O LADRÃO DAS CHOURIÇAS
Ele não conseguia ignorar aquele gato. Principalmente porque o felino era um verdadeiro larápio no seu pequeno talho de bairro em Lisboa. Mas a maneira como ele roubava era tão engraçada que era impossível zangar-se. Pelo contrário.
O dono do talho ficava sempre à espera, ansioso, para ver o início dos assaltos do bichano. Gravava tudo com o telemóvel, depois, ao serão, mostrava à mulher e os dois riam-se à gargalhada. Pois é.
O gato ficava bastante tempo sentado à frente das portas abertas, com aquele ar de quem só ali estava a descansar, nada mais. Compunha-se, espreitava discretamente para todos os lados, certificando-se de que ninguém via. O próprio talhante escondia-se atrás do grande frigorífico, filmando tudo sem ser visto.
O gato entrava, cauteloso, e dirigia-se imediatamente à bancada das chouriças. Lá ganhava coragem, disparava, agarrava uma chouriça ou uma farinheira e fugia a correr. Mas.
A fome era tanta que nunca conseguia ir muito longe uns dois metros fora da mercearia e já se atirava ao petisco.
O merceeiro saía, mas nunca se aproximava muito, limitava-se a perguntar:
Então, está bom?
O gato levantava a cabeça e respondia com um miado de aprovação.
Ainda bem, respondia o comerciante.
Aparece quando quiseres.
De certeza que pensam: Como é possível? Chouriças expostas, fora do frigorífico, num sítio pouco movimentado E cada salsicha, ou farinheira, posta ali, sozinha. Mas é simples.
O coração do dono era grande. Decidiu alimentar o gato assim mesmo. O bichano tinha aparecido à porta, magro, fraco, mas.
Recusava-se absolutamente a aceitar comida das mãos do homem, ou sequer aproximar-se dele. Então, o homem engendrou este plano.
Primeiro, pôs algumas salsichas quase à porta, mesmo ao pé. Chamou-o de Marujo, achava que lhe assentava bem aquele nome de ladrão travesso.
Para o Marujo sentir que conquistava a comida sozinho, com mérito, quase um roubo honesto.
E funcionou. Depois, o merceeiro foi colocando as chouriças cada vez mais para dentro, até chegarem à banca ao fundo, junto ao chão, com um cantinho das chouriças nada disfarçado.
O Marujo já podia entrar, escolher o que quisesse e sair, mas.
O que interessava ao Marujo era o ritual. Tudo o que se rouba sabe melhor.
Depois, o homem pôs uma tigela de água ao pé da porta, uma taça generosa com ração das boas e até uma caixa de areia, escondida do lado. Não bastava lá estava também uma pequena casota de cão, coberta com uma manta quente.
Marujo ainda era desconfiado, não se deixava apanhar. Contudo, gostava de conversar: o dono do talho saía para trocar umas palavras quando ele aparecia com o butim.
O gato, entre dentadas, olhava-o de vez em quando e miava de volta. Mas ultimamente, uma dúvida inquietava cada vez mais o comerciante.
O Marujo engordara, estava com bom pelo, e já não precisava de roubar chouriças para sobreviver. Mesmo assim, todos os dias, furtava duas, sempre a correr para a esquina. O merceeiro tentou seguir-lhe os passos, mas nunca conseguia: o Marujo escapulia-se sempre.
Foi então que decidiu comprar uma câmara minúscula, com bom ângulo de visão, ligada ao computador, no escritório, para descobrir o mistério do Marujo.
Numa dessas noites, finalmente a imagem revelou tudo. Da janela de uma cave, ali na esquina, apareceu um gatinho ruivo, ainda criança. Mal avistou o Marujo com a chouriça, atirou-se a ela com o apetite da fome antiga.
Amanhã mesmo! Ouvistes? Amanhã mesmo trá-los cá para casa! Gritou a mulher, soluçando sobre o ombro do marido.
Só que era impossível apanhar o Marujo era fácil; dormir no meio da mercearia já não era novidade para ele. Mas o pequeno ruivo era um fantasma impossível de segurar.
Os dias iam passando. O merceeiro espreitava pela câmara, via o gatito bebé beber água na taça do Marujo, ou dormitar na casota improvisada, mas. Assim que se tentava aproximar, o pequeno disparava à velocidade do vento, com o rabinho espetado.
Tudo mudou numa manhã. O dono foi atraído por um miado estridente vindo da porta.
Não havia clientes.
Saiu detrás do balcão e viu, à soleira, o gatinho ruivo a berrar com todas as forças.
Que se passa, pequenote? perguntou o homem, com surpresa.
O pequeno correu até ele, fitou-o com uns olhos redondos, e depois virou-se para trás. O merceeiro seguiu-o sem hesitar. Ao contornar o prédio, viu o Marujo estendido a gemer: uma mordida de cão tinha-lhe ferido a pata traseira. Conseguiu escapar, mas o golpe era fundo.
O ruivo encostou a testa no Marujo, miando com desespero.
Ora bolas murmurou o merceeiro.
Despiu o casaco, envolveu o Marujo a gemer, agarrou o ruivinho que nem resistiu e meteu-o ao bolso do casaco, ao lado do coração.
Pelo caminho, fechou às pressas a mercearia e foi de carro ao veterinário.
Quase cinco horas de espera. O médico limpava a ferida, cozendo a pata do Marujo. Nesse tempo, fez amizade ao ruivinho, a quem chamou Faísca porque era brincalhão e espevitado.
Já ao fim do dia, encerrou a loja e levou ambos para casa: o Marujo ainda grogue do anestésico e o Faísca, radiante.
A mulher ficou nas nuvens. E o que faz uma portuguesa quando está feliz? Claro liga para as amigas. Demorou, porque são conversas que pedem detalhes, conselhos e histórias.
Quando ela largou o telefone, o homem, o Marujo e o Faísca já dormiam, estendidos na cama.
Muito bonito! disse ela. E eu, deito-me onde?
O Faísca afastou-se de bom grado, aconchegando-se nela, massajando-a com as patinhas.
Assim encontraram o seu lar.
Agora, dois gatos grandes e pachorrentos não lembram em nada os gatos de rua.
De vez em quando, o Marujo, por hábito, lambe o Faísca. Ele não se importa; até fecha os olhos de prazer.
Do outro lado da rua, junto à sapataria, refugia-se uma gata cinzenta. A empregada costuma ir ao pequeno talho comprar-lhe comida. Talvez um dia a leve para casa.
Quem sabe, talvez um dia todos acabem por ter uma família e os gatos tornem-se tão raros em Lisboa que para adotar um será preciso estar anos à espera e fazer cursos especiais.
O que acham? Poderá acontecer?





