Em 1951, um rapaz australiano de 14 anos, James Harrison, acordou numa cama de hospital… com cem pontos no peito. Os médicos tinham-lhe acabado de remover um pulmão para que pudesse sobreviver

Lembro-me de uma história, passada há muitos anos, que ainda ecoa nos nossos corações portugueses. Em 1951, uma jovem rapariga chamada Matilde Duarte, com apenas 14 anos, acordou numa cama de hospital em Lisboa Com mais de uma centena de pontos no peito. Os médicos tinham acabado de lhe retirar um pulmão. Para sobreviver, precisou de 13 transfusões de sangue, todas de pessoas completamente desconhecidas cujos nomes nunca viria a saber.

O seu pai, Manuel Duarte, estava sentado a seu lado e proferiu palavras que mudariam para sempre a vida de Matilde:
Estás viva apenas porque alguém doou sangue.

Naquele instante, Matilde fez uma promessa: quando completasse 18 anos, também ela seria dadora. Ofereceria aquilo que um dia lhe salvara a vida.

No entanto, havia um obstáculo: Matilde tinha pavor de agulhas. Ainda assim, no dia em que atingiu a idade permitida para doar sangue, apresentou-se no Hospital de Santa Maria. Sentou-se na cadeira, fixou o olhar no teto e deixou que a enfermeira lhe espetasse a agulha.

Nunca olhou. Nem uma única vez.

Durante longos 64 anos.

Não sabia então que havia algo de muito especial no seu sangue.

Após algumas dádivas, os médicos fizeram uma descoberta notável: o seu plasma continha um anticorpo raríssimo provavelmente resultante das transfusões que recebera em criança. Este anticorpo podia prevenir o temível problema do conflito Rh, que tantas vidas de bebés tirava em Portugal.

Antes disso, milhares de bebés portugueses morriam todos os anos. Se uma mulher com sangue Rh-negativo engravidasse de um filho com sangue Rh-positivo, o seu organismo podia atacar as células sanguíneas do bebé levando a abortos, nados-mortos ou lesões cerebrais profundas.

E a solução estava no sangue de Matilde.

Os médicos perguntaram-lhe se estaria disposta a doar não só sangue, mas plasma. Isso exigia sessões mais longas de 90 minutos em vez dos habituais 20. E regulares visitas ao hospital durante toda a vida.

Matilde pensou no seu medo. E depois, pensou nas crianças.

Respondeu: sim.

Durante 64 anos, Matilde Duarte nunca falhou uma única dádiva.

Doou plasma em dias de alegria e em momentos de profunda tristeza. Fê-lo enquanto trabalhava na Carris, e continuou depois de se reformar. Nem mesmo após a morte do seu marido, António, em 2005 época a que chamou o período mais sombrio da sua existência.

Em cada uma das 1173 dádivas, Matilde fixava o olhar no teto, conversava com as enfermeiras, contava os azulejos azuis das paredes fazia tudo para não olhar para a agulha.

O medo nunca desapareceu.
Mas mesmo assim, ela voltava.

E o destino reservou-lhe outro capricho extraordinário: a sua própria filha, Clara, precisou do medicamento desenvolvido a partir do plasma de Matilde quando engravidou. O seu neto, Gonçalo, está vivo graças à decisão tomada pela avó, décadas antes.

Em maio de 2018, com 81 anos, pelas leis portuguesas, Matilde fez a sua última dádiva de plasma.

Na sala estavam mães com bebés saudáveis ao colo a prova viva do seu altruísmo silencioso. Agradeceram-lhe com lágrimas nos olhos.

Matilde sentou-se pela última vez na cadeira de dadora. Desviou o olhar. E doou plasma pela 1173ª vez.

Desde 1967, em Portugal, já foram distribuídas mais de 3 milhões de doses do medicamento Anti-D feito a partir do seu sangue. Calcula-se que o seu dom tenha ajudado a salvar cerca de 2,4 milhões de bebés portugueses.

Sempre que lhe chamavam heroína, Matilde encolhia os ombros:
Só faço o que posso, na segurança de um hospital. No fim, dão-me café e um pastel de nata. E vou para casa. Não custa nada.

Matilde Duarte adormeceu em paz, noite dentro, a 17 de fevereiro de 2025, aos 88 anos.

Costumamos procurar heróis nos livros de história, nos filmes, entre pessoas com superpoderes, riqueza ou fama.
Mas por vezes, o verdadeiro herói é aquele que, durante 64 anos, mantém uma promessa.
Alguém que sente medo um medo real, paralisante mas, mesmo assim, faz o que tem de ser feito.

Hoje, milhões de portugueses vivem porque uma mulher decidiu que o seu medo era menos importante que a vida dos outros.

E tu? Que pequeno, mas corajoso, passo podes dar mesmo que te assuste?

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Em 1951, um rapaz australiano de 14 anos, James Harrison, acordou numa cama de hospital… com cem pontos no peito. Os médicos tinham-lhe acabado de remover um pulmão para que pudesse sobreviver
Na brehu Dunaja sa ku mne priblížil zvláštny chlapík a všimol som si znamienko pod jeho ľavým uchom. V tej chvíli mi v hlave zazneli slová môjho strýka: „Svoju spriaznenú dušu stretneš na brehu Dunaja.“