue a ferver.
Não tenho medo, não me apetece e detesto essa insistência. Não percebes que é desconfortável?
Saí da copa. Longamente, questionei o que poderia ter dito de diferente até perceber: nada. Havia pessoas que recusavam ouvir um não.
À noite, em casa, pensei mil vezes se deveria partilhar isto com alguém. Gravei o último diálogo no telemóvel. Acabei a escrever à mulher do Tomás respeitosamente, só a contar o essencial e anexando a gravação. Não porque me fizesse sentir bem, mas porque percebi que ou alguém o parava ou ele continuaria.
Na manhã seguinte, o Tomás apareceu furioso.
Como te atreves? Tu mandaste isso à minha mulher?!
Não me levantei.
Avisei-te que não queria mais provocações. És tu que tens de assumir os teus comportamentos.
Ele chamou-me tudo o que lhe vinha à cabeça não aumentou o tom, porque o resto do piso estava atento mas saiu a ranger os dentes de raiva.
Nunca mais veio falar comigo.
Foram dias estranhos. Os corredores estavam mais silenciosos, os olhares, mais controlados. O rumor espalhou-se: o chefe da secção chamou Tomás. Ouviam-se bocas: Afinal, era verdade…. Alguns colegas olhavam-me com respeito, outros com medo de serem envolvidos. Tudo muito português percebe-se o apoio nas entrelinhas, não nas palavras.
Naquela semana, a Leonor, do marketing, aproximou-se da minha mesa, nervosa.
Marilena, obrigada. Nunca tive coragem de contar, mas ele também foi desagradável comigo. Tu tiveste força. Isso faz diferença.
Percebi o alívio no seu rosto. Fiquei feliz, embora desejasse que ela nunca tivesse precisado de coragem para trabalhar em paz.
Dias depois, numa reunião geral, o diretor, Sr. Afonso Carvalho, levantou o tema do respeito no trabalho.
Na nossa empresa, valores não são carta de intenções disse ele, olhos nos olhos nos cantos da sala. Não admitimos atitudes que criem desconforto ou falta de respeito. Tragam-me os casos: aqui ninguém está sozinho.
O Tomás manteve-se cabisbaixo. Desde então, manteve distância. O ambiente acalmou parece que basta mostrar que há limites para todos recuperarem o equilíbrio. Senti-me, finalmente, capaz de andar pelos corredores sem olhar por cima do ombro.
Um mês depois, numa manhã fria de inverno, cruzei-me com o Tomás no elevador. Parecia mais baixo, menos seguro. Hesitou. Quando saí, surpreendeu-me, a voz quase sumida:
Marilena desculpa. Exagerei.
Eu sorri levemente, sentei no olhar.
Obrigada por perceberes.
Ele tentou explicar, falou que achou que estava a ser simpático o habitual. Respondi apenas:
O importante é que aprendeste.
Desde então, trabalhámos em sintonia, sem mais dramas ou insistências. Cumprimos o ritual do Bom dia e seguimos cada um com a vida.
Alguns meses depois, envolvi-me num novo projeto. Fiquei responsável por coordenar um grupo coisa que me assustava antes, mas agora parecia natural. Tornar a minha voz audível tornou-se um hábito, não uma obrigação. Ouviram-me, aceitaram-me.
Num destes almoços de equipa, conheci o João. Não era exuberante, nem colega de galanteios. Fazia perguntas simples, ouvia de verdade. O nosso primeiro passeio foi pela Praça do Comércio, entre risos e segredos sussurrados ao vento. Umas semanas depois, sentados à beira Tejo, abriu-se:
Gosto de estar contigo. Posso continuar a ligar-te?
Claro respondi sem reservas.
Crescemos juntos, devagar e sem pressa. Sem necessidade de defender muros, sem medo, só com a vontade de partilhar.
O tempo passou, e passados quase dois anos, celebrámos o nosso casamento num restaurante pequenino no Chiado, só com familiares e amigos próximos. Eu vesti um vestido leve, as flores eram de outono e a luz entrava suave pelo vidro.
Vi o Tomás à distância, sorrindo discretamente com a mulher. Veio cumprimentar-me. Os olhos, sinceros.
Felicidades, Marilena. Fico contente por ti.
Respondi apenas com um aceno e um sorriso. No fundo, agradeci-lhe: só quem nos coloca à prova nos faz conhecer a verdadeira força de dizer não.
À noite, já só com o João, partilhei o que sentia: tranquilidade, plenitude, esperança. Não idealizo. Sei que a vida não é perfeita, mas valorizo a serenidade conquistada, um direito que defendi palavra a palavra.
O melhor de tudo? Sinto, finalmente, que pertenço ao meu próprio presente. O resto é caminho e faço-o sem receio, lado a lado com quem realmente me respeita.
Lisboa, nesta noite clara de outono, parece uma promessa possível.
MarilenaEnquanto caminhávamos juntos pela rua deserta, de mãos dadas, o silêncio era bom. Podia ouvir os batimentos do meu coração, calmos, compassados com os passos do João. Lisboa respirava devagar, longe do bulício, as luzes a desenharem reflexos dourados no Tejo. Parei um instante, inclinada sobre o parapeito do miradouro.
O João olhou-me curioso.
Em que pensas?
Sorri, deixando o vento brincar com os cabelos.
Penso que só agora entendo: nunca foi sobre recomeçar do zero. Foi sobre me encontrar, mesmo entre os cacos do que sobrou.
Ele envolveu-me num abraço tranquilo; o corpo dele era abrigo, mas as minhas pernas sustentavam-me firmes.
Acho que é assim que sabemos que estamos onde devíamos estar sussurrou.
Ficámos ali, o barulho dos elétricos ao longe, o mundo todo suspenso por um momento perfeito. Respirei fundo, sentindo cada detalhe daquele instante: o cheiro do rio, o calor da mão dele, a certeza de que tudo era possível.
Fechei os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, desejei que o tempo passasse devagar.
No coração de Lisboa e em mim mesma nasceu um novo começo. E nem precisei de mais nada para ser feliz.







