Dona, não pense mal de mim! Não sou sem‑teto. Chame‑me Mário Semenho. Vim à minha filha. É difícil de contar…

-Lurdes, não me leve a mal! Não sou um semteto. Chamome António Silva. Vim visitar a minha filha. É uma história difícil de contar

Faltavam apenas algumas horas para a virada do Ano Novo. Todos os colegas já tinham desaparecido para as suas casas, mas ninguém esperava pela Inês

Para não ter de voltar ao trabalho no primeiro de janeiro, Inês decidiu adiantar as tarefas. No frigorífico já lhe aguardavam duas saladas, fruta fresca e um copo de espumante, tudo preparado com antecedência.

Não tinha pressa de se vestir; antes queria tirar os saltos e colocar um pijama macio.

Acontecera que, há alguns meses, ela e o João tinham terminado, e a separação fora tão dolorosa que Inês não se apressava em abrir o coração a novo amor. Agora preferia a companhia da própria solidão.

João tentara reconquistarla, ligandolhe diversas vezes, mas Inês não queria recomeçar. Não vai dar nada, diziase, não somos mais um casal, é complicado demais. Nem pensar em trazer o passado à memória; não queria estragar a festa.

Inês desceu da autocarro. A poucos passos da porta da sua casa, junto ao prédio, numa pequena banca, avistou um senhor de idade avançada ao lado de um pequeno pinheiro de Natal.

 Provavelmente a caminho de uma visita pensou.

Saudouo com um aceno; o homem apenas respondeu com a cabeça, sem desviar o olhar.

Pareceu-lhe que nos olhos do senhor cintilavam lágrimas ou o reflexo das luzes, mas não lhe deu importância e apressouse para o interior.

Já começava a esfriar ao cair da noite e Inês estremeceu. Depois de um banho quente, vestiu o seu pijama de felpa preferido, serviuse de um café forte e aproximouse da janela.

Estranhamente, o velho continuava sentado na banca.

 Já passou mais de uma hora desde que cheguei a casa, faltam duas horas para o Ano Novo. Se ele veio fazer visita, por que está ali fora, na rua? E esse brilho nos olhos! pensou Inês.

Montou a mesa, acendeu a guirlanda do pinheiro da sala e, no entanto, a sua mente não deixava de pensar naquele velho solitário.

Passaramse trinta minutos; Inês espreitou pela janela e o senhor ainda estava ali, imóvel.

 Será que está doente? O frio pode ser fatal. murmurou.

Vestiu rapidamente o sobretudo e saiu para a rua.

Chegando à banca, sentouse ao lado do homem. Ele olhoua e virouse para ela.

 Desculpe, está tudo bem consigo? Notei que tem ficado muito tempo sozinho. Está frio lá fora. Posso ajudar em alguma coisa? perguntou.

O idoso suspirou:

 Nada, menina! Estou bem, só vou ficar um pouco aqui e depois sigo para a estação. Vou para casa.

 Para onde?

 Para a estação. Depois volto.

 Não pode ficar aqui. Não quero acordar e vêlo ainda na banca. Levantese! Por favor, venha comigo. Pode aquecer aqui e depois seguir o seu caminho.

 Mas

 Sem mas! Vamos!

Inês sabia que, se a sua amiga Sílvia estivesse presente, teria feito grandes olhos, mas Sílvia não estava ali, e deixar o senhor sozinho era impossível.

O velho levantouse, agarrou o pinheiro.

 Posso levar?

 Claro, leve.

Entraram na casa do senhor; ele colocou o pinheiro pequeno no corredor, despediuse do casaco, cada passo era penoso, o frio ainda lhe marcava os ossos.

Sentouse na cozinha; Inês serviulhe chá e ele aquecia as mãos segurando a chávena. Depois de alguns goles, levantouos e disse:

 Luz, não me leve a mal! Não sou semteto. Chamome António Silva. Vim à minha filha. É um conto penoso

Com a exesposa, Maria, havia-se separado há muito tempo; ele reconhecia a culpa, tinha conhecido outra mulher e, como um jovem apaixonado, não viu nada além do amor.

Primeiro escondeuse, depois a esposa descobriuo através de Marta, a sua filha, e a casa encheuse de discussões. Numa noite, bateu a porta e saiu em busca da outra, da sua amada.

Na altura, Marta tinha apenas cinco anos.

Inicialmente, António tentava ajudar, mas Maria, muito orgulhosa, recusavase a aceitar qualquer auxílio, nem sequer os alimentos. Decidiu criar a filha sozinha.

Ele tentava intervir através dos pais, através da esposa, mas nada funcionava; ela começou a virar a filha contra ele.

Um dia, ao chegar à creche, procurou levar brinquedos à menina, mas Marta fugiu, recusouse a falar e ainda lhe disse que ele não era ninguém.

Então António decidiu recuar, nunca mais aparecer na vida da filha. Ele e Marta mudaramse da cidade; ele tentou enviar dinheiro a Maria para a menina, mas o dinheiro sempre voltava. Abandonou a ideia, compreendendo que Maria não lhe daria nada.

Dez anos depois, António e Marta regressaram à mesma cidade. Os pais de António já não existiam, e instalaramse no apartamento deles. Vendendoo, compraram uma casa de campo nos arredores, perto de Lisboa, onde viveram.

Não tiveram filhos juntos

Dois anos antes, Marta faleceu e António ficou só.

Não sabia bem porquê, mas naquele dia foi à casa da filha não esperava perdão.

Não via a filha há muitos anos. Ela ainda habitava o mesmo apartamento onde viveram.

Comprou um pinheiro, bateu à porta da filha, mas esta não lhe abriu o limiar

Ele compreendia tudo

Porquê ter vindo? O que esperava? Ele era um estranho para ela. Não esperava nada; já tinha casa, uma pensão digna, podia sustentar a filha, a única pessoa que lhe era cara.

Tudo seria diferente se Maria lhe permitira ver a filha e participar na sua vida.

Saiu da porta da casa da filha e vagou, sem rumo, até acabar aqui, sentado num banco, como se o tempo tivesse parado. Nem queria moverse. Talvez ali ficasse para sempre

Mas o destino lhe reservou outra coisa. Ainda tem alguma missão aqui Obrigado, filha, já me aqueci, vou esperar o autocarro e voltar para casa.

 Mas para onde vai à noite! O autocarro só passa de manhã, falta meia hora para o Ano Novo. Fique, doulhe o sofá para se deitar, e de manhã irá.

António Silva fitoua.

 É muito incômodo, Luz! Hoje em dia poucos deixariam uma pessoa desconhecida assim. Sinceramente, não quero ficar só, se me deixar, fico. De manhã irei embora.

 Então assim está resolvido.

Na manhã seguinte, António preparouse para partir.

 Obrigado, Inês, por tudo. És como um anjo, salvasteme de fazer algo imprudente; eu realmente queria ficar ali, naquele banco.

 Se quiser, venha à minha casa! Não é longe, tenho bastante espaço, um pequeno apiário, cinco colmeias atrás da casa, no verão é um espetáculo.

Marta adorava o pomar maçãs, peras, tudo o que há! E no inverno o rio próximo é perfeito para descansar. Venha, Luz, descanse um pouco.

 Obrigado, António Silva! Irei, prometo!

 Então vá, muito obrigado novamente

Inês ficou a observar a janela até que António desapareceu na curva da rua.

É assim que acontece! Os que nos são caros ainda desconhecemnos, e os estranhos às vezes tornamse família.

Inês perdera os pais ainda cedo e, ao ouvir o triste relato do velho solitário, decidiu que, sem falta, visitaria-o

(Os leitores podem deixar os seus comentários e gostos; as palavras de apoio mantêmnos a escrever mais histórias.)Assim que o relógio marcou meianoite, Inês bateu à porta da pequena casa onde António descansava. O velho abriu o portão rangendo, e, ao vêla, os olhos lhe brilharam como se a esperança surgisse de repente.

Venha, entre, disse ele, tremendo de frio e de emoção. Ainda não acendi a lareira, mas há um canto quente aqui dentro.

Inês carregou o copo de espumante que ainda tinha no bolso e, ao colocálo sobre a mesa improvisada, a espuma refletiu as luzes da rua. Sentaramse frente a frente, e o silêncio entre eles foi preenchido pelos estalos da primeira explosão de fogos que ecoava ao longe.

Sabia que o Ano Novo tem o poder de abrir portas que ficaram trancadas há muito, confessou António, a voz rouca. Quando deixei a minha filha, deixei também a minha própria coragem.

Inês sorriu, sentindo a própria solidão desvanecerse como a neve que começava a cair suavemente sobre o telhado. Eu também deixei portas fechadas, admitiu, mas hoje percebo que a chave está em oferecernos ao outro, mesmo quando não sabemos o que haverá do outro lado.

Um som inesperado interrompeu a conversa: o tilintar de um carro que parou à porta da frente. A porta se abriu e, com passos hesitantes, saiu Marta, a filha de António, ainda carregando a caixa de um presente embrulhado em papel amarelo desbotado.

Pai, disse ela, a voz embargada, eu ouvi o seu nome nos corredores da estação esta manhã. Vim para ver se ainda há tempo para ser parte da sua história.

António estendeu as mãos, tremendo, e abraçoua com força. Inês, ao observar aquele reencontro, sentiu uma onda quente correr pelo seu peito, como se a própria vida lhe entregasse um presente inesperado.

Obrigada, Marta murmurou a mulher mais velha, ainda com a respiração curta . Não sei como agradecer.

A filha, com um sorriso tímido, entregoulhe o pequeno pinheiro que António havia carregado como sinal de esperança. As luzes da árvore cintilaram, refletindo nas gotas de orvalho que cobriam o chão.

Naquele instante, o relógio marcava o primeiro minuto do ano novo, e Inês percebeu que, ao abrir a porta para um desconhecido, tinha aberto também a porta para si própria. O futuro, antes um véu escuro, agora se iluminava com promessas de encontros, de perdões e de novos começos.

Quando os últimos fogos se apagaram, Inês levantouse, abraçou António e prometeu voltar, não como uma visitante pontual, mas como alguém que, naquele ano recéminiciado, faria parte da pequena família que se formava ao redor daquele pinheiro.

E assim, enquanto a neve continuava a cair, a casa ganhou calor, a vida ganhou sentido e o coração de Inês encontrou, finalmente, a melodia que há muito buscava.

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Druhá mama