Onde mora a felicidade
A Matilde estava sentada sozinha na cozinha, envolvendo uma chávena fumegante de café entre as mãos. O café estava tão quente que ela só conseguia beber em pequenos goles cuidadosos. Sempre que levava a chávena aos lábios, o vapor acariciava-lhe suavemente o rosto, mas o calor nunca era suficiente para aquecer por dentro ali, continuava tudo frio e vazio.
O telemóvel ali ao lado vibrava insistentemente. Chamadas atrás de chamadas na última hora parecia que toda a gente que ela conhecia lhe tinha tentado ligar. Amigos, primos distantes, colegas do escritório, vizinhas era como se o mundo inteiro tivesse decidido, naquela manhã, que precisava de saber como ela estava e o que se passava na sua vida.
Não era difícil perceber o motivo de tanta atenção. A separação recente do marido era o assunto do momento. Ainda há pouco tempo, o casal tinha festejado o seu aniversário de quinze anos de casamento mesa posta, risos, brindes, o olhar luminoso do marido quando erguia o copo aos anos vividos lado a lado. Nessa altura, tudo parecia eterno: mais aniversários felizes, viagens juntos, noites tranquilas à lareira. Agora, moravam em casas diferentes, falavam um do outro de forma fria, quase como se fossem desconhecidos. Como é que tudo podia ruir com tamanha rapidez?
Ao início, Matilde esforçava-se por atender todas as chamadas. Tentava manter a calma, escolhia bem as palavras para não se magoar nem magoar quem estava do outro lado.
Foi uma decisão dos dois repetia, tentando que a voz saísse natural. Chegámos ambos à conclusão de que já não éramos felizes juntos.
Só que essas explicações pareciam nunca convencer ninguém. Ouvia sempre as mesmas perguntas umas preocupadas, outras carregadas de julgamento, outras fingindo cuidado, mas inevitavelmente iguais:
E a Leonor? Já pensaram nela? Uma filha precisa de ter o pai por perto!
Matilde fechava os olhos, tentando controlar as lágrimas. Sabia bem que ninguém lhe queria mal só não conseguiam entender como é que alguém com uma filha podia desfazer a família. No entanto, também sabia que era impossível pôr em duas frases meses de silêncios, mágoas acumuladas, cansaço, aquela sensação amarga de se viver ao lado de alguém sentindo-se, no fundo, sozinha.
Mais uma notificação do telemóvel. Matilde olhou para o ecrã: outro familiar. Inspirou fundo, encostou a chávena aos lábios, deu um gole de café e deixou-se ir junto ao telefone.
Ela podia responder que todos os seus pensamentos giravam à volta da filha, que noites sem dormir foram passadas a ponderar alternativas, a pesar cada consequência possível. Podia explicar que nunca deixou de pôr o bem-estar da Leonor em primeiro lugar. Mas optava pelo silêncio. Sabia que nem toda a gente está disposta a entender. Muito menos quem acredita sempre ter razão e só vê uma parte da história.
Na mente, rolavam imagens dos últimos meses. O marido a chegar tarde, a cheirar a um perfume estranho. As respostas secas, as conversas cortadas a meio sempre que Matilde tentava abordar os problemas. Jantavam juntos, mas entre eles havia uma muralha de gelo. E Leonor, a menina doce deles, percebia cada detalhe. Reparava nas forçadas tentativas de sorrir, sentia a tensão no ar.
A noite decisiva ficou-lhe gravada para sempre. Uma discussão começou baixa, mas rapidamente foi subindo de tom. Leonor largou os trabalhos de casa e apareceu à porta, pálida, os olhos tristes:
Mãe, pai, por favor, não discutam
Matilde olhou para a filha, para o marido que sequer se deu conta de que a menina já lá estava, e nesse momento percebeu isto não podia continuar. Não podia sujeitar a filha a viver naquele caos, a ouvir discussões, a sentir-se culpada por não conseguirem entender-se.
Era bom para a Leonor crescer numa casa onde a única coisa que havia era discórdia? Onde o pai não escondia estar com outra mulher? Onde cada manhã começava com frases cortadas e silêncios? Porque raio a filha tinha de crescer entre recriminações, achando que aquilo era o normal numa família?
Não conseguia permitir. Matilde levou semanas a ponderar, a pesar prós e contras, a imaginar tudo o que podia acontecer até escolher finalmente divorciar-se. Paz, sem escândalo que o respeito, mesmo que acabe o amor, fosse para ser mantido, sobretudo pela Leonor.
Quando contou a decisão ao marido, ficaram ambos em silêncio durante um tempo que pareceu eterno, até que ele disse baixinho:
Acho que tens razão.
Sem discussões nem mágoas explícitas, discutiram os detalhes, puseram as filhas como prioridade. E nesse dia, quase sem darem por isso, sentiram-se ambos mais leves. Um peso que ali estava há tempo demais tinha finalmente caído. Agora, cada um teria a sua vida mas com a consciência tranquila de que tudo foi feito a pensar na filha.
Matilde sabia que o caminho não seria fácil outra vida, outra cidade, tudo do zero, explicar à Leonor o que estava a acontecer Mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia que estavam a ir para onde deviam.
Hoje dou um pequeno passo em direção à felicidade murmurou, olhos postos na janela, onde um pombo dava passinhos desajeitados. Ora inclinava a cabeça, ora batia as asas, como se conferisse se aquela vizinhança era segura. Matilde sorriu com aquele espetáculo simples e reconfortante.
Nesse instante, a porta da cozinha escancarou-se ruidosamente. O pombo assustou-se e voou. Apareceu Leonor, bochechas rosadas, cabelo desgrenhado, os olhos brilhantes de entusiasmo. Era uma energia contagiante dançava de um pé para o outro, incapaz de parar.
Mãe, já pus tudo nas malas! atirou ela, correndo para a mesa. Quando chega o táxi?
Matilde, a controlar um sorriso, olhou para o telemóvel. A filha parecia um brinquedo a corda parecia que a qualquer momento daria um salto até ao teto.
Daqui a meia hora. Tens mesmo a certeza que queres ir para outra cidade?
Leonor hesitou um segundo, mas depois encolheu os ombros, decidida:
O que é que perco? As amigas da escola? Vai custar, mas posso sempre mandar mensagens! e abriu o frigorífico, pegando num iogurte. A avó nunca gostou muito de mim e só nos víamos nos feriados. Nada vai mudar nesse aspeto.
Matilde apertou a borda da mesa era difícil sacudir a dúvida se estava a agir certo, arrancando a filha da zona de conforto.
E o pai? perguntou baixinho.
O rosto de Leonor ficou mais sério.
O pai ele já tem outra família. Não acho que a mulher dele queira ver-me muito por lá. Vou visitá-lo nas férias.
Silêncio. A mãe olhava para a filha e custava-lhe acreditar o quanto tinha amadurecido. Não havia marcas de raiva ou rancor só uma calma amadurecida.
És uma menina muito sensata, filha disse Matilde, emocionada. Levantou-se, abraçou a filha com força, aconchegando-se-lhe no cabelo. Percebes tudo
Leonor retribuiu o abraço, afagando as costas da mãe como se, naquele momento, fosse ela a mais velha.
Tu e o pai merecem ser felizes, mãe disse, convicta. O pai já encontrou a dele, agora falta tu encontrares a tua.
Matilde sentiu finalmente o coração aquecer-se. Percebeu ali que, apesar dos receios, estavam a escolher o caminho certo. A vida seria sempre desconhecida mas juntas, iriam conseguir.
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Nova cidade, novo emprego, pessoas novas No início era tudo estranho, mas foi precisamente esse ritmo acelerado que ajudou Matilde a não se perder na tristeza. Não havia tempo para lamúrias ou nostalgia todos os dias lhe surgiam novas tarefas e desafios.
O apartamento, no décimo andar, brindou-as com muita luz e aquela vista boa que só se tem alto na cidade. Era tudo estranho ao princípio disposição diferente, silêncio nos vizinhos, cheiros diferentes no elevador. Mas, pouco a pouco, Matilde foi tornando o espaço delas: quadros favoritos nas paredes, livros nas estantes, um vaso de flores na janela. Já era casa, não só apartamento.
Certa noite, mal entrou em casa, Leonor anunciou entusiasmada:
Mãe, quero inscrever-me na escola de dança daqui do bairro!
Os olhos dela brilhavam dava para ver que andava a magicar isso há tempo. Matilde sorriu, mas quis certificar-se:
Tens mesmo a certeza? A escola, os trabalhos Achas que tens energia?
Leonor tirou um caderno da mochila, abriu e colocou à frente da mãe:
Já pensei em tudo. Olha, aqui está o meu horário: segunda e quinta, explicações com a Dona Manuela; quarta, chego tarde da escola; ou seja, dança pode ser à terça e sexta, e é mesmo nesses dias que há aulas! Prometo, mãe, as notas não vão piorar.
Matilde leu o plano com atenção, tudo direitinho e até uns desenhos. Sorriu por dentro a filha era de facto muito responsável.
Está bem disse por fim, fechando o caderno. Se estás assim decidida, amanhã vamos conhecer.
Fixe! Leonor saltou e abraçou a mãe, exclamando: És a melhor mãe do mundo!
Matilde riu, abraçando a filha. Ali, sentiu um calorzinho sereno crescer no peito era quase como se enfim tudo começasse a assentar.
A escola de dança era realmente boa. Sala ampla, espelhada, chão de madeira polida e um cheirinho a limpo misturado com perfume de esforço e dedicação. Uns bancos para descanso nos cantos, fotografias e diplomas de conquistas afixados.
O professor, Sr. Artur Fernandes, era um senhor elegante de meia-idade. Sempre bem arranjado, movimentos firmes, sorriso tranquilo mas olhar atento. No primeiro ensaio não elogiou Leonor à toa nem a criticou por coisas pequenas limitava-se a mostrar, corrigir, explicar, repetir sem perder a paciência. E na sua exigência tranquila havia algo cativante.
É mesmo incrível, mãe! contava Leonor à noite, de olhos brilhantes. Ele exige o mesmo de todos, mas se nos aplicamos, vem logo ajudar. Mostra outra vez, segura na mão, explica por palavras diferentes
Ficava ofegante de tanto entusiasmo:
E tem um filho, o Tiago! Danço com ele. É mesmo giro e mexe-se muito bem. O Tiago diz que o pai é ótimo nunca se zanga, mas também não deixa ninguém relaxar!
Matilde ouvia e sorria. Era óbvio para onde as coisas caminhavam. Leonor e Tiago passavam os ensaios a trocar olhares, conversavam nos intervalos, iam juntos até à paragem depois. Cada vez que voltava de dança, Leonor falava como o pai do Tiago era simpático e atencioso.
Estão a tentar juntar-me ao Artur Fernandes, pensava Matilde, divertida. Não era má ideia: ele tinha graça, era estável, tinha uma simpatia especial. Mas Matilde não apressava nada. O importante era ver a filha de novo feliz, rodeada de amigos e cheia de novidades para contar.
Um dia, no final de um ensaio, Leonor chegou ofegante:
Mãe, e se convidássemos o Tiago e o pai dele um dia para lanchar cá em casa? Queria mostrar-lhes a casa nova e sei que o Tiago adora bolachas de chocolate
Matilde sorriu e passou a mão pelo cabelo da filha:
Logo se vê, Leonor. Cada coisa a seu tempo
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Nunca foi o género de mãe que espreitava o telemóvel escondida. Acreditava que confiança construía-se com respeito pelo espaço da filha. Mas, naquela noite, ao ver o telemóvel que Leonor deixou em cima da mesa a piscar com uma mensagem nova, sentiu um nervosismo impossível de ignorar.
Por vezes, mesmo com todo o entusiasmo da filha, Matilde não conseguia deixar de pensar: será que ela está mesmo feliz? Não estará só a fingir, só para não a preocupar?
Tentou ignorar, mas a curiosidade venceu. Abriu a conversa com uma amiga e foi lendo por alto. E ali, nas mensagens, sentiu-se tranquila: Leonor falava das aulas, da dança, do professor, das piadas nos treinos, sempre com entusiasmo e alegria.
Então gosta mesmo disto, pensou Matilde, aliviada.
De repente, deparou-se com uma mensagem do Tiago:
O meu pai disse que a tua mãe é muito bonita e inteligente. Ele não costuma dizer isto de ninguém.
Matilde largou o telemóvel como se queimasse. Ficou corada, perturbada, quase a pique de rir-se de si mesma por se sentir como uma adolescente. Claro que reparava no modo como o Artur Fernandes lhe sorria, nas conversas leves, nas atenções sinceras. Havia carinho e respeito, e sempre uma boa disposição.
Mas a ideia de se envolver outra vez assustava-a. Depois do divórcio tinha custado reconstruir a própria vida. Agora que tudo parecia estável, abrir de novo espaço para alguém era ao mesmo tempo tentador e assustador.
E se me engano outra vez? E se estrago o equilíbrio frágil que construímos? questionava-se.
Leonor apareceu à porta, a esfregar o cabelo com uma toalha:
Então mãe, estás longe daqui? sorriu. O treino foi espetacular. Amanhã vamos aprender outra dança e o Tiago está confiante.
Matilde sorriu e fez um gesto vago de quem está a lutar contra dúvidas. Mas não adiantou nada. Decidiu: tudo irá ao seu tempo.
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Matilde estava à mesa, rodeada de papeis e apontamentos do emprego. Já era tarde, mas ainda precisava de acabar um relatório urgente só que a cabeça estava noutra. Leonor apareceu, ficou um instante à porta, depois sentou-se à frente, séria.
Mãe, lembras-te do que me prometeste? disse, firme.
Matilde olhou, um pouco baralhada.
Tens de ser mais específica Prometi-te muitas coisas.
Que ias ser feliz. A voz da filha saiu segura, cheia de certezas.
Matilde parou, sorriu:
Sou feliz. Tenho-te a ti.
Não, não chega! Leonor pôs as mãos na mesa, como quem desafia um adversário. E olha que não falo da felicidade só de mãe. Já passou quase um ano desde o divórcio! Daqui a uns anos vou para a universidade, vais ficar sozinha vais querer acabar a vida rodeada de gatos?
Nisto, a gata Branca que dormitava na cadeira ao lado ergueu a cabeça, olhos dourados a fulminar Leonor, pousando uma patinha em protesto no braço da dona.
Matilde riu-se:
Não é assim tão simples, filha Já não sou propriamente nova.
Deixa-te disso e aceita um convite do senhor Artur! Leonor quase saltou da cadeira. Dá o passo seguinte para seres feliz!
Mas filha
Nada de mas! Ele já te convidou várias vezes para passeios. Pega já no telemóvel e liga-lhe!
Matilde olhou para a filha, tão decidida. À sua frente estava uma mulherzinha cheia de sabedoria, muita maturidade para quem só tinha doze anos.
A gata, impaciente, miou, exigindo mimos.
Olha que te vais arrepender se não fores! exclamou Matilde, meio gozona. Puxou do telemóvel, dedos a tremer de nervosismo e emoção. Pronto, filha, vou ligar.
Leonor sorriu orgulhosa, braços cruzados, completamente satisfeita.
Passaram poucos minutos até Matilde tomar coragem e discar o número do senhor Artur. Quando do outro lado da linha ouviu o Sim?, encheu-se de coragem:
Olá, é a Matilde. Estava a pensar que tal uma caminhada amanhã ao fim da tarde?
Uns segundos de silêncio, que pareceram eternos, até ouvir a resposta dele calorosa, animada:
Fico mesmo contente. Onde e a que horas?
Matilde sorriu. Leonor, ao lado dela, deu um grande sim! silencioso.
Que tal no jardim junto ao rio, às sete? Está tão bonito ao fim do dia
Perfeito, lá estarei.
Matilde desligou e riu-se, um riso leve e solto, como há muito não lhe saía. Leonor dançou de alegria pela cozinha.
Vês, mãe? Tudo a correr como planeado! Eu tinha razão!
Tens, filha, tens. Estou mesmo feliz por ter decidido tentar.
Porque mereces felicidade Leonor declarou solenemente. E eu também.
O resto do dia passou num brilho especial. Matilde sorria sem razão aparente e, de todas as vezes que pensava em Artur Fernandes, sentia o coração aquecer.
Ao fim da tarde, demorou-se no guarda-roupa queria sentir-se bem, sem parecer que esforçava demasiado. Optou por um vestido azul céu, tão leve quanto os olhos do Artur, ou o céu de Lisboa ao crepúsculo, ou o seu próprio ânimo naquele momento.
Leonor sentou-se na cama, em silêncio, a ver a mãe arranjar-se.
Estás muito bonita comentou, sincera. Ele vai reparar.
O mais importante é eu sentir-me bem respondeu Matilde.
E estás. Estás com aquele sorriso.
Quando saiu, Leonor ficou à janela, a acenar-lhe. Parada perante a porta, Matilde olhou para trás, sorriu e pensou:
Será isto a felicidade? Não é perfeita, nem fácil, mas é real com dúvidas, recomeços, vitórias pequenas. Com uma filha que acredita em mim mais do que eu própria. Com um homem que vê em mim aquilo de que quase me tinha esquecido.
O jardim recebeu-a com a luz suave dos candeeiros e o som tranquilo das folhas. No ar pairava uma serenidade rara. Matilde caminhou devagar, olhos postos nas figuras mais à frente.
Lá estava ele. O senhor Artur, de pé junto ao lago, com um ramo de flores campestres. Simples, bonitas, autênticas. Ao avistar Matilde, sorriu daquele jeito especial.
Aproximou-se:
Olá. Estás linda.
Ela sentiu as faces corar, mas não desviou o olhar.
Obrigada. As flores são maravilhosas.
Artur estendeu-lhe o ramo:
São para ti. Pensei que gostavas de algo simples, sem grandes exageros.
Adoro e disse-o com toda a sinceridade, cheirando as flores. Muito obrigada.
Foram andando lado a lado, a conversar sobre tudo trabalho, filhos, a cidade e as voltas que a vida dá. A cada minuto sentia mais força por dentro. Não estava sozinha.
E, só isso, já era tanto.







