Tia, tens aí um pouco de pão? Podes dar-me um bocadinho, por favor?

Julieta tinha 37 anos e nunca tinha sido casada. Já tinha trabalhado como contabilista, mas ainda não fazia a menor ideia de care era o sentido da vida. Muito menos tinha descoberto a tal da vocação.

O sono era seu melhor amigo. Acordava todos os dias a custo e se arrastava até ao trabalho. Naquele verão, de todas as coisas, resolveu aceitar um emprego de empregada de mesa. Agora, tinha de servir os clientes na esplanada do café, e quando calhava a sua vez na rotação, a Julieta lá estava às seis da manhã. Afinal, havia lá quem tivesse bom senso para aparecer já às sete.

Como morava nos subúrbios de Lisboa, para não chegar atrasada tinha de sair ainda mais cedo, por volta das cinco. A rede de transportes não era famosa pela pontualidade: o autocarro podia avariar ou ficar preso no trânsito da Segunda Circular.

Então, como rotina, começou a limpar as mesas antes de abrir a esplanada, porque o pó, esse artista português, nunca falhava um ato. Os clientes gostavam de se sentar em cadeiras sem migalhas e em mesas reluzentes. Enquanto limpava, cantarolava uma das suas músicas preferidas, baixinho, como quem tenta acordar o mundo devagar.

A voz de uma miúda ecoou de repente: “Tu também cantas bem, sabes?” Julieta assustou-se. Quem haveria de andar por ali, àquela hora insana? Espiando por detrás de uma planta, viu uma rapariga de cinco para seis anos, sozinha. E ela também olhou à volta, como se procurasse uma explicação.

“O que fazes aqui assim tão cedo e sozinha, minha querida?”
“Vim passear… e buscar comida para mim e para o mano,” balbuciou a miúda. “Tia, tens aí um bocadinho de pão, por favor?” Foi um pedido inseguro, com voz de fome autêntica.
“É claro que tenho, senta-te, que eu já vou à cozinha ver o que arranjo. E o teu irmão?”
“Está em casa, ali ao virar da esquina. Com a avó.”

Julieta não quis perguntar porquê a menina andava sozinha àquela hora, nem pelos pais. A miúda, ainda assim, decidiu partilhar mais:
“Os nossos pais já cá não estão há muito tempo. A avó é muito velhota, esquece-se de tudo… às vezes nem se lembra de mim ou do mano.”

Julieta ficou sem palavras. Sentiu um baque, daqueles que até corta a respiração.

“Não quero incomodar, só queria mesmo um bocadinho de pão. Levo para casa para o mano e para a avó. Não se preocupe, volto já. Espero aqui, está bem?” implorou a menina.

“Não vás a lado nenhum, espera aqui por mim,” respondeu Julieta, determinada. Pediu à colega para a substituir uns minutos na esplanada e foi com a miúda até à casa dela.

A menina tinha uma chavinha minúscula e, ao entrarem, deram de caras com um garoto de talvez ano e meio, a rastejar e brincar no tapete. Sorriu ao vê-las. Uma idosa jazia no quarto, alheia a tudo, mergulhada numa espécie de transe.

“Como é que isto é possível?” murmurou Julieta.

Sem hesitar, chamou o INEM. Quando chegaram, levaram a avó; estava claro que a senhora já não tardava a partir. Julieta pegou nas crianças e levou-as para sua casa. Lá, o seu próprio filho de 13 anos assistiu ao espetáculo espantado. Depois de ela lhe explicar, compreendeu e mostrou-se solidário.

Mãe e filho nunca foram de discussões. Havia uma confiança tranquila entre eles. O rapaz era ajuizado e prestável, aceitou logo tomar conta das crianças enquanto Julieta ia trabalhar.

Dez dias depois, a avó partiu. Toda a gente sabia que as crianças iriam parar a uma casa de acolhimento. Mas o coração de Julieta ficou em frangalhos aqueles dois já eram quase da casa, teriam de ir viver com estranhos? Ela própria sabia, se tivesse passado por isso, o que sentiria. Decidiu não as largar e tornar-se tutora delas.

Teve de abandonar o avental e aproveitar o convite de um amigo para voltar à contabilidade. Ele próprio tratou de muita da papelada necessária. Poucas semanas depois, Julieta tinha a guarda legal das duas crianças, agora oficialmente parte da casa.

“Então era por isso que querias tanto ser empregada de mesa!” brincou uma amiga. “Exatamente,” respondeu Julieta, “um plano de carreira minucioso que só me demorou uns aninhos a perceber.”

Quem diria que a vida dela ia virar-se do avesso num instante? Agora, com três filhos um biológico, dois de coração , saiu-lhe na rifa escolher profissões e, acima de tudo, ser forte, embora nunca tenha sido muito dada a essa coisa de bravura. Mas, olha, lá diz o povo: quem não arrisca, não petisca!

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