O meu marido está sempre a dar-me como exemplo a mãe dele.

Esta situação é bastante comum, pelo menos aqui em Portugal. Casei-me aos 25 anos. Um ano depois, nasceu a minha filha, Benedita. Tudo parecia estar bem entre mim e o Afonso. Só que, passado algum tempo, o meu marido começou a dizer que eu era preguiçosa. Dizia que andava de licença de maternidade e não fazia grande coisa, que depois o meu ordenado era baixo, mesmo sendo só um pouco menor que o dele.

Dizem sempre por cá que, depois do casamento, só se vê a influência da sogra sobre o filho. Devia ter desconfiado logo de início que havia aí qualquer coisa errada. Mas fui ingénua, fechei os olhos.

O Afonso não parava de elogiar a mãe Dona Fernanda que era o grande exemplo dele. Trabalhava na horta, era contabilista, cuidava de dois filhos sabia fazer de tudo. Mas e eu? Tinha horários rotativos e ocupava-me a tempo inteiro.

Tentava de tudo para ser como ela. Ajudava-a nas limpezas, no quintal, tratava de tudo em casa. Quando a Benedita começou a escola, fazia os trabalhos de casa com ela. Mas só vieram mais preocupações. No trabalho, exigiam imenso e o ordenado era pouco. Fazia horas extra. Tive de me aguentar. Continuava dependente do Afonso. Ele gozava comigo, eu fazia de conta que não ouvia. Não queria ser divorciada, não queria tirar o pai à minha filha.

Mas todos sabem que quanto mais deixamos, mais nos pisam. Expliquei-lhe que andava exausta no emprego, que não aguentava tanto esforço. Ele respondeu que, se era assim, só ia contribuir para a casa com o mesmo valor que eu, e que o resto do dinheiro era para ele. Era, supostamente, muito justo. O nosso casamento já mal se aguentava, e depois… veio a ruptura.

Apercebi-me de que assim não conseguia continuar. Cansei-me dos sermões, dos moralismos, das comparações constantes à mãe dele. A gota de água foi quando disse que, se eu não arranjasse um verdadeiro emprego, ia para casa da mãe. Agarrei-me a essa ideia. Mesmo assim, demorou três anos até conseguir mandá-lo de volta para a Dona Fernanda. Entretanto, encontrei um novo emprego, através de uma amiga finalmente bem pago. Nem vou falar daquilo que tive de aguentar nesse período. Divorciei-me! Dividimos os bens. Troca de apartamentos. Discussões, claro.

Agora vivo em paz. Só eu e a Benedita sinto-me serena e feliz, sem o peso do casamento.

Tenho o meu próprio apartamento, o meu trabalho preferido. Não é o topo dos sonhos, mas dá-me tudo o que preciso. A família insiste em arranjar-me namorado. Para muitos, sou uma divorciada triste. Acham que só outro homem me iria trazer felicidade. Mas, para quê? Já tive um marido… Por vezes até penso em pôr um cartaz na testa: Jovem, bonita, sem interesse em encontros. Estou feliz com a minha filha. Não quero arriscar destruir esta paz com outro casamento. O meu ex-marido está feliz também, agora, em casa da mãe.

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