Diário,
Hoje voltei a acordar na nossa casa de campo em Trás-os-Montes, e logo percebi que a vizinha de ontem já estava outra vez encostada ao nosso muro, espreitando curiosa para o interior do quintal. A Matilde saiu à porta, determinada, e abordou a vizinha num tom pacífico, mas firme: Hoje temos imenso que fazer, não vamos conseguir conversar como ontem. A Benedita assim se chama a vizinha não se ficou: E amanhã, posso passar cá? Matilde respondeu-lhe sem hesitar: Vai ser igual amanhã. No geral, não vale a pena continuar a vir ter connosco.
Por vezes pergunto-me se a minha ideia de viver na cidade algum dia fez sentido. Sinto que nos afastou do essencial.
Matilde herdou esta casa depois de os pais dela, o senhor Manuel e a dona Rosário, partirem. Íamos visitá-los muitas vezes. Gosto de recordar quando nos sentávamos todos à sombra da pereira, a conversar horas até ao anoitecer, enquanto a brisa do campo enchia o ar. No Inverno, era a lareira acesa que reunia a família com cheiro a broa acabada de cozer e filhoses sobre a mesa. Havia nesta casa uma vida diferente, cheia de cheiros e sabores que não se esquecem.
Eu e Matilde sempre adorámos esquiar na Serra da Estrela e levar o trenó para a neve. Depois, os pais dela faleceram. Ainda pensámos vender a casa, mas decidimos que seria nosso refúgio no campo, como antes. Na verdade, nunca mais voltámos tanto como queríamos. A vida na cidade roubou-nos o tempo. Sem darmos conta, os anos foram passando.
O nosso filho, Ricardo, casou-se com a Leonor rapariga desenrascada de Coimbra. Falava muitas vezes no quanto gostava de passar o verão numa aldeia, respirar ar puro, acordar com o som dos galos. Lembrámo-nos novamente desta casa esquecida.
Eu e Matilde viemos para cá antes deles, para ver o estado da casa depois de tanto tempo ao abandono. Não estava como esperava: bastou um pouco de limpeza e tudo começou a ganhar vida. Enquanto a Matilde tratava do interior, pus-me a varrer o quintal, a reparar portadas, a arranjar o velho banco de jardim debaixo da pereira. Depois chegaram o Ricardo e a Leonor, cheios de vontade de ajudar. Em poucas horas, a casa voltou a parecer lar.
Foi no primeiro jantar, já o cheiro do bacalhau no forno enchia o ar, que reparei na vizinha de olhar atento encostada ao muro. Disse que tinha comprado a casa ao lado há pouco tempo e vivia sozinha. Quis fazer conversa, contou-nos dos seus netos e da filha, que também mora por aqui, do seu divórcio, do quanto aprecia companhia. Chamava-se Benedita, falava sem parar, mas a certa altura, percebi que ela estava debaixo da mesa a tentar roçar-me o pé. Fiquei atrapalhado, tentei afastar-me discretamente que coisa mais embaraçosa!
Não queria de modo nenhum que a Matilde reparasse no que se passava. Por sorte, a conversa da Benedita foi servindo de distração, mas senti um alívio quando a refeição acabou. Ao arrumar, Matilde comentou comigo: Aquela mulher não me inspirou confiança nenhuma. Mais vale manter distância. Não lhe contei do pé debaixo da mesa não valia a pena criar problemas desnecessários.
Hoje de manhã, ao ver a vizinha outra vez encostada ao muro, senti que tínhamos mesmo de impor limites. A Matilde foi direta: não podemos estar sempre disponíveis. Não faz sentido continuar a bater-nos à porta, disse-lhe. A Benedita saiu de mansinho, resmungando qualquer coisa que nem me interessou escutar.
Sinceramente, acho que a Matilde fez muito bem. Somos pessoas simples, gostamos da nossa paz e de sinceridade. Sentimo-lo no peito quando alguém não é para nós. Chegámos finalmente a um entendimento precisamos deste espaço para a nossa família, sem visitas indesejadas.
Por vezes, voltar às raízes também é isto: perceber o que queremos e agradecer por termos onde voltar.







