Depois de quatro meses de troca de mensagens, aceitei encontrar-me com o António um senhor de 52 anos e o nosso encontro começou logo com cinco queixas.
Costuma-se dizer que a antecipação de um acontecimento é muitas vezes mais doce do que o próprio evento. No caso da Filomena, essa expectativa prolongou-se por quase quatro meses, transformando-se numa espécie de novela digital com episódios diários.
Durante esse tempo, Filomena aprendeu os gostos de António ao detalhe, decorou os nomes dos amigos dele de infância e já nem estranhava o hábito dele de pôr três reticências depois de cada bom dia.
Filomena tinha quarenta e cinco anos aquela idade em que se vai a um encontro não com as pernas a tremer, mas com a curiosidade irónica de um explorador. Vamos lá ver o exemplar de hoje, pensava ela, enquanto se arranjava.
Era uma daquelas mulheres que sabem vestir um simples pulôver de caxemira como se fosse uma capa real, e têm uma autoironia capaz de salvar qualquer situação embaraçosa.
António, recém-feito nos cinquenta e dois, mostrava-se na conversa alguém sério, ponderado, um pouco irónico e o que mais seduzia fiável.
No nosso tempo, Filomena, escrevia ele já tarde, procura-se menos fogo de artifício e mais calor. Apetece estar com uma mulher que entende sem ser preciso falar.
Sem palavras, então, muito bem, ria Filomena enquanto passava máscara nas pestanas. Só esperava que as palavras que viessem não lhe dessem logo vontade de fugir.
Combinaram o encontro num pequeno café acolhedor, de luz suave e cheiro a canela. Filomena chegou pontualmente arranjada, confiante, preparada para uma boa noite. Estava impecável.
António apareceu cinco minutos depois. Ao vivo, era um pouco mais baixo do que nas fotos e tinha um olhar de quem acabou de encontrar um erro grave na contabilidade.
Sentou-se em frente, sorriu de forma breve e cumprimentou.
Nem um elogio, nem um caloroso que bom ver-te.
António avaliou Filomena minuciosamente, como se estivesse a inspecionar algo. Depois sugeriu que pedissem café com um pastel de nata foi o que fizeram.
Filomena, começou ele num tom de professor, pensei muito sobre a nossa comunicação. Quase quatro meses. E agora, vendo-te ao vivo, achei melhor partilhar logo alguns pontos importantes. Tenho cinco críticas a fazer.
Por dentro, ouvi um estalido aquele som subtil que se faz quando o bom humor se parte. Filomena apoiou o queixo na mão e acenou.
Cinco críticas? Parece interessante. Força, estou a ouvir.
António não percebeu a ironia e levantou o primeiro dedo.
Num daqueles retratos, com o vestido azul, a tua figura parece outra. Agora vejo que és mais voluptuosa. Isso pode enganar os homens. Nesta idade, uma mulher deveria ser mais honesta.
Filomena sorriu por dentro. Voluptuosa já é uma evolução, pelo menos não disse monumental.
Segunda crítica: tempo de resposta
Às vezes respondes muito devagar. Por exemplo, há três semanas escrevi-te às 14h15 e só respondeste às 16h40. Homens não gostam de esperar. É uma falta de respeito.
Acho que nessa altura estava numa reunião começou ela, mas António já continuava.
Terceira crítica: local do encontro
Porque estamos aqui? Este lugar é demasiado chique. Sugeri algo mais simples. Esse teu gosto revela tendência para consumismo ostensivo.
Filomena olhou para o galão e teve vontade de o despejar na cabeça do António. Mas a curiosidade ganhou.
Porque vieste vestida assim? Só viemos beber café. É demasiado chamativo durante o dia. As joias também estão a mais. Uma mulher devia atrair pela sua profundidade, não pelo brilho. Eu, com a minha idade, procuro conteúdo, não montra.
Quarta crítica: independência
Escolheste o restaurante sozinha, dizes frequentemente sozinha. Não deixas o homem sentir-se homem. Eu procuro uma mulher que peça conselhos, não que mostre independência. Se estivermos juntos, vais ter de rever esse comportamento.
Terminou e cruzou os braços, à espera de arrependimento ou agradecimento pela franqueza.
Filomena olhou para ele e percebeu claramente: os quatro meses de mensagens eram só a máscara conveniente de um manipulador metódico. Procurava não calor, mas alguém que alimentasse o seu ego.
Sabes, António, disse ela, suave e quase carinhosa, eu também analisei muito. Bastaram-me cinco minutos para chegar a uma conclusão.
Qual? perguntou ele, semicerrando os olhos.
És um espécime raro. Cruzaste Lisboa para apresentar uma lista de críticas à mulher que acabaste de conhecer, só por causa dos seus gostos, aparência e direito a ser ela própria. É uma confiança admirável.
António ficou sério:
Só estou a ser sincero.
Não, abanou a cabeça Filomena. Não é sinceridade. É infelicidade, e tentas medir o mundo com uma fita torta. Os meus retratos não te agradam? Vai ao museu, lá os quadros não mudam. Eu demoro a responder? Arranja um Tamagotchi. Não gostas do vestido? Não é para ti, é para mim.
Levantou-se, ajeitou a mala e olhou serena para ele:
E mais. Se o teu ego se desmorona com o sozinha, não precisas de romance, mas de recuperação. Aos quarenta e cinco valorizo demasiado o meu tempo para o gastar com alguém que inicia o contacto a enumerar os meus defeitos.
Vais-te embora? E o café? murmurou António.
Bebe tu, é uma poupança para as tuas energias. E um conselho: se queres que te olhem para a boca vai ao dentista.
Em casa, Filomena bloqueou António em todas as apps. Para ela, nessa idade, conforto não é só manta e silêncio, mas também um telemóvel livre de quem tenta encaixá-la no seu modelo distorcido.
No final do dia, percebi que perder tempo com quem começa por cobrar aquilo que somos nunca compensa. Nos meus anos, aprendi: o respeito próprio vale mais do que qualquer encontro mal conseguido.






