Entrou num restaurante em Lisboa para comer restos porque morria de fome… sem imaginar que o dono …

Epá, deixa-me contar-te isto, porque nunca me esqueço daquela noite em Lisboa. Imagina-me a caminhar pela Rua Augusta, com o frio a cortar-me até aos ossos, quase a bater dente. O estômago roncava como um cão sem dono, e eu sentia as mãos geladas, quase dormentes. Ia a olhar para as montras dos restaurantes, com todo aquele cheiro a bacalhau no forno e pão acabado de cozer doía mais que o frio, acredita. E nem um cêntimo no bolso.

A cidade estava gelada, mesmo aquele frio que nem cachecol resolve nem meter as mãos fundo no casaco ajuda. Entrava-te nos ossos, deixava-te a sentir pequenina, sozinha, sem teto, sem comida sem ninguém.

Mas aquela fome não era só por não comer há umas horas. Era daquelas que se colava ao corpo, que te fazia ver tudo negro se te levantasses demasiado depressa. Tinha a barriga completamente vazia há mais de dois dias. Só bebi um pouco dágua de uma fonte no Rossio e mordisquei um naco de pão endurecido que uma senhora me deu na rua. Trazia os sapatos rotos, a roupa suja, e o cabelo mais embaraçado do que se tivesse lutado contra uma ventania do Tejo.

Lá ia eu, pela Avenida da Liberdade, a ver as famílias sentadas, aquecidas, a rir-se, enquanto brindavam com copos de vinho. Atrás daqueles vidros, parecia outro mundo. As pessoas soavam felizes, os miúdos a brincar com os talheres, e eu ali quase a chorar só por sonhar com um pouco de pão.

Dei voltas e mais voltas até ganhar coragem e empurrei a porta de um restaurante que cheirava a casa. Devia ser costelinhas de porco e arroz malandro. As mesas estavam quase todas cheias e ninguém me ligou no início. Vi uma mesa acabada de abandonar, ainda com restinhos de comida. O coração bateu mais forte.

Fui pé ante pé, sentei-me, a fingir que era mais uma cliente. Peguei logo num bocado de pão duro que estava no cesto e devorei-o como se fosse um banquete. Meti umas batatinhas frias na boca com as mãos a tremer, só a tentar não chorar. Depois, dei uma trinca num pedaço pequeno de carne já seco. Mastiguei devagarinho, como quem saboreia uma refeição de Natal. E, de repente, ouvi uma voz grossa foi como um choque de realidade.

Desculpe, não pode fazer isso.

Fiquei paralisada. Olhei para o chão, a sentir-me queimar de vergonha.

Era um senhor alto, de fato escuro, camisa engomada e sapatos luzidios como espelhos. Nem parecia empregado de mesa nem cliente. Tinha ar de patrão.

Desculpe, senhor tentei dizer, mas a voz mal me saía Só tinha fome

Juro que tentei empurrar um bocadinho de batata para o bolso, nem sei bem porquê, só por vergonha. Ele ficou a olhar-me, entre o querer zangar-se ou ter pena.

Venha comigo disse, sério.

Recuei.

Eu não vou roubar nada. Só me deixe acabar este restinho e vou-me já embora. Não faço barulho, prometo.

Sentia-me tão pequena, quase invisível, como se só estorvasse.

Em vez de me pôr fora dali, ele levantou a mão, chamou o empregado, e foi sentar-se lá ao fundo. Fiquei ali a olhar, sem perceber o que se ia passar. Passados uns minutos, o empregado trouxe um prato a fumegar: arroz soltinho, carne tenra, legumes cozidos, fatia de pão ainda quente, e um copo de leite grande.

Isto é para mim? perguntei quase sem voz.

É, sim respondeu o empregado, com um sorriso largo.

Olhei para o patrão, lá ao fundo, e ele só me devolveu o olhar, com uma calma serena sem gozo, sem pena.

Tremi até às pernas para me aproximar dele.

Porque me trouxe comida? balbuciei.

O homem tirou o casaco, deixou-o pendurado na cadeira como quem abandona um peso.

Porque ninguém devia viver das sobras disse de forma firme. Come devagarinho. Eu sou o dono deste sítio. E a partir de hoje, vais ter sempre um prato aqui à tua espera.

Fiquei sem saber responder. As lágrimas caíram, mas não eram só de fome. Era derrota, canseira, humilhação, e sobretudo aquela pequena esperança de ser finalmente vista.

No dia seguinte regressei.

E no outro.

E depois.

O empregado sorria sempre que me via, como se eu fosse uma cliente habitual. Sentava-me sempre na mesma mesa, comia devagar, dobrava o guardanapo com cuidado.

Uma tarde, lá apareceu o senhor dono. Convidou-me para me sentar com ele. Fiquei um pouco envergonhada, mas aceitei porque o olhar dele fazia-me sentir segura.

Tens nome? perguntou.

Benedita murmurei.

E idade?

Dezassete.

Ele acenou com a cabeça, sem insistir.

Depois, olhou-me com calma e disse assim:

Tu tens fome, mas não é só de comida.

Fiquei a olhá-lo, sem perceber.

Tens fome de respeito. De dignidade. De alguém que te pergunte como estás, e não te trate como lixo.

Tinha razão, mas não consegui responder.

E a tua família?

A minha mãe morreu doente. O meu pai foi-se embora com outra. Nunca mais voltou. Fiquei sozinha, acabaram por me pôr na rua. Não tinha para onde ir.

E a escola?

Saí no 8º ano. Não aguentava ir suja. As professoras olhavam-me de lado. Os colegas gozavam.

O senhor assentiu de novo.

Não precisas de pena. Precisas de oportunidades.

Tirou um cartão do bolso do casaco.

Amanhã vai a esta morada. É um centro onde ajudamos jovens como tu. Apoio, comida, roupa, e acima de tudo, ferramentas para a vida. Quero que vás lá.

Porquê ajudar-me? perguntei, chorosa.

Porque também cresci a comer restos. E houve quem me desse a mão. Agora é a minha vez de retribuir.

Os anos passaram. Entrei naquele centro. Aprendi a cozinhar, a ler sem tropeçar, a mexer no computador. Deram-me cama quente, aulas de autoestima, uma psicóloga que me ensinou a gostar de mim.

Hoje tenho vinte e três anos. Sou encarregada da cozinha daquele mesmo restaurante onde tudo começou. O cabelo vai sempre limpo, o uniforme engomado, os sapatos fortes. Faço tudo para que não falte uma refeição quente a quem bate à porta. Chegam miúdos, idosos, mulheres grávidas todos com fome de pão e de serem vistos, compreendes?

E quando algum deles entra, sirvo sempre com o mesmo sorriso e digo:

Come em paz. Aqui não se julga, aqui alimenta-se.

O senhor do fato ainda aparece de vez em quando. Já nem usa gravata apertada. Dá-me um aceno, e às vezes ficamos a conversar no fim do turno, com um café.

Eu sabia que ias longe disse-me uma noite.

O senhor deu-me o primeiro impulso respondi. O resto veio da minha fome.

Ele riu.

O poder da fome é tremendo. Não é só destruição. Pode empurrar-nos, sabes?

E eu sei porque a minha história começou entre restos, mas agora cozinho esperança.

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