Maximiliano guardava em silêncio o arrependimento de ter apressado o divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele – em esposa O ânimo de Maximiliano Petronilho desapareceu assim que, ao estacionar o carro, entrou no prédio. Em casa, foi recebido pela previsibilidade: chinelos à porta, aroma apetitoso do jantar, tudo limpo e flores no vaso. Nada o comoveu: a esposa em casa, e o que mais faria uma mulher madura o dia inteiro? Assar empadas e tricotar meias – exagero, claro, mas o essencial é isso. Marina veio ao encontro dele com o habitual sorriso: – Está cansado? Fiz empadas – de couve, de maçã, como gostas… Ela silenciou sob o olhar pesado de Maximiliano. Estava de calças de casa, cabelo preso sob o lenço – sempre cozinhava assim. Hábitos de cozinheira: trabalhou a vida inteira em restaurante. Os olhos ligeiramente maquiados, brilho nos lábios – outro costume, que agora lhe pareceu vulgar. Que mania de colorir a velhice! Talvez não devesse ser tão duro, mas disparou: – Maquiagem na tua idade já não faz sentido! Não te favorece. Marina tremeu os lábios, não respondeu, mas também não veio pôr a mesa. Até melhor. Empadas sob a toalha, o chá de camomila devidamente preparado – ele mesmo se serve. Depois do duche e do jantar, a ternura por ela foi voltando, assim como as lembranças do dia. Maximiliano, no seu robe de algodão favorito, sentou-se na poltrona predileta e finge ler. Como dissera a nova colega: – É um homem bastante atraente, além de interessante. Maximiliano tinha 56, era chefe do departamento jurídico de uma grande empresa, com recém-formado e três mulheres acima dos quarenta sob sua supervisão. Outra colaboradora estava de licença de maternidade. Para o seu lugar, contrataram a Ásia. No momento da contratação, Maximiliano estava em viagem; hoje viu a mulher pela primeira vez. Chamou para conversar no gabinete. Com ela entrou o aroma de perfume discreto e a sensação de frescor jovem. O rosto delicado, moldado por fios claros, olhos azuis confiantes. Lábios carnudos, sinal na bochecha. Seria possível que ela tivesse 30? Nem 25 parecia. Divorciada, mãe de um menino de 8 anos. Sem saber porquê, pensou: “Ainda bem!” Na conversa, flertou um pouco, alegando ser um chefe velho. Ásia bateu os cílios e rebateu com palavras que o agitaram e agora recordava. A esposa, passada a mágoa, apareceu com o chá de camomila habitual. Ele franze a testa: “Sempre fora de hora”. Bebeu, confesso, com prazer. Pensou: o que estará fazendo agora a jovem, tão bonita, Asia? O coração foi espetado por um sentimento esquecido – ciúmes. **** Asia, depois do trabalho, passou no supermercado. Queijo, pão, kefir para si no jantar. Chegou em casa neutra, sem sorriso. Abraçou o filho, Vasquinho, mais por hábito do que ternura. O pai remexia na marquise, onde tinha oficina montada, a mãe preparava o jantar. Fez as compras e avisou logo: estava com dor de cabeça, não quer conversa. Na verdade, estava melancólica. Desde que se divorciou do pai de Vasquinho, Asia tentava – sem sucesso – se tornar para alguém a verdadeira mulher da vida. Todos os homens que lhe pareciam dignos estavam bem casados e só queriam relações fugazes. O último, colega de trabalho, parecia apaixonado. Dois anos ardentes. Até alugou-lhe apartamento (para seu próprio conforto, claro), mas quando a coisa começou a ficar séria, disse que deviam terminar e que Asia devia pedir demissão. Ele próprio arrumou vaga. E Asia voltou a morar com pais e filho. A mãe compreendia, o pai achava que pelo menos o neto deveria crescer com a mãe, e não só com avós. Marina, esposa de Maximiliano, percebia há tempos que ele vivia uma crise da idade. Tudo tinha, mas faltava o essencial. Temia pensar no que poderia ser “essencial” para o marido. Tentava amenizar o clima: cozinhava o que ele gostava, estava sempre arrumada, não insistia em conversas profundas – embora precisasse. Buscou distraí-lo com o neto, a casa de campo. Mas Maximiliano se aborrecia, ficava fechado. Talvez por esse desejo de mudança, o romance dele com Asia começou instantâneo. Duas semanas depois de Asia entrar na empresa, ele a convidou para almoçar, depois levou-a para casa. Tocou-lhe a mão, ela se virou com o rosto corado. – Não quero te deixar. Vamos para minha casa de campo? – disse Maximiliano, rouco. Ásia assentiu e o carro arrancou. Às sextas, Maximiliano saía uma hora antes do trabalho, mas só às nove da noite a esposa recebeu SMS: “Amanhã conversamos.” Ele nem suspeitava o acerto da frase para a conversa futura – inútil, no fundo. Marina sabia que não se pode arder depois de 32 anos de casamento. Mas ele era tão familiar que perdê-lo era perder uma parte de si própria. Que resmungue, reclame, até enlouqueça – mas fique naquele seu lugar favorito, jante, respire ao lado dela. Marina, tentando encontrar palavras que pudessem estancar a ruína (só da vida dela), não dormiu até o amanhecer. Desesperada, tirou o álbum de casamento, onde eles eram jovens e tudo estava por vir. Era tão linda! Muitos sonharam em chamá-la de sua. Ele tinha de lembrar disso. Imaginava que ele chegaria, veria fragmentos da felicidade deles e compreendia: nem tudo se joga fora. Mas ele só voltou no domingo. E ela entendeu: acabou. Diante dela, Maximiliano era outro. Parecia vibrar com adrenalina. Desconforto, vergonha eram ausentes. Ao contrário da esposa, que temia mudanças, ele as desejava e aceitou-as prontamente. Até já planejara tudo. Falava com tom inquestionável. A partir daquele momento, Marina pode considerar-se livre. Ele pediu o divórcio – no dia seguinte. O filho e família iriam morar com Marina. Tudo nos termos da lei. Afinal, o apartamento de dois quartos onde morava o filho era de Maximiliano – herdado. Jogos de família Mudar-se para o apartamento de três quartos com a mãe não pioraria as condições da família jovem e ela teria a quem cuidar. O carro, evidente, ficaria com ele. Quanto à casa de campo – reservou o direito de lá descansar. Marina sentia-se miserável e pouco atraente, mas não conteve as lágrimas. Impediam-lhe de falar direito, só saíam palavras desconexas. Pediu que repensasse, invocasse a memória, pensasse na saúde, ao menos na dela… O último ponto provocou fúria. Ele aproximou-se e sussurrou como quem exclama: – Não me arrastes para tua velhice! Seria exagero dizer que Asia amava Maximiliano e por isso aceitou casar-se na primeira noite na casa de campo. Ela gostava do status de mulher casada, ainda mais pela vitória sobre o antigo amante que a havia rejeitado. Cansada de viver em apartamento controlado pelo pai rigoroso, queria estabilidade. Maximiliano podia dar isso. Não era a pior opção – admitia. Mesmo quase sexagenário, não parecia avô. Enérgico, jovial. Chefe. Culto, afável. E na cama, gentil, nada egoísta. Gostava da ideia do fim dos quartos alugados, falta de dinheiro, roubos. Só vantagens? Bem, havia dúvidas sobre a idade. Em menos de um ano, Asia começou a se decepcionar. Sentia-se ainda uma garota, queria aproveitar mais a vida. Regularmente, e não uma vez por ano, tudo “adequado”. Queria shows, ir ao parque aquático, tomar sol na praia de biquíni ousado, baladas com amigas. Pelo temperamento, conseguia conciliar tudo com a família e as tarefas domésticas. Mesmo o filho, agora vivendo com ela, não atrapalhava. Já Maximiliano estava visivelmente cansado. Experiente advogado, resolvia muitos problemas no trabalho, mas em casa era apenas um homem cansado, valorizando seus hábitos e busca de sossego. Aceitava visitas, teatro, até praia – mas bem dosados. Não recusava o carinho conjugal, mas terminava sempre dormindo cedo, até nove da noite. E ainda tinha que se preocupar com o estômago fraco: não suportava frituras, enchidos, produtos industrializados. A antiga esposa estragara-o! Por vezes, até sentia falta dos pratos a vapor de Marina. Asia cozinhava pensando no gosto do filho, sem entender como uma cotoletta podia fazer mal. Não decorava a rotina dos comprimidos, achando que homem adulto pode cuidar disso. Sem querer, parte de sua vida foi vivida sem ele. Passou a sair com o filho, respeitando seus gostos, encontrou-se mais com amigas. Engraçado: a idade do marido a fazia querer viver depressa. Já não trabalhavam juntos – a direção achou antiético e Asia passou ao cartório. Até sentiu alívio de não ter de passar o dia inteiro sob os olhos do marido, que lhe lembrava o pai. Respeito – era o sentimento que Asia nutria por Maximiliano. Quem sabe se isso basta para que o casal seja feliz? Aproximava-se o 60º aniversário de Maximiliano e Asia queria uma festa grandiosa. Mas ele reservou mesa num restaurante pequeno, que conhecia de vida. Parecia aborrecido, típico da idade. Asia não se incomodou. Colegas o homenagearam. Seria inconveniente convidar os antigos amigos do casal. Família longe, e não encontrou apoio ao casar com uma jovem. O filho, virtualmente, perdeu. Renegou-o. Mas não tem o pai direito de escolher? É que, ao casar, achava que “escolher” seria diferente. O primeiro ano com Asia foi uma lua de mel. Ele gostava de sair com ela, incentivava os gastos (não exagerados) e as amigas, apoiava o fitness. Aguentava bem shows barulhentos e filmes loucos. Entusiasmado, deu a Asia e o filho direito pleno ao apartamento. Pouco depois, transferiu sua parte da casa de campo para Asia. Asia pediu também a parte que Marina detinha. Ameaçou vender a desconhecidos. Comprada com dinheiro de Maximiliano, Asia registrou tudo em seu nome. Justificou pela proximidade do rio, floresta. Bom para a criança. Agora, durante o verão, pais de Asia e o neto iam para lá. E era melhor assim: Maximiliano não gostava muito do filho animado da jovem esposa. Casou por amor, não para criar filho alheio, ainda barulhento. A antiga família magoou-se. Recebendo o dinheiro, venderam o apartamento de três quartos e, não se sabe por quê, separaram-se. O filho e família arrumaram um apartamento de dois quartos, Marina, a ex-esposa, mudou-se para um estúdio. Como vivem, Maximiliano não quis saber. Jogos de família Chegou o dia dos 60 anos. Tantos votos de saúde, felicidade, amor. Mas ele não sentia ânimo. Faz tempo. A cada ano, a insatisfação o dominava. Amava a jovem esposa, sem dúvida. Não a acompanhava, esse era o ponto. E não conseguia dominá-la. Ela sorria e vivia à sua maneira. Não exagerava em nada – ele sentia, mas isso o irritava. Ah, se pudesse implantar nela o espírito da ex-esposa! Que se aproximasse com chá de camomila, cobrisse com manta se adormecesse. Caminharia feliz pelo parque. E conversaria longamente na cozinha, mas Asia não aguentava suas histórias. E parecia já se aborrecer na cama. Ele se irritava e isso atrapalhava. Maximiliano guardava o arrependimento de ter apressado o divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele – em esposa. Asia, com esse temperamento, aguenta mais uns 10 anos como cavalo brincalhão. Mas mesmo com quarenta, será bem mais jovem. Esse abismo só aumenta. Se tiver sorte, ele termina a vida de repente. Senão? Esses “pensamentos nada festivos” martelavam-lhe a cabeça, aceleravam o coração. Procurou Asia com o olhar – estava entre os que dançavam. Linda, olhos brilhantes. É claro, era uma felicidade acordar ao lado dela. Cestas de presente Aproveitou o momento, saiu do restaurante. Queria respirar, arejar a tristeza. Mas os colegas se aproximaram. Sem saber como lidar com a angústia crescente, correu até um táxi parado. Pediu pressa. Depois decidiria o destino. Queria ir para onde importasse só ele. Que ao chegar, já aguardassem. Onde valorizassem seu tempo e pudesse relaxar, sem parecer fraco ou, Deus me livre, velho. Ligou para o filho e, quase suplicando, pediu o novo endereço da ex-esposa. Ouviu a merecida bronca, mas insistiu, repetindo que era questão de vida ou morte… Pediu que ao menos dissesse seu aniversário. O filho cedeu e explicou que ela talvez não estivesse sozinha. Não um homem, apenas um amigo. – Disse que estudaram juntos. O apelido é engraçado… Bulcovich, ou algo assim. – Bulcovic, – corrigiu Maximiliano, sentindo ciúmes. Sim, gostava dela. Ela agradava muitos. Bonita, atrevida. Ia casar-se com esse Bulcovic, mas ele, Max, andou na frente. Há muito tempo, mas tão “ontem” que parecia mais real que sua vida nova com Asia. O filho perguntou: – Pra que quer isso, pai? Maximiliano estremeceu com a palavra esquecida e entendeu: sentia uma saudade imensa de todos. Respondeu honestamente: – Não sei, filho. O filho passou o endereço. O motorista parou ao pedido. Maximiliano desceu, não queria falar com Marina na frente dos outros. Olhou o relógio – quase nove, mas ela sempre foi notívaga, para ele, uma espécie de madrugadora. Tocou o interfone. Mas quem atendeu não foi a ex-esposa, mas uma voz masculina. Disse que Marina estava ocupada. – Ela está bem? – perguntou Maximiliano, preocupado. A voz pediu que se identificasse. – Eu sou o marido, por sinal! Tu és o tal Bulcovic? – gritou Maximiliano. O “senhor” corrigiu, que marido Maximiliano é ex e não tem direito de incomodar Marina. Explicar que a amiga tomava banho, não achou necessário. – Então, amor antigo não enferruja? – perguntou Maximiliano, sarcástico e ciumento, pronto para discutir com Bulcovic. Mas este respondeu: – Não, amor antigo vira prata. A porta nunca foi aberta…

Fernando guardava dentro de si o arrependimento por ter se apressado no divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele fez dela esposa.

O bom humor de Fernando Sousa desapareceu assim que, após estacionar o carro, entrou no prédio. Em casa, foi recebido pelo costumeiro: chinelos calçou-os ao entrar , um aroma saboroso de jantar, limpeza impecável, flores frescas no vaso.

Nada disso o comoveu: a esposa está em casa, o que outra coisa faria uma senhora de idade o dia inteiro? Assar bolos, tricotar meias. Exagerou sobre as meias, era verdade, mas a essência era clara.

Filipa apareceu para o marido de sorriso habitual:

Está cansado? Fiz uns bolos de couve, de maçã, como tu gostas

Ela calou-se debaixo do olhar pesado de Fernando. Estava de fato em casa, cabelo preso com lenço sempre cozinhava assim.

Mania de profissional, viveu como cozinheira. Os olhos levemente maquiados, brilho nos lábios. Mais um hábito que, agora, Fernando achou vulgar. Que ideia de pintar a velhice!

Não devia ter sido tão grosseiro, mas disparou:

Maquilhagem na tua idade é disparate! Não te fica bem.

Os lábios de Filipa tremeram, não respondeu, mas também não foi pôr a mesa. Era melhor assim. Os bolos repousavam sob pano, o chá estava pronto ele mesmo se serviria.

Depois do banho e do jantar, a gentileza para com ela começou a voltar, junto das lembranças do dia. Fernando, no seu robe felpudo, acomodou-se na poltrona, fingiu ler. Recordou o que dissera aquela nova colega:

O senhor é um homem bem atraente, e interessante.

Fernando tinha 56 anos e chefiava o departamento jurídico de uma grande empresa. Comandava um recém-licenciado e três mulheres de mais de quarenta. Outra colega tinha ido para licença de maternidade. Para o lugar dela entrou Leonor.

Quando Leonor foi admitida, Fernando estava em viagem. Só hoje a conheceu.

Chamou-a ao gabinete para se apresentarem. Com ela chegou o aroma de perfume delicado e a sensação de juventude. O rosto suavemente iluminado por cachos dourados, olhos azuis confiantes. Lábios carnudos, sinal na face. Teria mesmo 30 anos? Nem parecia.

Separada, mãe de um filho de oito anos. Sem saber porquê, pensou: Ótimo!

Na conversa, brincou dizendo que agora ela teria um chefe velho. Leonor esvoaçou os cílios longos e respondeu com uma frase que ainda rondava a mente dele.

A esposa, recuperada da mágoa, trouxe-lhe o chá de camomila do costume à poltrona. Ele franziu a testa: Sempre fora de hora.

No entanto, bebeu com prazer. Perguntou-se o que estaria a fazer a jovem Leonor. O coração levou uma picada de um sentimento esquecido ciúmes.

****
Após o trabalho, Leonor passou no supermercado. Queijo, pão, ela quis kefir para o jantar. Chegou a casa sem sorriso. Automaticamente, abraçou o filho, Tomás, que correu para ela.

O pai mexia na varanda, onde tinha a oficina, a mãe preparava o jantar. Leonor, após arrumar as compras, alegou dor de cabeça, pediu para não ser incomodada. Na verdade, sentia-se vazia.

Desde que se separou do pai de Tomás, há alguns anos, Leonor tentava, em vão, tornar-se figura principal na vida de alguém.

Os que valiam a pena estavam casados e desejavam apenas relações leves.

O último parecia apaixonado trabalhavam juntos. Dois anos intensos. Chegou a alugar-lhe apartamento (por conveniência própria), mas, quando surgiu qualquer dificuldade, decretou não só a separação mas também exigiu que ela se demitisse.

Até arranjou-lhe novo emprego. Agora, Leonor voltava a viver com os pais e o filho. Mãe apoiava-a de maneira feminina, o pai achava que Tomás precisava da mãe próxima, não apenas dos avós.

Filipa, esposa de Fernando, percebia há tempos que o marido sofria a crise da idade. Tinha tudo, mas faltava algo essencial. Evitava pensar no que poderia ser o essencial para ele. Tentava suavizar o ambiente. Cozinhava o que ele gostava, cuidava do visual, não insistia em conversas profundas, por mais que sentisse falta.

Procurava envolver-se com o neto, a casa de campo. Mas Fernando aborrecia-se, ficava de cara fechada.

Talvez, porque ambos desejassem mudanças, o romance de Fernando com Leonor floresceu depressa. Duas semanas após Leonor entrar na empresa, Fernando convidou-a para almoçar e deu-lhe boleia a casa.

Tocou-lhe na mão, ela olhou para ele com a face corada.

Não quero despedidas. Vamos para minha casa de campo? murmurou Fernando. Leonor acenou, e o carro partiu rapidamente.

Às sextas, ele saía do trabalho mais cedo, mas só às nove da noite a preocupada Filipa recebeu um SMS: Amanhã falamos.

Fernando não suspeitava de quão certeira era a essência daquele futuro diálogo, inútil de facto. Filipa sabia que seria impossível manter a paixão após 32 anos de casamento.

Mas o marido era tão seu, que perder-lhe era como perder uma parte de si. Mesmo rabugento, irritado, ou com loucuras de homem, continuava ali no seu lugar favorito, a jantar, a respirar ao lado dela.

Filipa procurou palavras para travar a destruição da vida (na verdade, só dela) e não dormiu até de manhã.

Talvez desesperada, tirou o álbum de casamento jovens, com tudo pela frente. Quão bonita era! Muitos sonharam chamar-lhe esposa. O marido devia recordar. Imaginou que ele, ao ver (ainda que obrigada), fragmentos de felicidade, perceberia que nem tudo é descartável.

Mas ele regressou só no domingo e ela entendeu: tudo acabou. Diante dela estava um outro Fernando, quase em êxtase. Nenhum embaraço ou vergonha.

Ao contrário da esposa, temerosa da mudança, ele desejava-a e aceitou-a de braços abertos. Até planeou. Falava sem margem para contradizer.

A partir dali, Filipa poderia se considerar livre. Ele próprio daria entrada no divórcio no dia seguinte. O filho, com a família, deveria mudar-se para casa dela. Tudo conforme a lei. Afinal, o apartamento de dois quartos onde vivia o filho era legalmente dele herdado.

A mudança para o T3, com a mãe, não pioraria as condições da jovem família; além disso, Filipa teria mais quem cuidar. O carro, evidentemente, ficaria com ele. Quanto à casa de campo reservava o direito de ali descansar.

Filipa reconhecia parecer miserável e pouco atraente, mas não conteve as lágrimas. Dificultavam a fala, saía incoerente. Pediu-lhe para recuar, recorrer à memória, pensar na saúde, nem que fosse só dela Esta última provocou-lhe fúria. Aproximou-se dela, quase gritou:

Não me arrastes para tua velhice!

… Não seria razoável dizer que Leonor amava Fernando e, por isso, aceitou casar com ele na primeira noite, na casa de campo.

O estatuto de casada atraía-a, acalentava-lhe o orgulho de ter sido escolha preferida.

Estava farta de viver num apartamento governado pelo pai de opiniões rígidas. Queria estabilidade. E Fernando providenciava tudo isso nada mal, admitia Leonor.

Apesar dos sessenta à porta, ele não parecia avô. Elegante, jovial. Chefe de departamento. Inteligente nos negócios e agradável ao conversar. E na intimidade, entusiasta, nada egoísta. Davam-lhe segurança não haveria aluguel, penúria ou furtos. Só vantagens? Bom, restavam dúvidas sobre a idade.

Ao fim de um ano, o desencanto começou a crescer. Sentia-se ainda uma rapariga, desejava experiências, novidades. Queria concertos, ir ao parque aquático, gostava de apanhar sol, conversar com amigas.

Com juventude e ânimo, conciliava tudo com a vida doméstica. Mesmo o filho, agora com ela, não travava o ritmo.

Já Fernando cedia. Experiente jurista, resolvia mil questões diárias, mas em casa era alguém exausto, buscando silêncio, respeito pelos hábitos. Aceitava visitas, teatro, até praia, mas tudo moderadamente.

Não recusava amor, mas queria dormir logo cedo.

Ainda era preciso atentar ao estômago sensível: nada de fritos, enchidos ou comidas prontas. A ex-mulher o habituou mal, claro.

Às vezes, Fernando até sentia falta dos pratos a vapor que Filipa preparava. Leonor cozinhava a pensar no filho, sem entender como um bife de porco poderia fazer doer o lado.

Nunca decorou lista de comprimidos indispensáveis, achava que um homem adulto tratava disso sozinho. Aos poucos, parte da vida de Leonor passou a acontecer sem ele.

Começou a sair com o filho, companhias de amigas. Curiosamente, a idade do marido estimulava Leonor a viver depressa.

Deixaram de trabalhar juntos a direção considerou antiético, e Leonor mudou-se para um cartório. Sentiu-se até aliviada de não ter Fernando sempre por perto, lembrando-lhe o pai.

Respeito era esse o sentimento de Leonor por Fernando. Mas será suficiente para uma felicidade a dois?

Aproximava-se o sexagésimo aniversário de Fernando: Leonor ansiava por uma grande festa. Mas o marido reservou mesa num restaurante antigo, habitual para ele. Parecia nostálgico, normal para sua idade. Leonor não se importou.

Os colegas deram as boas-vindas ao aniversariante. Não era conveniente convidar os casais de amigos do tempo de Filipa. Família longe, e o casamento com uma jovem não lhe trouxera compreensão.

O filho desaparecera. Renegou-o. Mas terá um pai direito de decidir o seu destino? Ao casar-se, Fernando pensou que decidir significaria algo diferente.

O primeiro ano com Leonor foi como lua de mel. Gostava de sair com ela, incentivava as despesas (nunca excessivas), amigas, o entusiasmo pelo ginásio.

Aguentava bem concertos e filmes malucos. Nesse clima, fez dela e do filho proprietários do apartamento. Mais tarde, cedeu-lhe parte da casa de campo, que partilhava com Filipa.

Leonor, pelas costas dele, pediu a Filipa a outra metade. Ameaçou vendê-la a oportunistas.

Comprou-a com o dinheiro de Fernando, e registou a casa em nome dela. Justificou que ali havia rio, bosque ótimo para o filho. Agora, os pais dela e o neto viviam a época de verão na casa. E foi melhor: Fernando nem gostava do filho ruidoso de Leonor. Casou por amor, não para criar filhos alheios.

A família antiga ficou magoada. Com o dinheiro recebido, venderam o T3, separaram-se. O filho achou um T2, enquanto Filipa mudou-se para um estúdio. Fernando nunca quis saber como estavam.

E chegou o dia dos 60. Muitos desejavam-lhe saúde, felicidade, amor. Mas ele não sentia entusiasmo. Por anos, o descontentamento predominava.

Amava, sem dúvida, a esposa jovem. Mas não a acompanhava. Não conseguia dominá-la, fazê-la ser sua. Ela sorria, vivia à maneira dela. Nada de excessos percebia, e isso irritava-o.

Ah, se pudesse transferir a alma de Filipa para Leonor! Que se aproximasse com chá de camomila, cobrindo-lhe com manta se adormecesse. Fernando andaria com prazer com ela pelo parque. Conversaria na cozinha, mas Leonor não tinha paciência para longas conversas. Já parecia aborrecida na cama. Ele ficava nervoso, e isso dificultava.

Fernando guardava, no coração, pesar por se ter precipitado no divórcio. Homens sensatos fazem da amante uma celebração e ele fez dela esposa!

Com o ritmo de Leonor, ainda ficaria dez anos vibrante. Mesmo ao chegar aos quarenta, seria notoriamente mais jovem. Era um abismo que se acentuaria. Se tivesse sorte, acabaria a vida num instante. E se não?

Esses pensamentos pouco festivos martelavam na cabeça, acelerando o coração. Procurou Leonor estava entre os dançarinos. Linda, olhos brilhantes. Era felicidade, claro, acordar e vê-la ao lado.

Aproveitando um momento, saiu do restaurante. Queria ar, dispersar a tristeza. Mas colegas aproximaram-se. Sem saber como lidar com o mal-estar interno, mergulhou num táxi estacionado à porta. Pediu para ir depressa. Depois pensaria para onde.

Queria estar onde fosse valorizado. Onde, ao entrar, o esperassem. Onde aprecissem o tempo com ele, pudesse relaxar sem medo de parecer fraco ou, Deus nos livre, velho.

Ligou ao filho e, quase implorando, pediu o novo endereço da ex-mulher. Ouviu palavras duras, mas insistiu, repetindo que era questão de vida ou mor…

Disse que era, afinal, o seu aniversário. O filho abrandou e disse que a mãe talvez não estivesse sozinha. Nada de homem apenas amigo.

A mãe disse que estudaram juntos. O nome é engraçado… Acho que é Padeirinho.

Padinha, corrigiu Fernando, sentindo ciúmes. Sim, ele fora apaixonado por Filipa. Ela era atrativa, ousada.

Ia casar com esse Padinha, mas Fernando conquistou-a. Isso foi há muito, mas parecia ontem, mais real que a vida com Leonor.

O filho perguntou:

Para que precisas disso, pai?

Fernando estremeceu com o tratamento esquecido e percebeu que tinha saudades de todos eles. Respondeu honestamente:

Não sei, filho.

O filho ditou o endereço. O motorista parou como pedido. Fernando saiu: queria falar com Filipa sem testemunhas. Já quase nove da noite, mas ela era como coruja noturna, que para ele era um rouxinol.

Marcou o intercomunicador.

Mas não foi a ex-mulher quem respondeu, e sim uma voz masculina, rouca. Disse que Filipa estava ocupada.

Mas porquê? Ela está bem? indagou Fernando, preocupado. A voz pediu identificação.

Sou o marido dela, ora! gritou Fernando. E tu, deves ser o Padinha!

O senhor corrigiu friamente, dizendo que Fernando era o ex, e não tinha direito de importunar Filipa. Não achou necessário explicar que a amiga tomava banho.

O quê, amor antigo não enferruja? perguntou Fernando, com sarcasmo ciumento, pronto a discutir com Padinha. Mas ele respondeu simplesmente:

Não, amor antigo torna-se prata.

A porta ficou fechada

*Na vida, não há ensaio para a felicidade. Só descobrimos que o tempo dado às pessoas certas foi sempre o maior presente. Se não cultivarmos gratidão e respeito por quem caminha a nosso lado, acabamos por perceber que a festa é efémera, mas aquilo que é genuínocuidado, partilha e aceitaçãoé o que brilha por toda uma vida.*Fernando ficou parado diante do portão fechado, ouvindo ao longe o som abafado de risos vindos do apartamento. O mundo parecia dividido: dentro, uma vida que já não lhe pertencia; fora, o presente árido, o peso de suas escolhas. Respirou fundo, desejando poder voltar ao tempo em que bastava uma palavra ou um toque para desfazer magoas.

Agora, os ecos do passado misturavam-se ao silêncio da noite. O céu, tingido de azul escuro, era atravessado por uma brisa fresca que lhe trouxe o perfume longínquo de camomila. Sorriu amargamente ao recordar os cuidados de Filipa o chá, os bolos, a atenção dedicada. Percebeu que, em busca de paixão e novidade, desdenhara a ternura cotidiana, como se fosse invisível.

Por um instante, Fernando teve vontade de bater novamente à porta, insistir no reencontro, pedir perdão pelo que fora e pelo que deixara de ser. Mas o som gentil da conversa, a vida recomeçada lá dentro, convenceram-no a respeitar o limiar. Entendeu, enfim, que o amor, quando se transforma em outro tipo de afeto, não desaparece apenas muda de casa.

De regresso ao táxi, olhou pela última vez para a janela iluminada. Ali, entre amigos antigos e novos, Filipa e seu mundo floresciam, enquanto ele, já sem lugar, compreendia o valor da aceitação. Pediu ao motorista que o levasse a um jardim aberto, ao acaso, desejando caminhar sozinho entre árvores.

No silêncio que se seguiu, revirou as memórias não como algo a ser recuperado, mas como ouro da maturidade: a simplicidade de um chá ao entardecer, a partilha das fraquezas, o conforto de saber que alguém aguarda o seu regresso, não por obrigação, mas por escolha. Era esse o brilho que agora buscava.

Ao sair do carro, isolado da agitação das festas e promessas quebradas, Fernando sentiu-se, enfim, livre das exigências da juventude e também das amarras do arrependimento. Caminhou pelo parque, ouvindo o rumor dos pássaros e o vaivém do vento. E, ali, entre sombras e folhas caídas, compreendeu o segredo que antes desprezara: o amor verdadeiro é feito do tempo partilhado, do cuidado silencioso, e do respeito pelas histórias que cada um carrega consigo.

Sorriu, agradecendo ao passado e ao presente. Porque, mesmo que as portas se fechem e novos amores surjam, a vida sempre oferece outra oportunidade aquela de ser, enfim, genuíno consigo mesmo.

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Maximiliano guardava em silêncio o arrependimento de ter apressado o divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele – em esposa O ânimo de Maximiliano Petronilho desapareceu assim que, ao estacionar o carro, entrou no prédio. Em casa, foi recebido pela previsibilidade: chinelos à porta, aroma apetitoso do jantar, tudo limpo e flores no vaso. Nada o comoveu: a esposa em casa, e o que mais faria uma mulher madura o dia inteiro? Assar empadas e tricotar meias – exagero, claro, mas o essencial é isso. Marina veio ao encontro dele com o habitual sorriso: – Está cansado? Fiz empadas – de couve, de maçã, como gostas… Ela silenciou sob o olhar pesado de Maximiliano. Estava de calças de casa, cabelo preso sob o lenço – sempre cozinhava assim. Hábitos de cozinheira: trabalhou a vida inteira em restaurante. Os olhos ligeiramente maquiados, brilho nos lábios – outro costume, que agora lhe pareceu vulgar. Que mania de colorir a velhice! Talvez não devesse ser tão duro, mas disparou: – Maquiagem na tua idade já não faz sentido! Não te favorece. Marina tremeu os lábios, não respondeu, mas também não veio pôr a mesa. Até melhor. Empadas sob a toalha, o chá de camomila devidamente preparado – ele mesmo se serve. Depois do duche e do jantar, a ternura por ela foi voltando, assim como as lembranças do dia. Maximiliano, no seu robe de algodão favorito, sentou-se na poltrona predileta e finge ler. Como dissera a nova colega: – É um homem bastante atraente, além de interessante. Maximiliano tinha 56, era chefe do departamento jurídico de uma grande empresa, com recém-formado e três mulheres acima dos quarenta sob sua supervisão. Outra colaboradora estava de licença de maternidade. Para o seu lugar, contrataram a Ásia. No momento da contratação, Maximiliano estava em viagem; hoje viu a mulher pela primeira vez. Chamou para conversar no gabinete. Com ela entrou o aroma de perfume discreto e a sensação de frescor jovem. O rosto delicado, moldado por fios claros, olhos azuis confiantes. Lábios carnudos, sinal na bochecha. Seria possível que ela tivesse 30? Nem 25 parecia. Divorciada, mãe de um menino de 8 anos. Sem saber porquê, pensou: “Ainda bem!” Na conversa, flertou um pouco, alegando ser um chefe velho. Ásia bateu os cílios e rebateu com palavras que o agitaram e agora recordava. A esposa, passada a mágoa, apareceu com o chá de camomila habitual. Ele franze a testa: “Sempre fora de hora”. Bebeu, confesso, com prazer. Pensou: o que estará fazendo agora a jovem, tão bonita, Asia? O coração foi espetado por um sentimento esquecido – ciúmes. **** Asia, depois do trabalho, passou no supermercado. Queijo, pão, kefir para si no jantar. Chegou em casa neutra, sem sorriso. Abraçou o filho, Vasquinho, mais por hábito do que ternura. O pai remexia na marquise, onde tinha oficina montada, a mãe preparava o jantar. Fez as compras e avisou logo: estava com dor de cabeça, não quer conversa. Na verdade, estava melancólica. Desde que se divorciou do pai de Vasquinho, Asia tentava – sem sucesso – se tornar para alguém a verdadeira mulher da vida. Todos os homens que lhe pareciam dignos estavam bem casados e só queriam relações fugazes. O último, colega de trabalho, parecia apaixonado. Dois anos ardentes. Até alugou-lhe apartamento (para seu próprio conforto, claro), mas quando a coisa começou a ficar séria, disse que deviam terminar e que Asia devia pedir demissão. Ele próprio arrumou vaga. E Asia voltou a morar com pais e filho. A mãe compreendia, o pai achava que pelo menos o neto deveria crescer com a mãe, e não só com avós. Marina, esposa de Maximiliano, percebia há tempos que ele vivia uma crise da idade. Tudo tinha, mas faltava o essencial. Temia pensar no que poderia ser “essencial” para o marido. Tentava amenizar o clima: cozinhava o que ele gostava, estava sempre arrumada, não insistia em conversas profundas – embora precisasse. Buscou distraí-lo com o neto, a casa de campo. Mas Maximiliano se aborrecia, ficava fechado. Talvez por esse desejo de mudança, o romance dele com Asia começou instantâneo. Duas semanas depois de Asia entrar na empresa, ele a convidou para almoçar, depois levou-a para casa. Tocou-lhe a mão, ela se virou com o rosto corado. – Não quero te deixar. Vamos para minha casa de campo? – disse Maximiliano, rouco. Ásia assentiu e o carro arrancou. Às sextas, Maximiliano saía uma hora antes do trabalho, mas só às nove da noite a esposa recebeu SMS: “Amanhã conversamos.” Ele nem suspeitava o acerto da frase para a conversa futura – inútil, no fundo. Marina sabia que não se pode arder depois de 32 anos de casamento. Mas ele era tão familiar que perdê-lo era perder uma parte de si própria. Que resmungue, reclame, até enlouqueça – mas fique naquele seu lugar favorito, jante, respire ao lado dela. Marina, tentando encontrar palavras que pudessem estancar a ruína (só da vida dela), não dormiu até o amanhecer. Desesperada, tirou o álbum de casamento, onde eles eram jovens e tudo estava por vir. Era tão linda! Muitos sonharam em chamá-la de sua. Ele tinha de lembrar disso. Imaginava que ele chegaria, veria fragmentos da felicidade deles e compreendia: nem tudo se joga fora. Mas ele só voltou no domingo. E ela entendeu: acabou. Diante dela, Maximiliano era outro. Parecia vibrar com adrenalina. Desconforto, vergonha eram ausentes. Ao contrário da esposa, que temia mudanças, ele as desejava e aceitou-as prontamente. Até já planejara tudo. Falava com tom inquestionável. A partir daquele momento, Marina pode considerar-se livre. Ele pediu o divórcio – no dia seguinte. O filho e família iriam morar com Marina. Tudo nos termos da lei. Afinal, o apartamento de dois quartos onde morava o filho era de Maximiliano – herdado. Jogos de família Mudar-se para o apartamento de três quartos com a mãe não pioraria as condições da família jovem e ela teria a quem cuidar. O carro, evidente, ficaria com ele. Quanto à casa de campo – reservou o direito de lá descansar. Marina sentia-se miserável e pouco atraente, mas não conteve as lágrimas. Impediam-lhe de falar direito, só saíam palavras desconexas. Pediu que repensasse, invocasse a memória, pensasse na saúde, ao menos na dela… O último ponto provocou fúria. Ele aproximou-se e sussurrou como quem exclama: – Não me arrastes para tua velhice! Seria exagero dizer que Asia amava Maximiliano e por isso aceitou casar-se na primeira noite na casa de campo. Ela gostava do status de mulher casada, ainda mais pela vitória sobre o antigo amante que a havia rejeitado. Cansada de viver em apartamento controlado pelo pai rigoroso, queria estabilidade. Maximiliano podia dar isso. Não era a pior opção – admitia. Mesmo quase sexagenário, não parecia avô. Enérgico, jovial. Chefe. Culto, afável. E na cama, gentil, nada egoísta. Gostava da ideia do fim dos quartos alugados, falta de dinheiro, roubos. Só vantagens? Bem, havia dúvidas sobre a idade. Em menos de um ano, Asia começou a se decepcionar. Sentia-se ainda uma garota, queria aproveitar mais a vida. Regularmente, e não uma vez por ano, tudo “adequado”. Queria shows, ir ao parque aquático, tomar sol na praia de biquíni ousado, baladas com amigas. Pelo temperamento, conseguia conciliar tudo com a família e as tarefas domésticas. Mesmo o filho, agora vivendo com ela, não atrapalhava. Já Maximiliano estava visivelmente cansado. Experiente advogado, resolvia muitos problemas no trabalho, mas em casa era apenas um homem cansado, valorizando seus hábitos e busca de sossego. Aceitava visitas, teatro, até praia – mas bem dosados. Não recusava o carinho conjugal, mas terminava sempre dormindo cedo, até nove da noite. E ainda tinha que se preocupar com o estômago fraco: não suportava frituras, enchidos, produtos industrializados. A antiga esposa estragara-o! Por vezes, até sentia falta dos pratos a vapor de Marina. Asia cozinhava pensando no gosto do filho, sem entender como uma cotoletta podia fazer mal. Não decorava a rotina dos comprimidos, achando que homem adulto pode cuidar disso. Sem querer, parte de sua vida foi vivida sem ele. Passou a sair com o filho, respeitando seus gostos, encontrou-se mais com amigas. Engraçado: a idade do marido a fazia querer viver depressa. Já não trabalhavam juntos – a direção achou antiético e Asia passou ao cartório. Até sentiu alívio de não ter de passar o dia inteiro sob os olhos do marido, que lhe lembrava o pai. Respeito – era o sentimento que Asia nutria por Maximiliano. Quem sabe se isso basta para que o casal seja feliz? Aproximava-se o 60º aniversário de Maximiliano e Asia queria uma festa grandiosa. Mas ele reservou mesa num restaurante pequeno, que conhecia de vida. Parecia aborrecido, típico da idade. Asia não se incomodou. Colegas o homenagearam. Seria inconveniente convidar os antigos amigos do casal. Família longe, e não encontrou apoio ao casar com uma jovem. O filho, virtualmente, perdeu. Renegou-o. Mas não tem o pai direito de escolher? É que, ao casar, achava que “escolher” seria diferente. O primeiro ano com Asia foi uma lua de mel. Ele gostava de sair com ela, incentivava os gastos (não exagerados) e as amigas, apoiava o fitness. Aguentava bem shows barulhentos e filmes loucos. Entusiasmado, deu a Asia e o filho direito pleno ao apartamento. Pouco depois, transferiu sua parte da casa de campo para Asia. Asia pediu também a parte que Marina detinha. Ameaçou vender a desconhecidos. Comprada com dinheiro de Maximiliano, Asia registrou tudo em seu nome. Justificou pela proximidade do rio, floresta. Bom para a criança. Agora, durante o verão, pais de Asia e o neto iam para lá. E era melhor assim: Maximiliano não gostava muito do filho animado da jovem esposa. Casou por amor, não para criar filho alheio, ainda barulhento. A antiga família magoou-se. Recebendo o dinheiro, venderam o apartamento de três quartos e, não se sabe por quê, separaram-se. O filho e família arrumaram um apartamento de dois quartos, Marina, a ex-esposa, mudou-se para um estúdio. Como vivem, Maximiliano não quis saber. Jogos de família Chegou o dia dos 60 anos. Tantos votos de saúde, felicidade, amor. Mas ele não sentia ânimo. Faz tempo. A cada ano, a insatisfação o dominava. Amava a jovem esposa, sem dúvida. Não a acompanhava, esse era o ponto. E não conseguia dominá-la. Ela sorria e vivia à sua maneira. Não exagerava em nada – ele sentia, mas isso o irritava. Ah, se pudesse implantar nela o espírito da ex-esposa! Que se aproximasse com chá de camomila, cobrisse com manta se adormecesse. Caminharia feliz pelo parque. E conversaria longamente na cozinha, mas Asia não aguentava suas histórias. E parecia já se aborrecer na cama. Ele se irritava e isso atrapalhava. Maximiliano guardava o arrependimento de ter apressado o divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele – em esposa. Asia, com esse temperamento, aguenta mais uns 10 anos como cavalo brincalhão. Mas mesmo com quarenta, será bem mais jovem. Esse abismo só aumenta. Se tiver sorte, ele termina a vida de repente. Senão? Esses “pensamentos nada festivos” martelavam-lhe a cabeça, aceleravam o coração. Procurou Asia com o olhar – estava entre os que dançavam. Linda, olhos brilhantes. É claro, era uma felicidade acordar ao lado dela. Cestas de presente Aproveitou o momento, saiu do restaurante. Queria respirar, arejar a tristeza. Mas os colegas se aproximaram. Sem saber como lidar com a angústia crescente, correu até um táxi parado. Pediu pressa. Depois decidiria o destino. Queria ir para onde importasse só ele. Que ao chegar, já aguardassem. Onde valorizassem seu tempo e pudesse relaxar, sem parecer fraco ou, Deus me livre, velho. Ligou para o filho e, quase suplicando, pediu o novo endereço da ex-esposa. Ouviu a merecida bronca, mas insistiu, repetindo que era questão de vida ou morte… Pediu que ao menos dissesse seu aniversário. O filho cedeu e explicou que ela talvez não estivesse sozinha. Não um homem, apenas um amigo. – Disse que estudaram juntos. O apelido é engraçado… Bulcovich, ou algo assim. – Bulcovic, – corrigiu Maximiliano, sentindo ciúmes. Sim, gostava dela. Ela agradava muitos. Bonita, atrevida. Ia casar-se com esse Bulcovic, mas ele, Max, andou na frente. Há muito tempo, mas tão “ontem” que parecia mais real que sua vida nova com Asia. O filho perguntou: – Pra que quer isso, pai? Maximiliano estremeceu com a palavra esquecida e entendeu: sentia uma saudade imensa de todos. Respondeu honestamente: – Não sei, filho. O filho passou o endereço. O motorista parou ao pedido. Maximiliano desceu, não queria falar com Marina na frente dos outros. Olhou o relógio – quase nove, mas ela sempre foi notívaga, para ele, uma espécie de madrugadora. Tocou o interfone. Mas quem atendeu não foi a ex-esposa, mas uma voz masculina. Disse que Marina estava ocupada. – Ela está bem? – perguntou Maximiliano, preocupado. A voz pediu que se identificasse. – Eu sou o marido, por sinal! Tu és o tal Bulcovic? – gritou Maximiliano. O “senhor” corrigiu, que marido Maximiliano é ex e não tem direito de incomodar Marina. Explicar que a amiga tomava banho, não achou necessário. – Então, amor antigo não enferruja? – perguntou Maximiliano, sarcástico e ciumento, pronto para discutir com Bulcovic. Mas este respondeu: – Não, amor antigo vira prata. A porta nunca foi aberta…
Сутрин ни завари на прашния път, водещ от селото. В едната ръка държах малкичката длан на Соня.