Toda a vida, o João sonhou com um filho. Já tinha até nome: Tiago. Mas o destino prega partidas, e em casa cresciam três filhas…
A mulher, a Maria, não se queixava:
— Olha, mas que lindas que elas são! — repetia ela.
O João sorria e acenava que sim. Claro que adorava as suas pequenas espertas. Mas, de vez em quando, lá sentia uma pontinha de inveja ao ver o vizinho a jogar à bola com os filhos.
— Deixa-te disso, João! A tua Inês anda no karaté. Dá luta a qualquer rapaz! — dizia-lhe o amigo Zé.
O João ria-se. A Inês, com os seus dez anos, era mesmo uma miúda destemida. As irmãs, as gémeas Sofia e Beatriz, de sete anos, também não lhe ficavam atrás.
No entanto, o sonho do rapaz continuava a incomodá-lo…
As filhas também tinham um sonho: um animal de estimação.
— Isso é que não. Eu não aturo em casa uma criatura a ladrar o dia todo — despachava o João os pedidos das miúdas para terem um cão.
— Um gato estraga os papéis de parede. Os hamsters cheiram mal. Um papagaio é barulhento demais — rejeitava o homem todas as propostas seguintes.
As meninas faziam beicinho e até se zangavam.
— A Inês e a Matilde têm duas cadelas em casa! E não se passa nada! — queixava-se baixinho a Inês, mas o pai não cedia.
— Havemos de arranjar maneira — consolava a Sofia, que nunca desistia.
O aniversário do João aproximava-se. As miúdas reuniram-se no quarto da Inês a discutir o que haviam de oferecer ao pai.
— Uma garrafa térmica? Um kit de barbear?
— Qual quê! Isso é muito básico!
— Então pensa tu, já que és tão esperta! Nós fazemos um desenho! Faltam dois dias!
— Parece o infantário, a sério! O presente tem de ser uma surpresa, algo de que ele se lembre! É o que a mãe diz.
A discussão já durava meia hora e ameaçava virar à luta, quando o telefone tocou:
— Inês, já levaram o lixo? — perguntou a mãe.
— Claro… já. Está tudo tratado. E tu já vens para casa? — mentiu a Inês, sem pestanejar. E, depois de confirmar que a mãe demorava, começou a preparar-se.
— Nós vamos contigo! — apoiaram as gémeas.
— O quê, vamos as três só com um saco do lixo? — franziu a Inês.
Mas minutos depois, safaram-se todas para a rua.
— Ouvem? Ali, perto do caixote, — cochichou a Beatriz.
As meninas pararam e acenaram que sim. Ao chegar perto, perceberam que dos contentores saía um miado lastimoso.
— Não me digam que enfiaram um gato ali dentro? — hesitou a Inês.
A Sofia encolheu os ombros e começou a atirar sacos cheios para fora.
As irmãs, com o nariz torcido, ajudaram. Como se soubesse que a salvação estava perto, o gato soltou um uivo aflito.
— Espero que ele não nos salte em cima. E porque é que ainda não saiu? Está entalado? — grunhiu a Inês, debruçando-se sobre o contentor.
Do outro lado, a Sofia e a Beatriz remexiam com energia.
Passados minutos, a resposta apareceu:
— Os adultos são doidos varridos. Meter o gato num saco do lixo e deitá-lo fora? — indignou-se a Inês, a desatar o plástico onde um gato ruivo, assustado, se aconchegava.
— Que bonito e manso! Como é que alguém deitou fora o coitado? — suspirou a Beatriz.
O gato trepou-lhe logo para o colo e encostou-se, a tremer de medo.
— Então o que é isto, malandrinhas? Puseram o lixo todo no chão! Vou contar aos vossos pais. Arranjaram uma brincadeira enquanto eles não estão! — gritava a Dona Rosa, no meio do pátio.
Discutir com aquela mulher era inútil. Ela aproximava-se, apesar da idade.
— Foge! — ordenou a Inês.
E as irmãs dispararam para o prédio. Atrás, ouviam-se os berros da Dona Rosa.
— Ufa, parece que safámos — respirou a Sofia, a fechar a porta.
— Ela vai queixar-se, vão ver. Lembram-se quando partimos a janela do prédio? Ela apareceu logo e contou ao pai nessa noite — resmungou a Inês, a recordar as asneiras.
O João, entretanto, voltava do trabalho. Estava de ótimo humor. Chegava o fim de semana e o seu aniversário. Desde miúdo que adorava o dia e gostava de o passar em família.
De repente, uma cigana surgiu ao seu lado:
— Um presente inesperado espera por ti, querido! Vais ficar contente, vais rir! — disse ela, tocando-lhe na mão, e seguiu caminho.
«Que videntes estranhas que há hoje. Antigamente pediam a mão para ler», pensou o João, e sem dar importância, apressou-se para casa…
Em casa, a discussão continuava:
— E a mãe, o que vai dar? — perguntou a Inês às irmãs, que encolheram os ombros.
— Perguntei, mas ela disse que é uma surpresa. Só saberemos na altura — respondeu a Sofia.
Era estranho. A mãe costumava preparar a festa do pai com elas.
— Vi-a a meter qualquer coisa num envelope. Deve ser uma viagem para um spa? Lembram-se de eles sonharem com umas férias juntos? — disse a Beatriz, pensativa.
— Talvez. Mas a nossa surpresa também não fica atrás. Há de marcar e ser uma grande surpresa para o pai — riu-se a Inês.
— Só não pode é descobri-la antes do tempo — pôs a Sofia o dedo nos lábios.
Nisto, tocaram à campainha e as miúdas correram a abrir. À porta estavam os pais.
— Hoje estão muito sossegadas. Confessem lá o que fizeram agora — disse a Maria, a fitar as filhas.
Mas as irmãs garantiram que estava tudo bem.
— Até levámos o lixo! — anunciou a Inês.
— Que bom. E porque é que a casa de banho está tão molhada? — perguntou a mãe, a aproximar-se do lavatório.
As miúdas trocaram olhares.
— Desculpa, mãe, ia lavar uma t-shirt. Sujei-a um bocadinho — baixou a Beatriz os olhos.
— Não passa um dia sem aventuras! — riu-se o João. Estava mesmo de bom humor.
As meninas foram para os quartos e deitaram-se sem discussões.
— A equipa está a crescer… Olha que obedientes. Deve ser para me prepararem uma surpresa — sorriu o João, a beijar a mulher.
— Parece-me antes a calma antes da tempestade — duvidou a Maria. Conhecia bem as filhas…
Já estavam a dormir, quando do quarto da Inês se ouviu um barulho.
— Pareceu-me ouvir um miado — murmurou o João, meio a sonhar.
Quando entraram no quarto, a Inês estava com a Sofia:
— Tive um pesadelo, mas já passou. Posso dormir com a Inês? — disse a menina baixinho.
— Claro, querida. Precisam de ajuda? — perguntou a Maria.
As irmãs acenaram que não, e a noite passou tranquila…
Na véspera do aniversário, o João dormiu mal. Sonhou com uma cigana de cabelo ruivo. Ela miava e olhava-o com olhos verdes brilhantes.
Por fim, abriu os olhos e parou. Ali, em cima do seu peito, estava um monstro ruivo a fulminá-lo com o olhar!
— Miau — cumprimentou o monstro.
— Aaaiii! — escapou-se ao homem.
A Maria saltou logo da cama, a tentar perceber.
— O quê? O que é isto? — balbuciou o aniversariante, a olhar para o gato ruivo que já se aconchegava aos seus pés.
A Maria pestanejou, atónita.
— Ai, pai! Já viste a nossa surpresa! — entrou a Inês, a tentar parecer animada.
Atrás, vieram as gémeas:
— Parabéns, papá! Quisemos dar-te um presente inesquecível. Conhece o Barriguinhas. É muito bom, calmo e educado.
A propósito, já está cá há dois dias e nem demos por ele. Os sofás estão intactos e os papéis de parede também — falaram a Sofia e a Beatriz, a uma voz.
A Maria riu-se, ao ver o João a respirar fundo.
— Não te preocupes, pai. A mãe vai dar-te uma viagem para um spa, e descansam longe de nós. Nós tratamos de tudo — disparou a Inês.
— Que spa? Esperem lá, meninas — a Maria olhou surpresa para as filhas.
— Mas o teu presente no envelope não era uma viagem? Eu vi — acudiu a Beatriz.
A Maria soltou uma risada nervosa.
— Parece que nesta casa nada se esconde — disse por fim.
— E o que faço eu com este bicho? — perguntou o João, confuso, a ver o gato a ronronar-lhe aos pés.
— Sabes, pai, foi sem querer. Fomos ao lixo e encontrámo-lo num saco… no contentor. Depois apareceu a Dona Rosa. Berrou tanto. Tu conheces… — começou a Inês.
— Assustámo-nos e fugimos a correr para casa — acrescentou a Sofia, com autoridade.
— Aconteceu tudo e o gato veio parar aqui. Mas não o íamos deitar fora outra vez? Lavámo-lo e está limpinho. É muito calmo e paciente — disse a Beatriz, com os olhos a brilhar.
O João suspirou. Lembrou-se das palavras da cigana sobre o presente inesperado.
— Pois… Presente e meio — murmurou ele, a olhar para o grupo.
— Querido, talvez as miúdas tenham razão. O gato merece uma hipótese. Passou por tanta coisa. E parece mesmo manso e carinhoso — apoiou a mãe.
O João suspirou, a ponderar.
— Ele vai caçar ratos! Tenho a certeza! — atirou a Sofia, com o argumento de ouro.
— Mas nunca tivemos ratos — disse o João, a olhar em volta, triste.
— Pode ser que apareçam, ouvi um barulho no outro dia atrás da parede — apoiou a irmã a Beatriz.
— Está bem, malandrinhas. Vamos ver como se portam. E o Barriguinhas também — riu-se o João.
— Porquê Barriguinhas? — quis saber a Maria.
— Devias ouvir como ele ronrona quando lhe fazem festas na barriga — sorriram as miúdas.
— E afinal, o que era o presente no envelope? — perguntou a Beatriz.
A Maria corou ligeiramente. Depois foi buscar uma caixa pequena que continha um envelope.
— Não acredito! — disse o homem, emocionado, a olhar para o conteúdo.
Não conseguiu conter as lágrimas…
*****
— Claro, um irmãozinho é ótimo. Mas acho que o Barriguinhas também deixou marca no pai — cochichou a Beatriz à irmã, já na cama.
— O Barriguinhas é um traidor. Dormiu connosco dois dias e hoje foi para os pais — franziu a Sofia.
— Deixa lá. É o gato do pai, ora essa — riu-se a Beatriz.
O João deitou-se, feliz, a ouvir o ronronar do Barriguinhas.
— Que som relaxante. Porque é que não arranjámos um gato antes? Não entendo — sussurrou, a abraçar a mulher.
— Aproveita a calma, que aqui em casa vai deixar de haver noites sossegadas — riu-se a Maria.
— Sabes, nem parece verdade que vamos ter um filho! Obrigado, amor, é o melhor presente de todos! — sorriu o João, a fechar os olhos de felicidade.







