O meu irmão contou-me que a nossa mãe tinha posto as mãos na mulher dele e eu logo percebi que aquilo cheirava a sarilho.
Durante as nossas férias algarvias, a minha mãe ligou-me num pranto que parecia uma novela da TVI. Não parava de chorar e falava como se tivesse visto o diabo. Mal desliguei, mandei mensagem ao meu irmão para perceber o que se tinha passado. O rapaz respondeu seco, dizendo que era melhor perguntar eu própria à mãe, porque ele sabia que eu já devia estar por dentro do assunto. Ainda acrescentou que ela só tinha levado o que merecia. Um baile, portanto. Eu e o meu marido, sem perceber nada do enredo, decidimos dar meia-volta e regressar a Lisboa, mesmo tendo pago uma pipa de massa pelos bilhetes de comboio.
Assim que chegámos, encontrámos a mãe ainda com os nervos à flor da pele, a suspirar como se tivesse corrido a mini-maratona de Lisboa. Dei-lhe um pouco de chá de tília na esperança de a acalmar, e, entre fungadelas, contou-nos o que tinha acontecido. Afinal, quando chegou do trabalho, ficou pasmada ao ver a nora cheia de nódoas negras. Como a rapariga estava grávida, ainda se assustou mais. Correu até ela, abraçou-a e perguntou o que se tinha passado. Nesse instante, o meu irmão entrou em casa, a mulher dele saltou logo do sofá e começou aos berros, a acusar a minha mãe de a ter agredido.
A mãe ficou ali especada, sem saber se aquilo era uma partida dos apanhados ou se estava mesmo a acontecer. O meu irmão, a acreditar na mulher, fez-se homem da casa e pôs a mãe na rua sem dó nem piedade. Depois ainda levou a esposa ao hospital, onde, infelizmente, esta perdeu o bebé. Escusado será dizer que fechou-se em copas, não quis falar connosco e ficou de mal com a mãe, como se ela fosse a vilã da história. Eu, porém, já tinha o faro apurado e confiava nas palavras da minha mãe. Por sorte, a verdade acabou por aparecer e bem de onde menos se esperava.
Foi graças à melhor amiga da minha cunhada, uma mulher com mais juízo do que os dois juntos, que descobri o que se passava realmente. Ela contou-me que a minha cunhada tinha montado tudo, só para manipular o meu irmão e conseguir deitar a sogra na rua. Pior: foi ela própria que interrompeu de propósito a gravidez! Quando o meu irmão soube disto, ficou cego de raiva. Mandou logo a mulher fazer malas e devolver as chaves de casa. Depois, foi pedir desculpa à mãe, arrependido até à quinta casa.
Coração de mãe é um poço sem fundo perdoou tudo e mais alguma coisa. No fim deste filme, abracei-os aos dois na sala, a rir-me agora do drama, porque só mesmo nesta família é que a realidade dá novelas um bigode.







