Os parentes querem nos visitar porque moramos perto da praia

Os meus amigos, Tiago e Leonor, vivem mesmo junto ao Atlântico, naquela zona onde as gaivotas parecem ser mais organizadas do que o trânsito em Lisboa. No verão passado, o casal foi a um batizado Tiago ia ser padrinho, imaginem só a distinção! Depois da cerimónia na igreja, como manda a tradição portuguesa, seguiu-se uma festinha animada. Lá, cruzaram-se com os avós do afilhado. Durante toda a noite, os avós não paravam de se entusiasmar com a sorte do neto ter um padrinho como Tiago. Pareciam genuinamente radiantes por estarem ligados a uma pessoa tão extraordinária pelo menos, aos olhos dos avós.

O detalhe que mais lhes encheu o coração foi saber que Leonor e o marido moram à beira-mar.

Que padrinho fenomenal, suspirava a avó, com aquele brilhozinho na voz. E ainda por cima ele mora junto ao mar que maravilha! Agora temos alguém a quem visitar na costa! Nem será preciso alugar nada, que isto de família é tudo gente simpática. Que bom, Tiago, que sorte sermos parentes!

Pois quem diria que a avó do afilhado levaria as palavras tão a sério? Passadas umas semanas, lá estava ela de malas, chapéu e energia a dobrar. Embora o pai do afilhado, o senhor António, tivesse telefonado antes a Tiago, a perguntar se os pais podiam ficar três ou quatro dias. Depois de algum debate doméstico, Leonor e Tiago decidiram receber os ilustres familiares. Recusar familiares em Portugal? Isso era capaz de virar assunto para as vizinhas durante três meses, pelo menos!

Era pleno mês de agosto, com a praia mais concorrida do que o Rossio em hora de ponta, e Tiago e Leonor trabalhavam todo santo dia. Receber visitas até que não era conveniente. Leonor teve mesmo de pedir um dia de folga para garantir que os convidados fossem recebidos à maneira portuguesa, com bolinhos e café.

Os avós instalaram-se, aproveitaram a praia, apanharam uns escaldões discretos e, entre expressões de gratidão e elogios ao pãozinho local, lá fizeram as malas e despediram-se.

Vendo que o seu T2 já estava mais cheio do que o elétrico 28 em dia de chuva, Leonor decidiu que a próxima vez iria responder com um firme agora não, obrigada caso a família decidisse surpreendê-los novamente com uma visita de felicidade. Uma coisa é receber amigos e o afilhado aí sim, até dá gosto. Mas pais dos amigos já é puxadote, especialmente em tempos de crise, quando é preciso guardar uns euros para enfrentar o inverno com dignidade.

Ao saber deste episódio, fiquei apenas admirado com uma coisa: os pais dos amigos já ambos com idade para terem desconto no comboio criaram filhos e netos sem nunca perder o espírito aventureiro. Terá sido só vontade de aproveitar o ramo da família junto ao mar ou estavam mesmo a ver se arranjavam alojamento grátis à beira-onda?

Acho que sim, e, pelo que parece, prometeram voltarNo final, enquanto contemplavam o silêncio pós-visita e as recordações deixadas uma toalha esquecida na varanda e um saco de bolacha Maria meio vazio Tiago e Leonor perceberam que, afinal, de vez em quando, é preciso deixar entrar a tempestade das famílias, mesmo que desarrume a casa e o calendário. Porque o mar, tal como as visitas inesperadas, traz sempre areia para dentro e histórias para fora. E assim, entre um convite hesitante e uma mala improvisada, aprenderam que o dom de ser padrinho talvez seja mesmo saber abrir portas. Quem sabe, num próximo verão, apareçam os primos, com barcos de papel e sonhos na bagagem e a costa ficará ainda mais animada. Afinal, as melhores ondas são sempre as que nos apanham desprevenidos.

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Os parentes querem nos visitar porque moramos perto da praia
Няма щастие без борба