O Grande Engano

Grande separação

Hoje faz precisamente quatro anos desde que eu e o João casámos. Tentámos de tudo: flores frescas na mesa, viagens de fim-de-semana, jantares improvisados com vinho verde, até o cãozinho Gaspar passou a dormir entre nós para ver se a felicidade doméstica pegava. Mas, no fundo, faltava enraizamento. A verdade é que já estava escrito que o nosso destino era o divórcio.

Então é assim? Vão separar-se e pronto? perguntou a minha amiga Filomena, assim que aceitei o seu convite para afogar as mágoas com umas sandes de presunto e queijo da Serra, sentadas num café de Lisboa.

Sim, Filó… Já conversámos sobre tudo. É melhor assim, para nós os dois.

Mas eu não falo do divórcio em si! Falo da ocasião. Têm de marcar isto de forma memorável, pôr um ponto final mesmo em português, com fado ou fogo-de-artifício, sei lá!

Tenho estado tão ansiosa, nem sei como aguento. Tu bem sabes… desabafei, trocando a tosta mista por uma fatia de pizza de camarão.

Oh miúda, não leves a mal! Qualquer coisa, organizamos um divórcio à portuguesa. Se gastaram uma fortuna no casamento até hoje pago o empréstimo do vestido de madrinha porque não celebrar a separação com pompa e circunstância? Restaurante, carro clássico, alguém a animar a festa, até podia haver um ritual simbólico… Eu ia adorar!

Seria possível?

Deve ser, claro!

Eu nem dinheiro tenho, quanto mais… Agora é dividir móveis, rasgar lençóis. Vamos ver se não ficamos a dormir em fronhas diferentes…

Olha, conheço uma rapariga, a Rita, que organiza tudo até em troca de um saco de batatas. Depois recuperas as despesas com as prendas! Por ora, bora planear a despedida de casada. Um serão caseirinho, com conversa séria e chá de limão, só para dizer adeus à vida de esposa.

Ou seja, como sempre: combinamos encontrar as raparigas e acabamos todas em casa por causa dos filhos, dos maridos, ou porque alguém adormece no sofá?

O ideal!

No dia seguinte, lá fomos eu e a Filomena ao shopping, ao escritório da Rita. Recebeu-nos atrás do balcão de uma creperia e recebia pedidos de panquecas enquanto ouvia o nosso.

Dás uma mão? pediu a Filó, resumindo o plano.

Acho que sim! Já estou a imaginar: tu, Marisa, numa espécie de vestido preto, com véu e tudo, a prometer à frente de toda a gente que nunca mais na vida te casas. O João, com aquelas calças de bombazina que adora, finalmente em liberdade. Entregam as alianças numa casa de penhores, tudo em clima de festa. Os convidados a cantar: Doce! Meio-doce!… Vou pensando melhor no resto disse Rita, logo antes de gritar que a panqueca número oitenta e três estava pronta.

Para minha surpresa, o João achou graça à ideia. Já os nossos pais ficaram horrorizados.

Vícios modernos! No nosso tempo, separava-se no silêncio e vivia-se de cara amarrada até ao fim resmungaram, ambos os lados. E para um divórcio festivo, dinheiro não dão!

Uma semana depois, estava tudo a postos. Nos planos da Rita, a coisa começava com resgates: o João tinha de sair do nosso apartamento ultrapassando desafios, enquanto as minhas amigas e alguns primos dele o ajudavam ou pagavam penalizações. Por sorte, o nosso prédio de doze andares tem elevador. Lá foi ele, com os caixotes das suas coisas e o padrinho a empurrá-lo.

Com a ajuda do primo da Rita, que é polícia na esquadra da Amadora, arranjámos até um fotógrafo da área criminalista para registar todos os momentos. No final do evento, nove pessoas ficaram quase fichadas (pelo menos nas fotografias).

Agora vamos ao Registo Civil! anunciou a Rita, já lá em baixo.

Por tradição criada por nós, entrámos eu e o João juntos no carro, para sair dali em caminhos opostos. Os restantes foram de metro, com bilhetes pré-pagos e moedas, e no carro do fotógrafo faziam-se jogos de impressão digital falsa e interrogatórios em tom de brincadeira. Chegámos ao Palácio de Registos a cantar Estou livre, versão portuguesa inspirada no rock nacional.

Depois das assinaturas e carimbos, a multidão saiu em festa. A Rita apareceu com uma enorme gaiola, para apanhar pombos nos arredores. Toda a gente ria-se, parecia que ninguém tinha dúvidas de que era melhor assim. Os homens abraçavam o João, desejando-lhe muitos anos de solidão feliz, e as mulheres competiam para apanhar um ramo feito de talões da luz, da água e gás. Choveram comentários dos convidados de outro casamento:

Que festa! Devem estar juntos há séculos…

Não, estão é a separar-se! explicava alguém.

Vendo-nos tão descontraídos, mais do que um casal adiou as respetivas cerimónias.

No fim, fomos cortar o cadeado da ponte, deitamos as alianças numa loja de ouro para ajudar nos custos da festa e seguimos ao restaurante. À nossa espera estava um grupo musical fúnebre, buffet de almoço empresarial e panquecas com mel. Patrocinador oficial: Creperia do Shopping nº8, tal como a Rita, a nossa organizadora e mestre de cerimónias. O bolo, como não poderia deixar de ser, era também de panqueca.

Parece um velório… murmurei, olhando ao meu redor.

Claro que sim, estamos a enterrar a felicidade conjugal! gracejou a Rita, e propôs-nos o último dança dos ex-cônjuges.

Soou Chopin.

Sabes… até nem ficou mal cochichei ao João, enquanto valsávamos.

Pois não anuiu. É a primeira vez que vejo os nossos pais a darem-se tão bem.

E de facto: o meu pai e o dele abraçavam-se, puxando um fado baixinho, ambos de olhos húmidos antigos rivais transformados em velhos amigos.

A mesa de presentes transbordava de coisas insólitas: lençóis de solteiro, bilhetes para concertos, halteres, louça para um, vales para aulas de yoga, descontos em danças sensuais… No final, deram-nos as chaves de quartos de hotéis diferentes, em bairros opostos da cidade, e cupões para duas panquecas grátis e viagens de táxi partilhado.

Fechámos a noite com fogo-de-artifício e as últimas fatias de bolo vendidas em promoção. Os convidados afastaram-se satisfeitos cada um para o seu lar, e eu, a ex-Moura, para o meu. João foi à vida dele.

Três semanas mais tarde, o álbum já estava pronto. O João apareceu lá em casa, buscar o seu corta-unhas. Folheámos juntos as fotos a preto e branco sorrisos, abraços, provas de impressão digital forjadas. Tanta felicidade carimbada para sempre.

Ficou bonito comentei.

E tu? Vais mudar de apelido? perguntou ele.

Acho que fico com Moura. Rebeca não é nome que me inspire, e Garcia é igual…

Pois, tens razão… respondeu ele, já a encaminhar-se porta fora.

João! Espera aí…

Ele virou-se, curioso.

Não queres jantar umas panquecas? Os nossos cupões caducam hoje era pena…

Era pena desperdiçar sorriu ele. Sabias que a panqueca simboliza renovação? Pode ser o nosso recomeço. Consideras isto um encontro?

Achas que… não será um erro, depois de um divórcio tão barulhento? Ainda por cima, fomos notícia no telejornal…

Quem nos pode julgar? Agora somos duas pessoas livres, cada uma com o seu destino. Olha, sabes que o padrinho e a minha prima também se vão separar? Convidaram-nos para a festa, queres ir comigo?

Vou pensar nisso ri-me eu. Tenho um conjunto de lençóis deles já sei o que lhes hei-de oferecer.

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