Ontem fui bater à porta do meu vizinho Rui, pedir-lhe a berbequim emprestada. Abriu-me a porta de calças de fato de treino e t-shirt:
Entra, acabei de jantar.
Entrei. O apartamento estava impecável, na cozinha cheirava a frango assado. No balcão o portátil, ao lado um copo de vinho tinto.
O Rui tem cinquenta e um anos. Divorciado há doze. Vive sozinho. É engenheiro, ganha uns dois mil euros por mês.
Conheço-o há cinco anos, desde que vim morar para este prédio. Nunca lhe vi mulher. Nem nas festas, nem a sair de casa.
Deu-me a berbequim, serviu um whisky:
Senta-te lá, já não nos víamos faz tempo.
Sentámo-nos na cozinha. Bebemos.
Perguntei-lhe:
Rui, porque é que ainda vives sozinho? Nunca procuraste mais ninguém?
Esboçou um sorriso:
Não procuro de propósito, Tiago. Vivi doze anos assim e percebi que é melhor para mim.
Porquê?
Serviu mais um pouco e recostou-se na cadeira:
Conto-te. Seis razões. Muito claras. Chegaram com a experiência.
Primeira razão medo de perder tudo num divórcio
Rui começou:
Divorciei-me há doze anos. Fui casado dezoito com a Teresa. Temos uma filha, tem vinte e oito agora, vive por conta própria.
Deu um gole:
Divorciámo-nos porque ela me traiu, com um colega. Pedi eu a separação.
E então?
O tribunal dividiu a casa ao meio. E fui eu que paguei a maior parte do empréstimo. Acabámos por vender, repartimos o dinheiro, comprei esta T1.
Olhou-me de frente:
Tiago, perdi metade do que construí porque ela traiu, e isto tudo pelos trâmites legais. Percebes? Eu trabalhava, pagava a casa, ela traía, e na mesma ficou com metade.
Pois é o sistema.
Exactamente. Agora diz-me: para quê arriscar outra vez? Imagina que conheço outra, voltamos a morar juntos, casamos, compramos carro, ganhamos bens. Se ela se farta, volta tudo ao início. Para quê correr riscos destes?
Fiquei a pensar, ele continuou.
Segunda razão faltam incentivos para sonhos próprios
Sabes, Tiago, tenho um sonho. Quero comprar uma mota antiga. Recuperá-la, passear nos domingos.
Grande ideia.
Por isso ando a juntar há um ano. Mais uns meses, compro uma Zündapp dos anos 70 e ponho mãos à obra.
Deitou água no copo, bebeu:
Quando era casado também tinha sonhos. Um deles aprender guitarra. Comprei o instrumento, até me inscrevi nas aulas. Teresa disse: “O que é que tu queres com isso? Já tens quarenta anos, não és o Rui Veloso.” Larguei. Queria fazer um passeio de kayak pelo Douro. Ela: “Tu és doido? Agora que temos crédito, andas a sonhar com miudezas?” Fiquei em casa.
Olhou pela janela:
As mulheres não ligam aos sonhos de homens. Acham tudo parvo. Agora faço o que quero. Quando comprar a mota, não há ninguém a chamar-me maluco.
Terceira razão expectativas fora da realidade
Rui seguiu:
Três anos atrás, experimentei uns sites de encontros. Preenchi o perfil, incluí idade, profissão, salário, hobbies.
E correu?
Falei com algumas. Uma Alice, quarenta e seis anos, recepcionista de salão de beleza. Ganha mil euros. Escreveu logo: “Acho-o interessante, mas procuro alguém que ganhe pelo menos três mil.”
Desatou-se a rir:
Respondi: “E a Alice, quanto ganha?” Ficou ofendida, bloqueou.
A sério?
Completamente, Tiago. Hoje em dia, a maioria acha que são princesas. Ganham mil euros, vivem em casa arrendada, mas exigem um homem com três mil, carro, apartamento. E o que dão em troca? Dizem ter “energia feminina”
Acabou o whisky:
Ganho dois mil euros, tenho casa minha e carro. Para muitas mulheres, sou um falhado não sou rico. Para quê estar com alguém que não me valoriza?
Quarta razão dispensam-se para o trabalho de casa
Perguntei-lhe:
Não sentes falta de companhia? Daquele aconchego de casa, saber que tens alguém?
Riu-se:
Olha à volta, Tiago. Brinco? Está limpo? Está. Limpo ao sábado, em uma hora. E cozinhar? Hoje foi frango com legumes, meia horinha e está. Lavar a roupa? É meter na máquina, carregar num botão, não custa.
Levantou-se, mostrou-me a cozinha:
Não preciso de mulher para o lar. Faço tudo sozinho. E sabes quantas hoje nem cozinhar sabem? Metade, Tiago. Encomendam comida ou vivem de enlatados.
Também há quem goste de tratar da casa
Há, mas cada vez menos. E de que serve uma mulher assim se só fica em casa em troca de lhe bancar tudo? Prefiro cozinhar eu mesmo.
Quinta razão desconfiar de manipulação e mentira
Rui serviu-nos mais um copo.
Após o divórcio, cheguei a sair com duas. Mas não durou.
Que se passou?
A primeira, Helena, dizia que era divorciada. Ao fim de um mês, soube por acaso que ainda era casada e só queria alguém para compensar o marido, que ganhava pouco. Ficou-se por aí.
Deu outro gole:
A segunda, Mariana, dizia ser solteira, sem filhos. Ao fim de dois meses, descobri que tinha dois. Comecei a perceber tudo.
É dose
Pois é. Cansa, Tiago. As mulheres mentem e acham normal terem segredos para segurar um homem. E depois não percebem porque é que deixamos de confiar.
Sexta razão tentar aproximar-se é castigo
Recostou-se novamente na cadeira.
A última tentativa foi há um ano, numa livraria. Vi uma mulher com uns quarenta e cinco anos, bonita, a escolher um livro de clássicos.
E então?
Cheguei-me a ela: “Boa tarde, gosta dos clássicos? Se quiser uma sugestão” Olhou como se eu fosse bandido. Respondeu seco: “Obrigada, escolho sozinha.” Virou costas e foi-se embora.
Sorriu com algum amargor:
Tiago, hoje qualquer iniciativa é vista como assédio. Fala-se, é logo estranho. Escreves uma mensagem, és stalker. Chamas para um café, pensam que és interesseiro.
Nem todas
Nem todas, claro. Mas uma maioria. Cansei de levar negas e caras frias. Se houver interesse, que venha delas. Já não vou insistir nem humilhar-me.
O que aprendi com o Rui
Rui bebeu o resto do copo e olhou-me fixamente:
Não digo que todas as mulheres são iguais. Mas encontrar uma diferente é como procurar ouro no Tejo. E o preço do erro é alto: perdes dinheiro, saúde, e tempo.
Levantou-se:
Tenho cinquenta e um anos. Bom emprego, casa, carro, hobbies, amigos. Sou feliz sozinho. Porquê pôr isto tudo em risco em prol de uma relação que pode destruir tudo?
Voltei para casa, deitei-me a pensar.
Tenho quarenta e nove anos, sou casado há vinte e três. Com a minha mulher até corre tudo bem. Mas se estivesse sozinho teria tomado o mesmo caminho?
Talvez sim.
Será o Rui um homem sábio, que aprendeu a proteger-se de perdas e desgostos? Ou será apenas alguém que se fechou com medo de amar de novo?
Será verdade que os divórcios são sempre tão duros para os homens? Será que, de facto, as mulheres ignoram os sonhos dos homens, ou escolhemos nós mal as companheiras?
Enquanto pensava nisto, percebi: cada história tem várias verdades. Por vezes, protegemo-nos porque já vimos o que custa perder. Outras vezes, deixamo-nos guiar pelo medo e fechamos a porta à felicidade.
No fim, é a coragem de viver mesmo sabendo dos riscos que diferencia quem aceita crescer e tentar outra vez, de quem prefere ficar na sua zona de conforto. O importante é encontrar equilíbrio entre os medos e o desejo de ser feliz.






