– E como é que vou explicar a toda a gente porque é que tu não estás na festa da mãe? – Perguntou o marido, atrapalhado

E como é que eu vou explicar aos outros porque não vais estar na festa da minha mãe? perguntou o marido, meio perdido.

Obrigada, estava mesmo saboroso, disse ele, empurrando o prato. Leonor, precisamos de conversar.

Sabes, Tiago, até já imagino sobre o quê.

Então diz lá.

Sobre o aniversário da tua mãe.

Pois Já é dia dez, e o aniversário dela é dia dezoito, disse Tiago.

E o meu é vinte. Espero que não te esqueças, não é? perguntou Leonor.

Claro que não, querida

Tiago, nem comeces aviso já: a resposta é NÃO!

Mas ainda nem ouviste o que te quero propor, disse ele.

Não quero ouvir! Fica só a saber: já reservei mesa no restaurante para dez pessoas este sábado. Oito são os meus convidados, tu e eu somos o resto. Se quiseres aparecer, ótimo se não, a festa segue com quem quiser estar.

O problema era que o aniversário da sogra, Dona Maria das Dores, era a 18 de setembro, e o de Leonor, a 20.

Pelo terceiro ano consecutivo, quando chega setembro, Tiago não sabe como gerir as duas festas sem magoar nem a mãe, nem a mulher. Até agora, nunca acertou.

Leonor, a minha mãe sugere fazermos os dois aniversários juntos, este sábado, lá em casa dela. Faz sentido. Assim a família só se junta uma vez e poupamos uns trocos. E sábado é melhor, porque à quinta nem todos conseguem ir.

Tiago, quem te disse que quero os primos, irmãos e sobrinhos da tua mãe na minha festa? Convidei os meus amigos tu conheces todos! retorquiu Leonor.

A minha mãe vai ficar triste suspirou ele.

E eu, que fiquei magoada nos anos anteriores, isso não conta? Já te esqueceste?

Acho que correu tudo bem

Bem? Vamos recordar! Há dois anos: casámo-nos em abril. Setembro chegou. Tua mãe faz sessenta. O que disseste então?

Leonor, a mãe quer festejar em casa, em família, não faças planos para sábado!

E eu, que pedi dispensa do trabalho, passei sexta e sábado de manhã a descascar legumes e cozinhar na cozinha da tua mãe.

No sábado, corri do salão para a cozinha como se fosse empregada e ninguém se lembrou do meu aniversário.

A tua irmã Sofia deu os parabéns lembrou Tiago.

Não! Quando disseste, ela só disse: Já foi, pronto, para quê recordar?

Mas depois falei com a mãe, e no ano passado aceitaram-te melhor à mesa.

Falando nisso! Sexta, vinte de setembro, e lá estava eu outra vez: chefe de cozinha, ajudante de todos. Quando perguntei à Dona Maria das Dores porque é que a Sofia não ajudava, ela disse:

A Sofia foi fazer manicure hoje. Não pode estragar as mãos. Amanhã, de manhã, tem cabeleireira e esteticista.

Realmente, ela veio para a festa da mãe como uma estrela de televisão, enquanto eu mal tive tempo de me trocar antes dos convidados chegarem. Sim, dessa vez deram-me os parabéns.

E até brindámos, mas depois esquecem-se logo de mim. Nem no ano passado, nem no anterior, recebi prendas de ninguém só tu e os meus pais, Tiago. Este ano avisa a tua mãe não conte comigo!

Ela não vai dar conta sozinha

Tiago, a Dona Maria das Dores tem um filho tu e uma filha Sofia. Ajudem-na vocês! Este sábado é o meu aniversário e quero passar com os meus amigos.

E como vou justificar a tua ausência na festa da minha mãe? perguntou ele.

Não brincos, Tiago! Nenhum deles se vai lembrar de mim! Só se for para mudarem um prato ou trazerem algo da cozinha. Entre vocês são tão chegados que eu sinto-me sempre ali a mais, como um acessório.

Leonor conseguiu convencer o marido de que tem direito a celebrar como preferir. Mas a sogra e a cunhada acham que a nora não pode afastar-se da família.

Por isso, até ao dia vinte, tentam de tudo para convencê-la a ir ao almoço de aniversário que Dona Maria das Dores prepara.

Leonor, ligava-lhe a sogra, olha que criámos uma tradição gira! Dois anos juntas nos aniversários, e sempre correu bem. Não percebo porque torces o nariz este ano. O que se passa?

É simples, Dona Maria das Dores: em primeiro lugar, quero festejar com os meus amigos; em segundo, quero fazê-lo num restaurante, para poder conversar e não estar das panelas para a sala o tempo todo!

Mas em casa também conversamos tanto! insistiu a sogra.

Mas é vocês, porque eu ando sempre leva e trás. Não preciso de uma festa assim!

Nunca pensei que recusasses ajudar a mãe do teu marido! lamentou a sogra.

A Sofia foi ainda mais determinada:

Leonor! Deixa-te de fitas. A mãe já tem meio menu alinhado, o pai já foi ao mercado comprar tudo. Por isso pensa só no que vais cozinhar!

Ela até enviou a lista de compras ao Tiago. Pára de resistir e pensa bem: vale a pena arranjar confusão? A festa passa, depois vês os teus amigos quando quiseres.

Sofia, não sou cabeça dura. Só avisei a tua mãe: este ano tenho outros planos! E de certeza que podes ajudar a Dona Maria das Dores.

O pior era para Tiago: tinha de escolher onde estar. Detestava magoar seja a mãe, seja a esposa.

Leonor nunca lhe pediu diretamente para escolher, mas ele percebe bem que ela ficaria magoada se fosse à festa da mãe.

Leonor não tocou mais no assunto. Na sexta à tarde, a sogra ligou-lhe para o trabalho:

Leonor, onde andas? Espero que já tenhas desistido dessa ideia do restaurante. Estou à tua espera, não podemos perder mais tempo, senão nada fica pronto para amanhã!

Dona Maria das Dores, estou a trabalhar! Disse-lhe que este ano não vou ajudar a cozinhar! Peça à Sofia.

Espero que saibas que o Tiago não vai aprovar esta tua atitude com a mãe dele, nem com a família, disse a sogra.

Olhe, casei com o Tiago, não com a família toda. Não sou obrigada a agradar-vos sempre!

Tenho a minha vida, os meus interesses, os meus amigos os nossos! E não vou abdicar disso para ser só vossa cozinheira ou lavadeira.

A conversa ficou por ali, num tom azedo.

No sábado, Tiago, com o presente, foi à festa da mãe. Leonor, pelas quatro, rumou ao restaurante com tudo preparado.

Os amigos chegaram todos a horas. Só ficou uma cadeira vazia ao lado dela. Ninguém fez perguntas todos sabiam o que se passava.

Desejaram-lhe parabéns, trouxeram prendas, a noite foi animada, mas Leonor não resistia a olhar para a porta tinha esperança que o marido aparecesse.

E ele apareceu, com quase uma hora de atraso, trazendo um ramo das suas rosas preferidas.

Leonor, só agora consegui escapar! Tive mesmo que fugir. Por sinal, falaram bastante de ti. A tia Graça perguntou à mãe porque não havia hoje salada de campo ficou-lhe na cabeça do ano passado e queria a receita.

E disseram que a mesa estava pobre. A Sofia passou o tempo de beiço ainda conseguiu partir dois dedos da manicure a ajudar a mãe.

Nos dois anos seguintes, só chamaram Leonor para dar dicas na cozinha, porque pouco depois engravidou e entretanto já é mãe de um menino.

E a Dona Maria das Dores festejou os 65 anos num restaurante.

Afinal, o que queria esta nora? Estava tudo tão bem! desabafava pela milésima vez a sogra

O que vos parece, acham que a Leonor fez bem? Escrevam nos comentários, deixem um gosto e sigam a página, tenho sempre lugar para mais um leitor!

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