Chamo-me Leonor, tenho cinquenta e dois anos e estou divorciada há quinze. Tenho uma filha adulta, casa própria, trabalho, amigas, férias duas vezes por ano e uma vida surpreendentemente sossegada. À noite, como gelado diretamente do pacote e vejo séries até às duas da manhã. Aos fins de semana, durmo até à hora do almoço. Posso deixar uma caneca em cima da mesa sem ouvir uma palestra sobre a desarrumação. Posso não cozinhar caldo verde se não me apetecer cozinhar caldo verde. E, o mais importante, ninguém me fica em cima com a pergunta: «O que é que temos para o jantar?»
O problema é que os homens, por qualquer razão, veem a minha independência como um mal-entendido temporário que precisa de ser corrigido com urgência pela sua presença. Primeiro, admiram. Dizem que sou independente, interessante, autossuficiente. Mas passam umas semanas e descobre-se que a admiração deles tinha um objetivo oculto. Esperavam, sinceramente, que toda essa autonomia, mais cedo ou mais tarde, começasse a trabalhar a favor deles.
O primeiro sinal de alarme foi com o Afonso. Afonso tinha cinquenta e oito anos, apresentava-se bem, falava de viagens com inteligência e até sabia usar os guardanapos num restaurante — o que, depois dos cinquenta, já se pode considerar uma qualidade séria. Andámos juntos cerca de um mês. Corria tudo bem: cinema, passeios, cafés, idas para fora. Até que, numa noite, ele disse uma frase que me fez pousar a chávena de café no pires.
«Ouve, não podias vir para minha casa depois do trabalho?»
«Para quê?»
«Ora, para fazer o jantar.»
Ainda repeti.
«Fazer o quê?»
«O jantar.»
Descobri que o Afonso estava farto de viver sozinho. Não moralmente. Fisicamente. Oprimia-o o frigorífico que não se enchia sozinho. Afligia-o o fogão que não cozia o caldo verde sem ajuda. Preocupava-o a máquina de lavar que, por qualquer razão, exigia a participação de uma pessoa. A certa altura percebi que o homem olhava para uma relação como uma espécie de outsourcing dos serviços domésticos.
«Afonso, e por que é que não cozinhas tu?»
Olhou para mim como se eu lhe tivesse sugerido que fizesse um bypass cardíaco sozinho.
«Ora, tu és mulher.»
Argumento impressionante. Curto. Conciso. Fecha logo todas as questões. Especialmente se não se pensar.
Depois do Afonso, veio o Rui. Rui tinha cinquenta e cinco anos. O Rui adorava queixar-se das mulheres interesseiras. Era o passatempo favorito dele. Qualquer conversa, ao fim de sete minutos, desviava-se para a história de como o tinham tentado usar por causa do dinheiro. Soava especialmente cómico vindo de um homem que conduzia um carro mais velho que alguns estudantes e contava as moedas antes de passar na caixa do supermercado.
Ao sexto encontro, o Rui decidiu convidar-me para casa dele.
«Aparece no sábado.»
«Está bem.»
«Mas, já agora, traz uns produtos pelo caminho.»
«Que produtos?»
«Para o jantar.»
«Queres que eu traga os produtos?»
«Sim.»
«E tu fazes o quê?»
«Eu recebo-te.»
Ainda hoje acho que este homem foi um génio subestimado. Porque conseguir inventar um encontro em que a mulher compra os mantimentos, os leva, cozinha o jantar e ainda agradece o convite não é para qualquer um.
«Rui, e o dinheiro dos produtos?»
«Para quê?»
«Como assim?»
«Tu tens trabalho, não tens?»
Aí percebi que ele usava a palavra «interesseira» apenas em relação aos outros.
Depois destas histórias, comecei a notar um padrão. Os homens gostavam da minha casa. Gostavam da arrumação. Gostavam que eu tivesse sempre comida, toalhas limpas, lençóis frescos e canalização a funcionar. Gostavam da minha vida. Mas a maioria estava convencida de que, ao começar uma relação, eu devia alargar aquele serviço e passar a atender também a eles.
O mais cómico foi o Pedro. O Pedro começou a falar de viver juntos muito rapidamente. Fazia-o com o entusiasmo de quem acabara de descobrir uma maneira de reduzir a despesa a sério.
«Imagina que vantagem viver juntos.»
Quando um homem começa uma conversa com a palavra «vantagem», as mulheres da minha idade já querem pegar na calculadora.
«Em que sentido?»
«Um frigorífico. Uma internet. Uma conta da luz.»
«Para quem é a vantagem?»
«Para nós.»
Sorri.
«Pedro, e tu onde vives agora?»
«Numa casa arrendada.»
«E eu?»
«Na tua.»
Aqui a aritmética ficou subitamente muito interessante.
«Ou seja, tu deixas de pagar renda, mudas-te para minha casa, cortas despesas e ficas feliz?»
«Pois.»
«E a minha vantagem onde está?»
Depois desta pergunta, o homem calou-se. Por uns dois minutos. Via-se que por dentro estava a decorrer um processo mental complicado. Tão complicado que nunca obtive resposta.
O mais engraçado foi com o Joaquim. Tinha sessenta e um anos. Pessoa muito correta. Muito educada. Muito cansada da solidão.
«É difícil estar sozinho.»
Assenti, compreensiva.
«Para mim é fácil.»
Ele até se atrapalhou.
Porque os homens costumam esperar outra reação. Esperam compaixão. Solidariedade. Uma saudade comum da falta de um parceiro. Quando uma mulher anuncia calmamente que está bem sozinha, o sistema dá o berro.
E aqui chegamos à pergunta principal, que irrita tantos homens.
Eu preciso mesmo de um homem.
Mas não para lhe passar as camisas a ferro.
Não para lhe engomar as calças.
Não para lhe fazer sopas ao domingo.
Não para lhe andar à procura das meias debaixo do sofá.
Não para ouvir histórias sobre por que é que ele não consegue marcar uma consulta sozinho.
Preciso de um homem para conversar. Para viajar. Para passear. Para ir ao teatro. Para férias. Para uma boa noite. Para afecto. Para emoções. Para alegria. Mas não para ter residência fixa na minha cozinha.
Os homens ofendem-se muito com esta posição. Já me chamaram egoísta. Chamaram-me estragada. Chamaram-me demasiado independente. Disseram que não sei construir relações. Mas ninguém ainda conseguiu explicar por que razão uma relação tem de significar trabalho extra para a mulher. Por que é que o homem ganha uma companheira, uma interlocutora, uma amante, uma dona de casa e uma cozinheira tudo num pacote, e a mulher tem de considerar como recompensa o simples facto de ele estar presente.
Às vezes parece-me que muitos homens simplesmente não deram pelo mundo a mudar. Continuam a viver segundo as regras que funcionavam há trinta anos. Na altura, era mais fácil para uma mulher aceitar um casamento incómodo do que viver sozinha. Hoje é diferente. Muitas mulheres da minha idade têm trabalho, casa, amigos, filhos crescidos, créditos pagos, vida organizada. E quando aparece um homem, surge uma pergunta muito simples: a minha vida vai melhorar?
Se a resposta é «não», então para quê?
Portanto, sim, falo com franqueza. Preciso de um homem para o fim de semana. Para a vida, já estou demasiado bem instalada. E sabem o que é mais surpreendente? Cada vez que digo esta frase, os homens ficam ofendidos. Mas, se pensarmos bem, é o elogio mais honesto que se pode fazer a uma relação. Porque quero ter aquela pessoa ao meu lado não porque não consigo sem ela, mas porque me sinto bem com ela.
E viver juntos para que alguém tenha um cozinheiro gratuito, uma empregada de limpeza e uma administradora da própria vida? Desculpem. Essa vaga fechei-a há quinze anos e não tenciono reabri-la.







