Se atravessares este limiar agora, não haverá caminho de volta. Vou bloquear todos os cartões a voz de André soava fria, como se repreendesse um subordinado desleixado, não a mulher com quem partilhara a cama e as alegrias dos últimos quinze anos.
Lurdes ficou imóvel na larga entrada. Os dedos apertavam até ficar pálido o cabo de plástico da mala de viagem.
Por trás das janelas panorâmicas do apartamento de luxo no coração de Lisboa, o inverno de novembro rugia, lançando neve úmida contra o vidro espesso; dentro, o interior de design impecável impregnavase no perfume caro do marido e numa mentira alheia.
Podes bloquear os cartões agora mesmo respondeu ela, calma mas firme, encarando os olhos de aço dele. Não preciso de nada de ti.
Ah, Lurdetinha! riu André, nervoso, ajeitando as abotoaduras de prata na camisa perfeitamente engomada. Aonde vais? O que te resta aos quarenta e três anos sem experiência moderna? Acostumastete a spas, a empregadas domésticas e a férias nas ilhas da Madeira. Clara é só um capricho, um símbolo de status, entende? É assim que vivem os grandes. Acalmate, faz as malas e amanhã vamos escolher um carro novo. Esquece esta discussão tola.
Clara não é símbolo de status, André. É uma jovem que seria mais nova que a nossa filha ainda não nascida. É um diagnóstico terrível para o teu orgulho. E não é assim que vivemos todos Lurdes virouse bruscamente, jogou o casaco por cima dos ombros e empurrou a pesada porta da entrada. Adeus.
O elevador silencioso deslizou para baixo, afastandoa da traição suja, da gaiola dourada na qual fora a esposa perfeita, compreensiva e perdoadora por tantos anos.
Lurdes entrou no seu velho Renault Clio a única coisa de valor registrada em seu nome antes do casamento e girou a chave. Os varreiros raspavam a neve grudada no parabrisas com o som estridente das lâminas.
À sua frente estendiase o desconhecido, porém, pela primeira vez em longos anos, o ar parecia leve. O peso das expectativas alheias deixara de sobreporse aos seus ombros frágeis.
A viagem não era longa, mas a nevasca fez o trajeto até a Beira Baixa durar cinco horas. Chegou à aldeia dos Três Montes, onde ficava a casa de madeira do seu avô falecido, o conhecido curandeiro da região, Matheus Silva. Lurdes não pára na aldeia há mais de dez anos.
A casa recebeua com uma humidade penetrante, cheiro a folhas apodrecidas e ratos. A eletricidade ainda funcionava, mas a lâmpada amarelada no teto ressaltava a miséria do ambiente: papel de parede descascado, uma estante torta, um velho fogão a lenha que ocupava metade da sala.
Lurdes dormiu vestida com o casaco, coberta por dois mantos empoeirados, ouvindo o vento uivar lá fora. Chorava em silêncio, sem som, para não impedir a tênue esperança de uma nova vida que começava a germinar em seu coração.
Na manhã seguinte o frio bateua o rosto como uma bofetada. Precisava cortar lenha, buscar água na fonte da rua ao lado e sobreviver com as modestas poupanças que ainda tinha na conta bancária.
Uma semana depois arranjouse como atendente na única mercearia da aldeia. O trabalho era duro: carregava latas de atum, enfrentava o frio atrás do balcão e escutava as fofocas dos locais.
Olha, gente da cidade, trazme pão fresquinho, não o de ontem! resmungava frequentemente a senhora Valentina, a carteira da vila, examinando suspeitosamente as mãos de Lurdes, ainda bem cuidadas, embora já marcadas por pequenas fissuras.
Lurdes apenas sorria educadamente. Não reclamava. Cada balde de peixe vendido, cada barra de pão que saía da prateleira devolvia a ela a sensação de controle sobre a própria vida.
Decidiu limpar o sótão abarrotado de tralhas para procurar as antigas botas de couro do avô. Entre pilhas de jornais amarelados da época da ditadura e móveis quebrados, encontrou um baú robusto de carvalho, revestido de ferro escurecido.
A pesada fechadura enferrujada cedeu depois de alguns golpes de martelo. Dentro exalava erva-doce e papel antigo. Sob uma camada de camisas de linho, Lurdes descobriu cadernos grossos costurados com fio áspero os diários do avô Matheus.
À noite, sentada à beira da lareira quente, liaos com prazer. O avô não fora apenas um curandeiro rural; na juventude estudara farmácia em Coimbra, mas após a guerra instalouse na zona afastada.
Os diários continham centenas de receitas únicas: pomadas curativas de própolis e terebintina de pinho, infusões calmantes, extratos rejuvenescedores de raiz de alcaçuz e rosa silvestre.
Mas uma anotação datada de 1989 fez o coração de Lurdes disparar. Era o início de um verdadeiro mistério.
As pessoas buscam salvação no dinheiro, esquecendose de que a força verdadeira está na terra escrevia o avô. Quando a família se desfez e meu irmão tentou tomar a casa com documentos falsos, percebi que só a natureza pode ser confiável. O tesouro que salvará nossa família nos dias mais sombrios está escondido onde a velha bétula chora, junto ao poço abandonado. Que sirva a quem, da nossa linhagem, chegar aqui com o coração despedaçado e a mente limpa.
Lurdes fechou o caderno. O poço abandonado ficava no extremo da sua extensa propriedade. Próximo dali, realmente crescia uma enorme bétula com galhos curvados.
Ao alvorecer, armouse com uma pá e um arado. A neve chegava à altura dos joelhos, e o solo congelado era duro como pedra. Lurdes limpou a área ao pé da árvore e começou a bater suavemente o chão. Por duas horas lutou contra o gelo e o desespero, até que o arado soou contra algo metálico.
Com as mãos trêmulas arrancou das raízes uma caixa de lata enferrujada, parte de um antigo monpasse. A tampa cedeu com esforço. Dentro, envolvidas em tecido engraxado, cintilavam fracamente moedas de ouro moedas de ouro português do reinado de D. João VI. Aproximadamente trinta peças.
Ao lado, repousava um pergaminho com as receitas mais valiosas do avô, escritas em pergaminho grosso.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Lurdes. O avô, através das décadas, parecia-lhe oferecer a mão que salvava.
No dia seguinte dirigiuse ao centro da cidade, ao museu numismático, pagou as comissões necessárias e vendeu metade das moedas. O dinheiro obtido foi suficiente não só para reparar a casa, mas também para concretizar um sonho ousado.
Lurdes deixou o comércio. Encomendou equipamento profissional: esterilizadores, exaustores, frascos de vidro. Transformou a varanda numa verdadeira laboratório iluminado. Na primavera inteira recolheu ervas segundo o mapa do avô, macerou óleos, fundiu cera.
Produziu um frasco de bálsamo curativo para mãos rachadas. Três dias depois, a carteira Valentina chegou, radiante.
Lurdetinha! És uma bruxa boa! As mãos parecem de jovem! Vendeme mais cinco frascos, que todas as senhoras da correia precisam!
O bocaaboca espalhouse num instante.
Ao outono, Lurdes já não conseguia atender a todos os pedidos sozinha. Contratou duas mulheres da aldeia, formalizou um MEI e lançou a marca de cosmética natural Segredo do Curandeiro. Cremes artesanais encontraram rapidamente público nas redes, blogueiros elogiavam as fórmulas, e lojas de produtos ecológicos em Lisboa formavam fila para comprar.
Era uma noite de agosto, quente e perfumada com aroma de maçãs. Lurdes sentavase na nova varanda da casa restaurada, vestindo um simples mas elegante vestido de seda bruta, o cabelo bem arrumado. Bebia chá de ervas enquanto revisava os relatórios de vendas mensais. Nos olhos já não havia a sombra da condenação, apenas a serenidade de quem domina o próprio destino.
Um táxi parou junto ao portão de madeira recémpintado. O portão rangiu e, mancando, entrou um homem. Lurdes arregalou os olhos, sem acreditar. Era André.
Mas o homem que outrora fora um executivo impecável não tinha mais a mesma aparência. Estava magro, o terno caro pendia dele como um cabide, os cabelos estavam grisalhos e o rosto assumia um tom terroso, como se o tempo o tivesse corroído.
Olá, Lurdetinha a voz tremia quando chegou à escada da varanda, hesitando em subir.
Olá, André. Que caminhos te trouxeram até aqui? respondeu ela, firme, sem ira nem prazer. Não restava mais emoção para ele.
Quase não te achei Soube que te tornaste chefe, abriste teu próprio negócio.
Ele sentouse pesado no banco de madeira, ofegante.
Perdi tudo, Lurta começou, confuso e triste. Clara não era só uma tola. Conspiraram com o meu diretor financeiro; desviaram recursos da empresa para contas falsas. Quando o fisco começou a investigar, desapareceram. Deixaramme com dívidas milionárias.
Lurdes ouviuasó, observando as mãos magras fraquejarem.
O banco confiscou o apartamento, a carroceria também. Diagnosticaramme uma úlcera de origem nervosa. Passei um mês internado, quase morri. Ninguém veio visitar Lurta, sou um tolo. Troquei ouro verdadeiro por vidro barato.
Ele levantouse, os olhos vermelhos de lágrimas.
Perdoame, imploro! Sabes que tens a produção Eu poderia ajudar! Sei negociar, conheço a logística. Vamos começar de novo. Eu carregarei o teu nome nos ombros!
Lurdes o encarou, e uma calma estranha expandiuse em seu interior. O boomerang cósmico, que sempre volta àquele que semeia dor e traição, atingiu André com força devastadora. O universo não perdoa a traição; cada lágrima derramada naquele inverno frio há três anos foi paga com a ruína dele.
Perdoeite há muito tempo, André a voz de Lurdes era suave como brisa de verão. O rancor é veneno que só quem o bebe se envenena. Eu prefiro beber água pura.
O rosto de André brilhou com tímida esperança; tentou levantarse.
Mas isso não significa que poderás voltar à minha vida respondeu Lurdes, firme. Não vamos recomeçar. Traísteme, traíste a família. Quem trai por interesse volta a fazêlo. A minha casa, o meu negócio, as pessoas que trabalham comigo são a nova família. Não permitirei que arrastes tudo ao teu abismo.
Levantouse, entrou na casa e, um minuto depois, voltou com um frasco escuro de vidro.
Toma. É extrato denso de espinheirosilvestre com própolis, receita do avô. Cura perfeitos úlceras estomacais. Toma meia colher de chá em jejum.
André aceitou o frasco, confuso. Os lábios se moveram sem som, como se quisesse dizer algo, mas ao encontrar o olhar impenetrável de Lurdes, abaixoua a cabeça.
Adeus, André disse ela, virandose, encerrando a conversa.
Ele caminhou lentamente até o portão, arrastando os sapatos sobre a cascalheira. Lurdes ficou na varanda, observando o táxi levar embora o seu passado para sempre.
Os períodos difíceis parecem às vezes o fim da luz, castigos injustos do destino. Contudo, às vezes a traição de quem se ama tornase o impulso salvador que nos desperta. Desfaz as ilusões, remove os óculos cor de rosa e abre as portas ao verdadeiro propósito.
Basta encontrar dentro de nós a força para não endurecer, perdoar os ofensoras e começar a construir a felicidade com as próprias mãos.
Lurdes fez o que era certo? Ou deveria ter aceitado André de volta? Essa pergunta ecoa nos corredores da sua nova casa, onde o perfume da ervadoce ainda se mistura ao aroma da vitória.







