Deita-o à rua. Encontrei o gato doméstico da vizinha quase a morrer ao frio, mas a dona recusou-se a salvá-lo
Leonor sempre olhou com certa desconfiança para o gato da vizinha. Não tinha nada contra gatos, mas aquele gato enorme, atrevimento puro, conseguiu tirá-la do sério uma vez de tal forma que ficou marcada.
Esta é uma história sobre a importância de nunca deixarmos de ser humanos, independentemente das circunstâncias.
Naquele verão, o gato do lado, Tobias, tomou o mau hábito de usar as hortas alheias como casa de banho. Leonor apanhou-o várias vezes no seu pequeno canteiro o animal, com ar seríssimo, escavava a terra como se estivesse numa escavação arqueológica. Leonor corria atrás dele, gritando, mas o Tobias fugia com calma olímpica. A casa de campo de Leonor era modesta, mas bem sólida herdada da avó e bem situada, numa vila à beira de Lisboa.
Bastava descer a rua e já se estava no campo a sério. Mas a paragem do autocarro logo ali fazia parecer que a cidade era já ali. Em miúda, Leonor adorava aquelas idas ao campo. Mesmo depois da morte da avó, voltava quase todos os fins de semana: levava as amigas, faziam churrascos, apanhavam amoras, acendiam o forno a lenha. Nos pinhais próximos era só querer que se enchia um cesto de míscaros para o jantar. O sossego, o cheiro a terra, o espaço livre tudo o que precisava para fugir da cidade. A prima Luísa, filha do tio António, irmão da mãe, vivia nessa mesma aldeia. Sempre juntas desde pequenas. Entre hortas e ribeiros, nunca faltava o que fazer.
No seu cantinho, Leonor plantava um par de linhas de nabiças, salsa, coentros. Noutra margem crescia cebolinho. Nada de mais, mas era o seu pequeno reino. E foi precisamente aí que o Tobias, gato atrevido, decidiu estabelecer território. Leonor foi ter com dona Celeste, a vizinha. A senhora encolheu os ombros com impaciência: O que é que queres que eu faça? Fico de vigia ao gato, é? Atira-lhe com um pedaço de madeira, se não consegues agarrá-lo!
Celeste não era grande fã de gatos: sempre dizia que preferia cães a léguas de distância. O Tobias era herança do marido já falecido, Joaquim. Ficou com o bicho por obrigação, não por gosto. Mas era gato matreiro apanhava ratos como ninguém e, dizia-se, até peixe roubava ao pescador. Acompanhou sempre o dono à pesca, só precisava de abrigo nos dias de chuva ou frio intenso.
Leonor travava uma verdadeira guerra com Tobias. Tentou conversar, tentar ser simpática, até lhe deu uns biscoitos de gato comprados na loja. Nada feito o gato ignorava as guloseimas da cidade. Observava-a de longe, desconfiado, nunca a menos de cinco metros.
Um dia, Leonor atirou-lhe com água fria do regador. Noutro, saiu para a horta com um apito. Ao ver Tobias a transgredir, correu atrás dele apitando como uma árbitra de futebol. Depois, desatou às gargalhadas, lembrando-se do gato a saltar a vedação e a olhar-lhe nos olhos como quem diz: Isto é jogo sujo!, e de cauda erguida, a desaparecer entre os arbustos.
Dona Celeste assistia a tudo do lado de lá da cerca, a rir-se da cena. Especialmente agora que finalmente se tornara numa mulher de cães a filha deixara-lhe a pequena cadelinha Mel para passar umas semanas, e a vizinha já tinha entretém que bastasse. Leonor, cansada da guerra às plantas, resolveu o problema de outra forma: foi ao armazém e trouxe três sacas de aparas de madeira, espalhou num canto vazio da horta, junto às urtigas.
Tobias gostou da “prenda”: passou a escavar só ali. Leonor deu graças a Deus. Só que depois reparou: o gato vigiava-a, ora entre as silvas, ora do telhado, ou espreitando por buracos no muro. Uma noite, já tarde, ao sair ao quintal, quase perdeu o tino ao ver dois olhos brilhantes na escuridão. O grito de Leonor deve ter sido ouvido em toda a aldeia. Ela e Tobias mantinham relação formal, nunca dava para adivinhar onde ele apareceria a seguir.
No final do verão, com o regresso às aulas na faculdade, Leonor ia menos vezes ao campo, só mesmo ao fim de semana.
Numa dessas idas, ao sair para o quintal de manhã, encontrou um vulto coberto de geada no alpendre dos fundos. Tobias estava ali. O bichano, enorme, coberto de neve, bigodes gelados, sentado sem se mexer, com o olhar no chão. Quando Leonor sacudiu a neve, não reagiu. Passou-lhe a mão no pelo: Tobias, com a boca entreaberta, tentou miar mas nem sopro conseguiu soltar.
Sem pensar, Leonor pegou nele e levou-o para dentro de casa. Envolveu-o numa manta, aqueceu-lhe o focinho e derreteu-lhe o gelo dos bigodes com uma toalha morna. Tobias não reagia: estava exausto demais. Depois de o cercar de garrafas com água quente, foi em passo apressado à porta de Celeste.
A resposta foi fria: Ele agora mora no anexo. Andou a sujar a casa toda, a marca-la toda, e ainda saltou para cima da cadela. Já não entra mais! Com a chegada da Mel, Tobias começou a atacar a cadela e a marcar território. Dona Celeste, para evitar confusões, despejou o gato para o anexo lá fora.
O verão passou, mas o inverno naquele anexo sem isolamento estava a matá-lo. Leonor tentou argumentar: Sempre caçou, sempre acompanhou o teu Joaquim Agora só tem frio. Mas Celeste réplicou: Deitei-lhe ração na panela que coma e beba neve se quiser! Não morre à fome! Atira mas é o gato para a rua!
De volta a casa, Leonor percebeu: o gato veio até si porque buscava salvação. Sem mais esperança junto da dona, procurou-na a ela com quem travara batalhas todo o verão.
Leonor ligou a meia aldeia a ver se alguém queria ficar com o gato. Ninguém se voluntariou. A prima sugeriu pô-lo no curral com a vaca e os porcos menos frio ao menos, mas não podiam levar para dentro; já tinham gatos.
Tobias, aquecido, saiu da manta, caminhou devagar pela sala, roçou-se na perna dela, e ficou a olhar: olhos fixos, como se pedisse por uma segunda oportunidade. Leonor suspirou e telefonou à mãe. Esta, habitualmente irredutível quanto a animais em casa, lembrou-se do bom coração do Joaquim e de como ele ajudava a avó de Leonor. Recordou como partilhava peixe com todos, sempre acompanhado pelo gato fiel. Uma lágrima teimosa correu-lhe pelo rosto, pensando naquele animal já velho e abandonado.
A decisão chegou, natural.
Na mercearia, Leonor comprou uma caixa plástica com pega. Tobias acomodou-se nela, e partiram ambos para Lisboa. Aquela era a sua segunda chance, uma nova vida a começar.







