A minha esposa sempre foi uma mulher de uma timidez ímpar. Quando estávamos entre amigos, mantinha-se reservada e delicada, sempre de sorriso contido. Jamais se adiantava a dar opinião, só falando se alguém lhe dirigisse diretamente uma pergunta. Nunca fez escândalos, nem cenas de ciúmes. Demonstrava carinho pelos gestos, nunca impunha exigências, e aceitava cada presente meu com um brilho agradecido no olhar.
O nosso casamento parecia, por todos os lados, perfeito. Não havia segredos entre nós, decidíamos tudo juntos, conversando calmamente. Quando eu regressava a casa depois de um longo dia de trabalho, sabia de antemão que encontraria um jantar quente à mesa, a casa bem arrumada e a minha mulher à minha espera, sempre com um sorriso sereno. Que mais poderia pedir alguém da vida?
Mas o tempo ensina-nos que, por vezes, a inquietação humana é traiçoeira. Apesar de toda aquela harmonia, eu queria aventura. Faltava-me algo na nossa intimidade: quase não existia, e isso incomodava-me mais do que desconfiava. Deixei-me vencer pelo desejo de novidade e decidi envolver-me com outra mulher.
A Leonor soube de tudo, e o nosso casamento chegou ao fim.
Fui viver com a tal amante, e só então, demasiado tarde, apercebi-me da tolice que cometera. Aquele apartamento nunca estava arrumado, ninguém cozinhava para mim, e, quando conversávamos, as palavras ficavam soltas, sem entendimento real. Senti-me sozinho como nunca.
Quando percebi o erro, tentei voltar para a Leonor, mas não consegui a tempo. Nessa altura já estava ela nos braços de outro homem.
Nunca hei de perdoar-me. Por pura tolice, perdi a mulher ideal.






