“A mãe da minha esposa é rica, nunca vamos precisar trabalhar.” – celebrou o meu amigo.

Um amigo meu, chamado Salvador, sempre sonhou em viver à grande às custas de alguém. Era como se as nuvens fossem feitas de almofadas de penas e as ruas tivessem tapetes voadores, tão fácil ele achava que seria. Esforçava-se por agradar uma rapariga chamada Mafalda, filha de uma família abastada de Lisboa. Via-se a léguas que ele não estava apaixonado e que daquele casamento não poderia sair bem algum. Mesmo assim, Salvador tinha a firme convicção: uma esposa rica era a senha para um viver suave, sem preocupações, talvez com pastéis de nata que brotavam das árvores e oceanos de vinho do Porto. Só que, por um acaso rocambolesco, Mafalda nem percebia muito de dinheiro a fortuna da família vinha toda da mãe, dona de algumas pastelarias famosas pela cidade.

Tentei conversar com ele, num café que parecia estar suspenso sobre o Tejo, com as gaivotas rindo sobre as nossas cabeças:

Tu achas mesmo que eles vão sustentar um desleixado? O melhor é ter o teu emprego e a tua independência. Vá lá, deixa-te disso. Vem aí um bebé! Eles confiam plenamente em mim! respondeu Salvador, com os olhos brilhando como lampiões nas festas de Santo António.

Nunca consegui perceber aquela lógica, como se fosse um enigma no nevoeiro de Sintra. Não era justo com Mafalda, com ou sem sardinhas. Um homem deve trabalhar, manter a família, criar raízes, como uma parreira velha.

Algum tempo mais tarde, perguntei o que era feito dele. Parecia que o chão tremia, as casas balançavam como barcos de pesca nem Salvador nem Mafalda faziam nada senão ficar em casa, preguiçando. Jogavam no computador, viam novelas a tarde inteira, ou então dormiam, embalados pelo fado vindo da rádio. Era a mãe de Mafalda que os mantinha. Cheguei mesmo a invejar aquela vida, tão absurda e surreal, flutuando ao sabor das marés do bairro Alto.

A mãe dela tem dinheiro, nunca vamos precisar de trabalho! gabava-se Salvador, erguendo um brinde com garrafa de vinho a transbordar moedas de euro.

A festa teria continuado se o mundo não se tivesse torcido: as pastelarias começaram a dar prejuízo, o dinheiro escorria como chuva pelas goteiras. A sogra de Salvador, de olhos de ferro, obrigou-os a procurar emprego como se de repente todas as portas de Lisboa tivessem desaparecido.

Um mês depois, o telefone tocou como um sino perdido numa capela à beira-mar. Salvador, com voz trémula, pediu-me emprestado cinco mil euros o suficiente para comprar um barco invisível e atravessar a noite.

Eu estou à procura de trabalho. Mal tenha o adiantamento devolvo-te o dinheiro. Nem para sardinhas temos confessou ele, abandonando o tom fanfarrão.

Acabaram-se os devaneios de quem queria voar sem asas. Desde então, tanto Salvador como Mafalda começaram a trabalhar, devolvendo-me os euros como se fossem conchas encontradas no areal. E ficou a lição desenhada no nevoeiro: não se deve depender dos outros eternamente, é preciso ser independente, fazer-se à vida na corda bamba dos sonhos. Só assim, diz quem sabe, se alcança a verdadeira felicidade, mesmo que tudo ao redor seja um sonho estranho.

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