Ana nunca confiou no seu maridoMas quando descobriu a caixa trancada no sótão, soube que os segredos que guardava eram mais sombrios do que jamais imaginara.

Eu lembro bem da Inês, que nunca confiou no marido. Por isso, ela aprendeu a contar apenas consigo mesma assim se deu a vida do casal.

O marido, Rui, era bonito como um narciso em flor e, além disso, sempre foi a alma de qualquer roda. Bebia com moderação, não fumava e nunca se empolgou por futebol, pesca ou caça. Em resumo, bom rapaz até ao palácio. Por essas qualidades, Inês suspeitava que Rui encontrava consolo fora das quatro paredes de casa; homens assim não se acham à toa. E, quem sabe, as caçadoras também apareciam

O que ainda acalmava Inês era o amor que Rui dedicava ao filho. Rui não poupava atenção ao Tiago. Todo o tempo livre o entregava ao menino, e Inês achava que esse amor paternal bastaria para manter a família unida.

Na escola, Inês era apelidada de Margarida por causa dos cabelos ruivos como fogo e das sardas espalhadas ao rosto. A mãe, sempre muito bonita, dizia desde pequena: Inês, és como o patinho feio. Desculpa a comparação, mas a verdade amarga há de ser reconhecida. E quem te dirá isso? Só a tua mãe. Casamento não é fácil, vais ter de te apoiar só em ti. Estuda, trabalha, e se um bom homem aparecer, não hesites em ser-lhe esposa obediente. Inês gravou essa lição para o resto da vida.

Depois de concluir o liceu com medalha de ouro, Inês ingressou na universidade, onde conheceu o futuro marido. Ela não entendia por que um jovem tão cobiçado teria se interessado por ela. Rui, mais tarde, confidenciou que Inês foi a única a quem não temeu aproximarse. Inês nunca usava maquilhagem, vestiase discretamente e não sabia coquetear. Quando percebeu que Rui a cortejava a sério, resolveu assumir a iniciativa. Não podia desperdiçar tal oportunidade! Propôs a Rui que se casassem. O jovem ficou inicialmente atónito com tamanha ousadia, mas Inês prometeu ser dócil, humilde e fiel. O amor chegará com o tempo, dizia ela. Rui acabou por aceitar, influenciado pela mãe Aurora, a sogra.

No primeiro dia em que Rui trouxe a futura nora à sua casa, Aurora olhoua com desdém. Essa menina sardenta, onde está o futuro neto bonito? O filho é um sol, mas eu queria netos loiros, não esses Margaridas. O encontro foi tenso.

Inês percebeu a insatisfação da sogra. No fundo, sabia que um marido bonito poderia ser um obstáculo à felicidade conjugal, mas não ia abdicar da chance. Foi à casa de Aurora sem Rui, para salvaguardar o futuro casamento. Aurora recebeua com chá; desta vez, Inês pareceu-lhe até simpática. Vou ser esposa leal ao teu filho, prometeu, e isso fez Aurora aceitar a nora.

Aurora era viúva; o marido abandonara a família há muito, só para voltar um ano depois, cansado e desiludido. A família nunca o perdoou. Aurora carregava a dúvida: teria de perdoar o infiel? Criar o filho sozinha era penoso, mas acabou por apoiar a escolha do filho, reconhecendo que Inês faria qualquer caminho para ficar com Rui. Assim, abençoou o matrimónio.

Um ano depois, nasceu Tiago, cópia viva do pai. Aurora ficou radiante. Rui pairava sobre o filho como borboleta frenética; Tiago era o seu sentido de vida. Mas o amor pela esposa nunca floresceu. Inês também não sentiu paixão por Rui; a relação era calma e rotineira. Lavavalhe as camisas, preparava as refeições, dava-lhe um beijo na bochecha antes de dormir. Rui entregava-lhe todo o salário, flores no aniversário e beijos matinais, mas tudo parecia mais um ritual do que amor verdadeiro. Ambos esperavam aquele sentimento que os livros e os amigos descrevem como amor de verdade.

Cinco anos depois, Rui encontrouo mas não na própria casa. Era numa jovem de beleza celeste chamada Beatriz. Tudo nela era etéreo e sedutor. Rui não resistiu ao encanto; Beatriz correspondia ao seu desejo. Durante seis meses encontraramse em cafés, bancos de parque e na casa de amigos. A conspiração exauria Rui, que mentia cada vez mais à esposa. Tiago via o pai irritado, não sorridente como antes. Beatriz exigiu: Ou casamos, ou ficamos amigos. Não quero ficar com velhas.

Rui ficou dividido. Não queria perder Beatriz, mas o filho também lhe era caro. Não pensava em Inês. Quando Tiago tinha cinco anos, Rui juntou as coisas e saiu de casa.

Inês lembravase das palavras da mãe. Na infância eram dolorosas, mas agora compreendia que a partida de Rui não seria uma tragédia. Não iria saltar do cais nem chorar três rios; a vacina materna contra as desgraças da vida tinha-lhe protegido.

A história feriua profundamente, um pedaço do coração arrancado, mas a felicidade, como ave livre, pousa onde quiser. Inês aceitou o destino, mas, ao despedirse, disse a Rui: As portas estarão sempre abertas para ti, mas não te demores. Tiago amate. Não o deixes sofrer.

Rui vagueou entre o filho e Beatriz por mais seis meses. Inês guardava a escova de dentes do exmarido num copo à parte da casa; cada vez que Rui lavava as mãos, a escova parecia encarálo, lembrandoo da sua culpa. Uma vez, Rui colocou a escova no bolso, decidido a descartála, mas encontrou outra nova ao voltar.

Na cozinha aguardava sempre a chávena de café quente; no corredor, os chinelos esperavam o seu dono. Pequenos detalhes raspavam a alma de Rui. Tentava sair mais depressa para brincar com Tiago e fugir da casa, mas não sabia explicar a própria partida. Uma força misteriosa levavao a Beatriz; a alma rasgavase em partes. Como não magoar quem amava? Quem poderia indicar o caminho? Rui se questionava sem respostas.

Inês podia ter-lhe fechado a porta, amaldiçoado a amante e o marido, mas mantevese calada. Cada vez que Rui partia, depois de brincar com Tiago, dizia: Vem, Rui. Não te esqueças de nós.

Beatriz, ao receber Rui, reclamava da confusão em torno de Tiago. Avisavao: Se eu for embora, será por causa do teu filho. Cuidas mais dele que de mim. Assim se arrastou o tempo.

As amigas de Inês cochichavam: Ó céus, casa-te logo! Por que esperas? O pai do Tiago precisa de ti todos os dias! És ainda jovem, esquece o Rui. Inês ouvia, suspirava, calavase. As amigas deixaram de insistir; todos já esperavam que ela ficasse só.

O tempo passou impiedosamente. Rui deixou de visitar Tiago. Pai e filho encontraramse apenas em locais neutros. Tiago terminou o liceu. Doze anos se passaram desde a partida de Rui. Inês pôs ponto final nessa fase, decidiu que ainda tinha forças para criar outro filho. Não encontrou a coisa certa, então comprou uma passagem e foi para destinos quentes, onde viveu um romance de verão, sem promessas, apenas uma distração leve.

Nove meses depois, Tiago recebeu uma irmã, a Marta. As amigas de Inês ficaram surpresas com a sua decisão. No parto, Inês saiu cansada, mas feliz, segurando um embrulho adornado com fitas rosadas. Olá, meninas! Por favor, cuidem da minha Marta! sorria Inês.

Uma amiga brincou: E o sobrenome da Marta, como vai chamar? Inês respondeu: O sobrenome cresce à medida que a menina cresce! A piada não tirou o brilho da alegria.

Marta foi à creche aos três anos; lá descobriu que as crianças também tinham pais. Passou a chamar o irmão Tiago de pai algo engraçado e amargo ao mesmo tempo.

Numa noite, o telefone de Inês tocou timidamente. Marta correu à porta gritando: É o meu papá!. Inês olhou pela janela e viu Rui! Aberrou a porta bem larga. Posso entrar, Inês? perguntou o inesperado visitante.

Rui largou duas sacolas abarrotadas, tirou a mochila das costas. Marta correu ao tio desconhecido, abraçandoo: Mãe, esse é o meu papá, não é?. Inês, com lágrimas nos olhos, respondeu: Sim, Marta, este é o teu pai.

Rui segurou a menina nos braços, beijou o seu nariz sardento, acariciou os cabelos dourados: Olá, meu raio de sol!. Depois, aproximouse de Inês, a beijou apaixonadamente. Obrigada, Inês. Perdoasme? implorou, tentando ajoelharse. Inês, firme, segurou o cotovelo dele, impedindoo de cair. Olá, meu mel amargo. Fizesteme esperar 17 anos. Não há rancor, quem não lembra do passado Precisamos do pai aqui, disse ela, aliviada.

Tiago, boquiaberto, observava ao lado, sorrindo. Algumas semanas depois, Inês, ainda a processar tudo, ligou a uma amiga curiosa e disse: Queres saber o nome da minha filha? Marta Viktorovna. Lembrate, Marta Viktorovna, sem exceções!.

Assim termina a história, marcada por perdas, reencontros e a força silenciosa de quem, mesmo sem confiar, aprende a viver à sua maneira.

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