Pai, se não se importar, podemos ficar alguns meses na sua casa? pergunta Tiago, hesitante.
Sem problema responde António, seco.
Os pais de Tiago separaramse há cerca de dez anos. A mãe casouse novamente ao fim de dois anos, enquanto António ficou a viver só. É um homem de temperamento difícil, quase insuportável. As mulheres que passaram pela sua vida nunca ficaram muito tempo; porém nunca abandonou o filho. Além da pensão, paga tudo o que Tiago precisa e acompanha a sua educação de forma rígida, sem ternura, mas com o cuidado de um pai.
Tiago começa a viver por conta própria logo após terminar o 12.º ano. Arranja um quarto num internato e mudase da mãe. Dois anos depois casase com Lurdes, amiga de infância. Decidem comprar um apartamento à habitação pública, juntam para a entrada e, quando o senhor da casa onde vivem lhes anuncia que a propriedade vai à venda, têm de aguardar o fim do negócio. Tiago resolve pedir a António que lhes dê um teto temporário; ainda tem um apartamento de três quartos vazio. O recuso do pai deixa Tiago desconcertado, mas António continua:
Podem ficar. Só em silêncio.
Obrigado exala Tiago, aliviado.
Ele sabe que o pai é pouco sociável, gosta do silêncio e fala pouco. O pedido de silêncio não o surpreende. Lurdes, já no quinto mês de gestação, também prefere calma e repouso. Não imagina, porém, que o silêncio a que António se refere inclui apenas eles dois, enquanto ele permanece na sua casa.
António levantase às cinco da manhã, calça as pantufas e começa a percorrer a casa: casa de banho, cozinha, corredor, casa de banho, cozinha O som dos passos ecoa no silêncio matinal clac, clac, clac. De repente algo cai e ele exclama: Caramba!. Continua o barulho, indiferente ao fato de ainda haver pessoas a dormir. Se não gostam, podem ir embora, pensa, sem chamar ninguém.
Além do barulho matinal, controla tudo o que o filho e a nora fazem. Não pode ver televisão depois das duas da manhã, o barulho o irrita; não quer que fritem comida, os cheiros incomodam; exige poupar água e luz, pois não tem muito dinheiro.
A situação mantémse durante uma semana, até Lurdes ser internada. Dois dias depois, António aparece no hospital com frutas.
O bebé precisa de vitaminas diz ele, entregando o saco.
Obrigada, António responde Lurdes.
Está bem acena ele. Vou embora. Segue as recomendações do médico.
Obrigada, até breve sorri Lurdes.
Quando Lurdes recebe alta, António volta a levantarse às cinco, mas esforçase para ser mais silencioso, tentando ainda mostrar um pouco de atenção. Por exemplo, chamaa à mesa com um tom severo ou, em silêncio, limpa o chão quando percebe que ela precisa de repousar.
Compram o apartamento apenas três meses depois. António insiste que façam a remodelação antes de se mudarem. Lurdes dá à luz enquanto as obras ainda estão a todo vapor, e ela e o bebé têm de regressar ao quarto de António. A sogra e os pais de Lurdes visitamnos algumas vezes, mas António faz-lhe ver que não gosta de visitas. Só se ilumina quando vê a netinha, Violeta, no rosto rígido. Ele promete protegêla de tudo o que considere uma ameaça.
Todas as manhãs, António levantase para pegar a pequena Violeta, permitindo que Lurdes durma depois de uma noite sem sono. Aprende até a trocar fraldas. Quando chega a hora de mudaremse para o seu próprio apartamento, António, enxugando uma lágrima masculina, diz, com sério tom de pai:
Ainda são jovens para viverem só com um bebé. Fiquem aqui um bocado. Não por muito tempo, até a Violeta casar.
Tiago e Lurdes trocam olhares perplexos. António, virado para o lado, acrescenta:
É apenas sentimentalismo da velhice. Vamos lá, traga a Violeta e arrume as coisas. Ainda dá tempo de mudar, meus rebeldes do céu.
Tiago e Lurdes pensam que o pai está à espera que se vão, mas ao contrário, o rígido e solitário António mudase. Decidem ficar, pois é bom ter um avô por perto.
António, carinhosamente, balbucia palavras doces à neta e sentese feliz por ter na sua vida a pessoa mais querida e mais preciosa.







