– Aquela mulher só manipula o meu marido! – indignava-se a Inês Inês olhava para o telemóvel e sentia aquele velho irritação a fervilhar por dentro. Era já a terceira chamada do Sérgio naquela noite. – Inês, desculpa, por favor… – A voz dele estava cansada, culpada, demasiado familiar. – Eu sei que combinámos ir ao teatro, mas olha… A Olga ligou, diz que o Dioguinho está com febre alta, quarenta. Ela sozinha não consegue. Tu entendes, não entendes? Inês entendia. Bem demais até. – Sérgio, temos os bilhetes comprados – respondeu ela, calma, embora por dentro tudo gritasse. – Esperámos mês e meio por esta peça! – Eu sei, querida. Vou compensar, prometo. Mas é uma criança, não a consigo deixar assim. Depois de desligar, Inês ligou à amiga. – Leonor, consegues acreditar nisto?! – e andava pela sala, gesticulando. – Outra vez! Terceira vez este mês! Ou é o filho doente, ou o carro da ex que avaria, ou mais uma desculpa qualquer! – Inês, mas se calhar ele está doente mesmo… – arriscou Leonor. – Eu sei! Claro que sei! As crianças doentes são normais. O que não é normal é a ex dele ligar-lhe sempre a ele! Não tem pais? Amigas? – Pois… – Pois nada! – Inês saltou do sofá. – Ela manipula-o! O Sérgio é boa pessoa, não enxerga! Ela sabe que ele largará tudo e vai ajudá-la. E aproveita-se! Leonor soltou um suspiro. – Tens a certeza que o problema é ela? – E havia de ser quem?! – Inês parou. – Não sei. Pensa. Se ela liga ao ex-marido e ele vai sempre a correr… quem é que usa quem? Inês ficou calada. Sentiu algo desagradável a apertar por dentro. – Leonor, não digas disparates – cortou ela. – O Sérgio só quer ser um bom pai. Não pode deixar o filho sozinho! – Está bem, está bem – apressou-se a amiga. – Foi só uma ideia. Mas aquele “foi só uma ideia” ficou cravado como um espinho. Sérgio voltou tarde, cansado, desfeito, com ar de culpa. – Desculpa-me, amor – abraçou-a por trás, encostou o nariz ao pescoço dela. – Compro novos bilhetes, para lugares ainda melhores. Juro. Inês ficou em silêncio. Olhava pela janela. Quantas promessas iguais já ouvira? Cinco? Dez? Vinte? Sempre o mesmo: “Compreende…” Compreendo, pensava Inês. Só não sei bem o que é que compreendo. E então, começaram a acumular-se pequenas coisas… Primeiro, nem se notava – como pó numa estante que só se vê ao passar o dedo. Um dia, reparou que o Sérgio nunca mais largava o telemóvel. Antes, deixava-o pela casa – mesa, sofá, casa de banho. Agora andava sempre com ele. Até à cozinha só para ir buscar água! – Sérgio, porquê esse telemóvel sempre contigo? – perguntou ela num tom leve. – Eu? Ah, é do hábito do trabalho… Ligam-me muito. Passou. Noutro dia, Inês mexia no calendário do telemóvel dele para apontar o teatro (o tal que perderam) e viu: “Buscar o Dioguinho à creche 16h00.” “Levar documentos do carro à Olga.” “Telefonar à O. sobre as vacinas.” O. – era Olga. – Sérgio, sabes quando é a minha defesa de mestrado? – perguntou ela ao jantar, a remexer o seu chá. Ele levantou os olhos. – Mestrado? Em maio, acho eu? – Em março. Daqui a duas semanas. – Pois… Desculpa, cabeça de vento. Cabeça de vento – mas lembra-se do calendário da Olga ao minuto. Depois foram os dinheiros. Inês deu com o extracto bancário esquecido na mesa. Três transferências de vinte mil euros. Destinatária: O. Loureiro. – Sérgio, isto o que é? Nem pestanejou. – Para a Olga. A mãe dela adoeceu, precisou de pagar medicamentos. Depois para o Dioguinho, uns cursos. Ela está sozinha com o miúdo. – Sessenta mil em três meses, Sérgio. – E então? É meu filho! Não vou deixá-los passar necessidades! Inês pousou o papel. – Claro que não. Mas estranho não me teres dito. – Não me esqueci! Só sabia que ias começar com essas cenas todas! Aquele “essas cenas” soava como se ela fosse histérica. Pequena, ciumenta, mesquinha. Houve também aquele desenho no carro. Inês sentou-se ao lado do condutor e viu, no banco de trás, um desenho de criança. Uma casa, flores, sol, três pessoas. Pai, mãe, Dioguinho. Sem ela. Pegou no desenho. Leu no verso: “Ao pai, do Diogo. A nossa família.” – Sérgio, isto é o quê? – Foi o Dioguinho que fez. Giraço, não é? Tem jeito, o miúdo. Inês olhou o desenho. Depois ele. Depois o desenho. – Sérgio, está aqui “a nossa família”. – Pois. Ele é pequeno. Para ele a família ainda somos eu, a Olga e ele. É a cabeça de uma criança. Inês deixou o desenho. Sentou-se direita. Prendeu o cinto. Fez o caminho calada. Depois, Olga começou ela própria a aparecer. De início, uma vez – “buscar as coisas do Diogo que ficaram no Sérgio.” Depois – “combinar as férias de verão.” Depois – “passava por aqui, resolvi entrar.” Sempre calma, simpática, a sorrir: – Inês, olá! Não incomodo? O Sérgio está? E cada vez que ia embora, o Sérgio ficava distante, pensativo, monossilábico. – Que tens tu? – perguntava Inês. – Nada. Só cansado. Inês começou a sentir-se a mais. A que atrapalha. Até que, por acaso, ouviu um telefonema. Sérgio estava na casa de banho. Pensou que a porta estava fechada. Ela ficou entreaberta. Inês ouviu: – Olga, não chores… Já disse que ajudo… Claro que ajudo. Sabes que estou sempre aqui para ti. A voz dele, macia. Quase íntima. Inês saiu dali. Sentou-se no sofá. Percebeu tudo, de repente. Não é ela que o manipula. É ele que permite. Porque lhe convém. Inês aguentou três dias. Sem fazer cenas, só observando. Como quem estuda um inseto raro – friamente, de fora. E viu: Sérgio sabia toda a agenda da Olga. Sabia os horários da creche, das consultas, dos hobbies. No calendário, tudo dela. O dela – Inês – esquecia. Mensagens constantes. O telemóvel a vibrar. Ele a responder – e logo a cara com aquele ar suave, culpado, secretamente feliz. Uma noite o telefone tocou enquanto ele tomava banho. Inês viu: “Olga”. Por instinto, atendeu. – Sérgio? – a voz da Olga, a chorar. – Sérginho, podes vir? Estou tão mal. Não tenho ninguém. Só tu. Silêncio de Inês. – Sérgio? Estás a ouvir? Não aguento mais sozinha. Por favor. Sempre estiveste do meu lado. Inês desligou. Sentou-se. Riu-se, de repente. Que ingénua. Que cega. Sérgio saiu da casa de banho – molhado, só de toalha. – Olha que a Olga te ligou – disse Inês. Ele parou. – Tu atendeste?! – Atendi. Ela chorava. Dizia que tu sempre estiveste presente. Ficou mudo. Procurava o que dizer, pensava nas desculpas, ela via-o na cara dele. – Inês, ouve… A Olga está a passar uma fase complicada. Não tem ninguém. Só eu. Não posso deixá-la! – “Deixá-la”? – Inês sorriu. – Sérgio, divorciaste-te dela há quatro anos. Não é tua mulher. É tua ex. Já a deixaste. – Temos um filho em comum! – Então isso significa o quê? Que tens de acudir cada vez que ela diz “Dioguinho”? Mandar-lhe dinheiro às escondidas? Saber a agenda dela ao segundo? – Exageras! – Eu?! Sentiu algo partir por dentro. Pegou na mala, começou a fazer a mala. – Sabes, Sérgio, passei tanto tempo a convencer-me que o problema era ela. Que ela te manipula, que usa o filho, que não sabe largar. Mas a verdade é que o problema não é ela. É tu. És tu quem permite, tu até gostas. Dá-te jeito: duas vidas. Uma ex mulher que precisa, uma nova mulher que aguenta. E tu nada decides. Porque assim é mais cómodo. – Inês, não vás. – Não vou embora – disse ela baixinho. – Saio. Saio deste triângulo, onde o meu lugar é sempre o terceiro. Não estou a lutar contra a tua ex-mulher. Só saio do vosso jogo. Sérgio ficou parado no meio da sala – molhado, perdido, triste. – Inês, espera. Vamos falar. – Não há nada para falar. – Inês vestiu o casaco. – Tu escolheste há muito tempo. Eu é que fui burra o suficiente para não ver. Agora vejo. Clarinho. Abriu a porta. – Adeus, Sérgio. Manda cumprimentos à Olga. Agora ela pode ligar-te a qualquer hora. A porta fechou-se suavemente. Um mês depois, Inês estava num café com Leonor. – Então, como estás? – perguntou a amiga. – Estou bem – sorriu Inês. – Mesmo. E era verdade. Os primeiros dias doeram. Mas aguentou. Arranjou um T0, um trabalho, defendeu o mestrado. Sérgio ligou. Mandou mensagens longas, confusas, desculpas, promessas. “Inês, desculpa. Percebi tudo. Tinhas razão. Começamos de novo?” Inês não respondeu. Porque sabia – não valia a pena recomeçar. O problema nunca foi a Olga. Era ele. Enquanto ele não mudasse, nada mudava. – E ele? – Quem? – O Sérgio, claro. – Nem sei. Não falamos. Leonor sorriu. – Não te arrependes? Inês pensou. Arrepender-se? Não. Estranhamente, não. Sentia alívio. Como tirar um peso velho das costas. – Fiz uma escolha. Por ele. E por mim. Leonor sorriu. – Foste corajosa. – Não, só cresci. Sérgio ficou sozinho. A Olga, curiosamente, deixou de ligar. Afinal, sem Inês como plateia, o jogo perdeu sentido. E quando Sérgio tentou reaproximar-se, levou nega. – Foste tu que escolheste ela, lembra-te. Agora vive com isso. Eu já tenho a minha vida. Não preciso de ti para nada. Sérgio tentou recuperar Inês. Esperou-a à porta, mandou mil mensagens. Mas ela foi firme. – Sérgio, deixa-me. Deixa-te a ti também. Não somos compatíveis. Tu tentaste duas vidas ao mesmo tempo. Eu só quero uma. Mas verdadeira. Inês caminhava pela cidade ao entardecer – e pensava como é estranho o mundo. Tanto tempo a temer ficar sozinha, perder o Sérgio. E no fim, não perdeu nada. Porque quem não sabe escolher, não tem nada para dar de verdadeiro. E ela merecia tudo o que fosse verdadeiro. Afinal, achas que faz sentido ele voltar para a primeira mulher? Já que com a Inês não deu certo…

Aquela mulher está a manipular o meu marido, só pode! desabafava Mafalda.

Mafalda olhava para o telemóvel como quem observa uma panela de pressão prestes a explodir. Aquela irritação antiga estava quase a ferver outra vez.

O Ricardo já lhe ligava pela terceira vez naquela noite.

Mafaldinha, desculpa, desculpa mesmo a voz dele vinha cansada, enrolada em culpa. Eu sei que tínhamos combinado ir ao teatro mas olha, a Soraia diz que o Martim está com febre altíssima. Ela não se desenrasca sozinha Estás a ver a situação, não estás?

Mafalda via, pois via.

Até via bem demais.

Ricardo, nós já comprámos os bilhetes, disse ela, com aquela calma que só mascara o caos interior. Andamos há mes e meio à espera desta peça!

Eu sei, querida. Juro-te que compenso depois, prometo. Mas é uma emergência, é o nosso filho, não o posso deixar sozinho assim

Mafalda desligou, respirou fundo e ligou à amiga.

Leonor, tu consegues acreditar nisto?! passeava-se pela sala, braços a gesticular Mais uma vez! Já perdi a conta! Ora é o miúdo, ora é o carro da ex que pifa, ora é um pretexto qualquer

Mafalda, mas olha que o rapaz pode mesmo estar doente sugeriu Leonor, pé ante pé.

Eu sei! Mafalda afundou-se no sofá. As crianças estão sempre doentes, não é novidade. Agora, o estranho é que a Soraia parece que não tem pais, nem amigas, só existe o Ricardo para lhe acudir always que alguma coisa corre mal!

Pois

Pois, pois, nada! Mafalda saltou do sofá. Ela percebe-se que ele é um coração-mole, que larga tudo para salvar o dia. E aproveita-se disso descaradamente!

Do outro lado, Leonor soltou um suspiro.

Tens a certeza que a culpa é dela?

Então, de quem havia de ser?! Mafalda ficou petrificada.

Não sei Mas pensa comigo: se uma mulher liga ao ex-marido e ele larga tudo sempre quem está mesmo a ser usado?

Mafalda ficou de boca aberta, fechou-a, e sentiu uma fisgada desconfortável dentro dela.

Leonor, não digas disparates, cortou Mafalda. O Ricardo é só um pai responsável. Não consegue deixar o filho sem ajuda.

Está bem, querida, eu só estou a conversar.

Mas aquele só a conversar ficou-lhe atravessado como uma espinha que não sai por nada.

O Ricardo chegou a casa tardíssimo nessa noite. Desalmado, desalinhado, olhar de cão abandonado.

Desculpa, amor, fui um tolinho abraçou-a por trás, enterrando o nariz no pescoço dela. Prometo-te bilhetes novos, para os melhores lugares, está descansada.

Mafalda não disse nada. Limitou-se a olhar para a rua, a pensar: quantas vezes já ouvi estas promessas? Cinco? Dez? Vinte?

Sempre o mesmo refrão: Sabes como é, não é?

Sim, achava que sabia. Mas o quê, já nem sabia.

Depois, vieram as pequenas coisas.

Aquelas tão discretas como pó na mobília só se nota quando passas o dedo. Eis, ali, um depósito acinzentado de dúvidas.

O Ricardo agora andava estranho com o telemóvel. Antes deixava-o em todo o lado: mesa, sofá, até na casa de banho. Agora andava com ele sempre colado, até para buscar um copo de água.

Ricardo, para quê esse apego todo ao telemóvel? atirou Mafalda uma noite, a tentar ser leve.

O quê? Oh é hábito do trabalho. Nunca se sabe quando toca.

Pois, pois.

Depois, Mafalda deu por si a ver o calendário do telefone dele, ia apontar a reposição da peça, aquela que perderam. E encontrou lá: Buscar Martim ao infantário às 16h, Levar documentos do carro à Soraia, Ligar à S. sobre as vacinas.

S. de Soraia, claro.

Ricardo, disse ela ao jantar, mexendo o chá com uma colher já sem açúcar Sabes quando é que é a minha defesa de mestrado?

Ele levantou os olhos do prato.

A defesa? Hmmm… Em maio, não é?

Em março. Daqui a duas semanas.

Ah. Pois é. Desculpa, cabeça de vento.

Cabeça de vento para ela, mas para a Soraia lembrava-se dos horários ao segundo.

Depois houve aquela do dinheiro.

Mafalda tropeçou num extracto bancário que ele esqueceu na mesa. Três transferências de 300 euros cada uma. Destinatária Soraia Lamas.

Ricardo, o que é isto aqui? perguntou, segurando o papel.

Nem pestanejou. Só respirou fundo.

Estava a ajudar a Soraia a mãe dela ficou doente, precisou de pagar medicamentos. Depois para as actividades do Martim Ela está sozinha com o miúdo. Compreendes, não compreendes?

Novecentos euros, Ricardo. Em três meses.

E depois? É o meu filho! Vou deixá-los a passar necessidades?!

Mafalda pousou o papel.

Claro que não tens. Só é estranho não teres mencionado nada.

Não foi por mal! Só sabia que ias logo fazer este drama todo!

Aquele drama todo dito assim, fazia-a sentir uma louca ciumenta, cheia de manias.

Depois houve a cena do carro.

Mafalda entra, senta-se, e vê no banco de trás um desenho de criança. Estava lá uma casa, flores, sol e três bonecos. Papá. Mamã. Martim.

Sem Mafalda à vista.

Pegou no desenho, leu no verso desenhado às três pancadas: Para o papá, do Martim. A nossa família.

Ricardo, o que é isto?

Ah, foi o Martim que fez. Giraço, não é? Está um artista.

Mafalda olhou para o papel, depois para Ricardo, depois de novo para o desenho.

Aqui diz a nossa família.

Pois, ele é pequeno. Na cabeça dele, família é eu, a Soraia e ele. Sabe-se lá. Coisas de puto.

Mafalda deixou o desenho, sentou-se direita, pôs o cinto e ficou calada o caminho todo.

A seguir, a Soraia começou a aparecer em carne e osso.

Primeiro para buscar umas coisas do Martim que ficaram em casa do Ricardo. Depois para falar das férias grandes. Depois porque ia passar aqui perto e decidi dar um saltinho.

Soraia era cordial, sorridente, impecável.

Mafalda, olá! dizia, como se fossem best friends. Não te importas? O Ricardo está?

Sempre que ela saía, o Ricardo ficava ausente, calado, a olhar o vazio, a responder com monossílabos.

O que é que tens? perguntava Mafalda.

Nada, só cansaço.

Mafalda começou a sentir-se a outra na própria casa. Ela era o extra, o acessório dispensável.

Até que ouviu, um dia, sem querer, um telefonema.

Ricardo fechou-se na casa de banho, mas deixou a porta entredabrta Mafalda apanhou isto:

Soraia não chores. Vou ajudar-te, claro que vou. Sabes que estou sempre aqui para ti.

Voz sumida, baixa, quase mansa.

Mafalda afastou-se, sentou-se no sofá, e de repente percebeu.

O problema não era ela manipular o Ricardo.

Ele deixava-se manipular. Porque assim lhe dava jeito.

Mafalda ficou três dias de bico calado. Nem uma cena. Só a observar tudo, metodicamente, como quem estuda um insecto raro ao microscópio.

E foi vendo…

Que o Ricardo sabia o horário da Soraia melhor do que o aniversário dela. Sabia quando era o futebol do Martim, a reunião na escola, a consulta da Soraia No calendário estava tudo. No dela, nem a data da defesa de mestrado.

Que o telefone vibrava e ele saltava logo, respondia quase escondido e depois vinha com aquela cara de quem está a fazer marosca.

Até que um dia, durante o banho do Ricardo, o telefone tocou. Mafalda espreitou para o ecrã.

Soraia.

Quase sem pensar, atendeu.

Ricardo? a voz da Soraia era doce, a chorar. Ricardo, podes vir? Preciso mesmo de ti Não sei a quem mais recorrer.

Mafalda calada.

Ricardo? Estás aí? Estou mesmo aflita. Tu sempre foste o meu apoio

Mafalda desligou. Pousou o telefone. Sentou-se e deu uma gargalhada.

Santa paciência, como foi tonta. Que burra de todo.

Ricardo saiu da casa de banho, de toalha à cintura, cabelo a pingar.

Olha que foi a Soraia a ligar, disse Mafalda, serena.

Ele deslizou.

Atendeste-lhe o telefone?!

Atendi. Ela estava a chorar. Pediu para ires. Disse que sempre estiveste ao lado dela.

O Ricardo ficou índeciso, os olhos a saltar as desculpas uma a uma.

Vês, começou A Soraia está num mau bocado. Não tem ninguém. Só eu. Não posso abandoná-la!

Abandonar?! Mafalda soltou um riso. Ricardo, vocês divorciaram-se há quatro anos, lembras-te? Ela já não é tua mulher. É a tua ex. Já a largaste. Há séculos.

Mas temos um filho em comum!

E quê? Tens de ir a correr sempre que ela diz Martim? De passar-lhe dinheiro às escondidas? De saberes toda a vida dela ao detalhe?

Estás a exagerar!

Eu!?

Mafalda sentiu-se rebentar por dentro. Pegou na mala. Foi buscar as coisas.

Sabes, Ricardo, passei meses a convencer-me que o problema era ela. Que ela te manipulava. Que usava o miúdo. Que era a vilã. Mas a verdade o problema és tu. És tu que deixas. Aliás, gostas até. Dás-te bem com a coisa de ter duas vidas. Uma ex a precisar, e uma nova que aguenta. Não escolhas nada, que assim não te custa.

Mafalda, não vás.

Não estou a fugir, disse calmamente. Estou a sair. Desta fantochada onde sou sempre a número três. Não vou lutar com a tua ex-mulher. Saio do vosso teatrinho.

Ricardo ficou ali parado, na sua miséria de banho-tomado.

Mafalda, espera. Vamos conversar.

Não há conversa. Ela vestiu o casaco. Tu tomaste a tua decisão há muito. Eu é que demorei a ver. Mas agora vejo. Clarinho.

Abriu a porta.

Adeus, Ricardo. Dá cumprimentos à Soraia. Agora pode ligar-te à vontade.

A porta bateu, discreta.

Passado um mês, Mafalda estava num café com a Leonor.

Então, e tu, como andas? perguntou a amiga, cautelosa.

Bem, Mafalda sorriu. Mesmo bem!

E era verdade. Na primeira semana custou, apertada por dentro, aquela vontade de ligar, de escrever, de voltar. Mas aguentou-se. Arrendou um estúdio pequenino, arranjou um part-time, defendeu o mestrado.

Ricardo ligou-lhe. Muito. Escreveu mensagens enormes, um novelo de desculpas e juras.

Mafalda, perdoa-me. Fui um idiota. Percebi agora. Deixa-me recomeçar.

Mafalda já não respondia. Sabia, finalmente: recomeçar para quê? O problema nunca foi a Soraia. Foi sempre ele. E até o Ricardo perceber sozinho, nada muda.

E ele, como está? perguntou Leonor.

Quem?

O Ricardo, ora.

Ah, não sei. Não falamos.

Leonor mordeu a língua.

Não te arrepende nada?

Mafalda pensou. Terá pena? Nem por isso. Sinceramente sentia outra coisa leveza. Como tirar uma mochila das costas carregada de pedras.

Fiz a escolha certa. Acabou o café. Por mim. E por ele também.

Leonor sorriu.

És uma mulher de coragem.

Nem tanto, Mafalda acenou. Apenas cresci.

Ricardo ficou sozinho.

Soraia, surpreendentemente, deixou de telefonar com a regularidade habitual. Pelos vistos, sem Mafalda como plateia, o drama já não tinha tanta piada. Quando o Ricardo tentou reatar alguma coisa, apanhou um gelo desses de fazer cubos no Verão.

Foste tu que escolheste aquela altura, Ricardo disse Soraia. Agora faz pela vida. Eu também fiz pela minha. Não preciso nem quero ajuda tua.

O Ricardo tentou reconquistar Mafalda. Esperava-a à porta de casa, mandava mensagens intermináveis. Ela manteve-se firme.

Ricardo, deixa-me. E liberta-te também. Não somos para ficar juntos. Tu sempre quiseste duas vidas. E eu só quero uma. Mas que seja verdadeira.

Mafalda caminhava pelas ruas do Porto já noite, a pensar como as coisas mudam. Tinha tanto medo de ficar sozinha, de perder o Ricardo. Mas quando o perdeu percebeu que não tinha perdido nada.

Porque quem não sabe escolher, nunca vai dar nada de verdade.

E ela merecia só o que fosse mesmo verdadeiro.

Acham que ele devia ir atrás da primeira mulher, já que com a Mafalda não deu?

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– Aquela mulher só manipula o meu marido! – indignava-se a Inês Inês olhava para o telemóvel e sentia aquele velho irritação a fervilhar por dentro. Era já a terceira chamada do Sérgio naquela noite. – Inês, desculpa, por favor… – A voz dele estava cansada, culpada, demasiado familiar. – Eu sei que combinámos ir ao teatro, mas olha… A Olga ligou, diz que o Dioguinho está com febre alta, quarenta. Ela sozinha não consegue. Tu entendes, não entendes? Inês entendia. Bem demais até. – Sérgio, temos os bilhetes comprados – respondeu ela, calma, embora por dentro tudo gritasse. – Esperámos mês e meio por esta peça! – Eu sei, querida. Vou compensar, prometo. Mas é uma criança, não a consigo deixar assim. Depois de desligar, Inês ligou à amiga. – Leonor, consegues acreditar nisto?! – e andava pela sala, gesticulando. – Outra vez! Terceira vez este mês! Ou é o filho doente, ou o carro da ex que avaria, ou mais uma desculpa qualquer! – Inês, mas se calhar ele está doente mesmo… – arriscou Leonor. – Eu sei! Claro que sei! As crianças doentes são normais. O que não é normal é a ex dele ligar-lhe sempre a ele! Não tem pais? Amigas? – Pois… – Pois nada! – Inês saltou do sofá. – Ela manipula-o! O Sérgio é boa pessoa, não enxerga! Ela sabe que ele largará tudo e vai ajudá-la. E aproveita-se! Leonor soltou um suspiro. – Tens a certeza que o problema é ela? – E havia de ser quem?! – Inês parou. – Não sei. Pensa. Se ela liga ao ex-marido e ele vai sempre a correr… quem é que usa quem? Inês ficou calada. Sentiu algo desagradável a apertar por dentro. – Leonor, não digas disparates – cortou ela. – O Sérgio só quer ser um bom pai. Não pode deixar o filho sozinho! – Está bem, está bem – apressou-se a amiga. – Foi só uma ideia. Mas aquele “foi só uma ideia” ficou cravado como um espinho. Sérgio voltou tarde, cansado, desfeito, com ar de culpa. – Desculpa-me, amor – abraçou-a por trás, encostou o nariz ao pescoço dela. – Compro novos bilhetes, para lugares ainda melhores. Juro. Inês ficou em silêncio. Olhava pela janela. Quantas promessas iguais já ouvira? Cinco? Dez? Vinte? Sempre o mesmo: “Compreende…” Compreendo, pensava Inês. Só não sei bem o que é que compreendo. E então, começaram a acumular-se pequenas coisas… Primeiro, nem se notava – como pó numa estante que só se vê ao passar o dedo. Um dia, reparou que o Sérgio nunca mais largava o telemóvel. Antes, deixava-o pela casa – mesa, sofá, casa de banho. Agora andava sempre com ele. Até à cozinha só para ir buscar água! – Sérgio, porquê esse telemóvel sempre contigo? – perguntou ela num tom leve. – Eu? Ah, é do hábito do trabalho… Ligam-me muito. Passou. Noutro dia, Inês mexia no calendário do telemóvel dele para apontar o teatro (o tal que perderam) e viu: “Buscar o Dioguinho à creche 16h00.” “Levar documentos do carro à Olga.” “Telefonar à O. sobre as vacinas.” O. – era Olga. – Sérgio, sabes quando é a minha defesa de mestrado? – perguntou ela ao jantar, a remexer o seu chá. Ele levantou os olhos. – Mestrado? Em maio, acho eu? – Em março. Daqui a duas semanas. – Pois… Desculpa, cabeça de vento. Cabeça de vento – mas lembra-se do calendário da Olga ao minuto. Depois foram os dinheiros. Inês deu com o extracto bancário esquecido na mesa. Três transferências de vinte mil euros. Destinatária: O. Loureiro. – Sérgio, isto o que é? Nem pestanejou. – Para a Olga. A mãe dela adoeceu, precisou de pagar medicamentos. Depois para o Dioguinho, uns cursos. Ela está sozinha com o miúdo. – Sessenta mil em três meses, Sérgio. – E então? É meu filho! Não vou deixá-los passar necessidades! Inês pousou o papel. – Claro que não. Mas estranho não me teres dito. – Não me esqueci! Só sabia que ias começar com essas cenas todas! Aquele “essas cenas” soava como se ela fosse histérica. Pequena, ciumenta, mesquinha. Houve também aquele desenho no carro. Inês sentou-se ao lado do condutor e viu, no banco de trás, um desenho de criança. Uma casa, flores, sol, três pessoas. Pai, mãe, Dioguinho. Sem ela. Pegou no desenho. Leu no verso: “Ao pai, do Diogo. A nossa família.” – Sérgio, isto é o quê? – Foi o Dioguinho que fez. Giraço, não é? Tem jeito, o miúdo. Inês olhou o desenho. Depois ele. Depois o desenho. – Sérgio, está aqui “a nossa família”. – Pois. Ele é pequeno. Para ele a família ainda somos eu, a Olga e ele. É a cabeça de uma criança. Inês deixou o desenho. Sentou-se direita. Prendeu o cinto. Fez o caminho calada. Depois, Olga começou ela própria a aparecer. De início, uma vez – “buscar as coisas do Diogo que ficaram no Sérgio.” Depois – “combinar as férias de verão.” Depois – “passava por aqui, resolvi entrar.” Sempre calma, simpática, a sorrir: – Inês, olá! Não incomodo? O Sérgio está? E cada vez que ia embora, o Sérgio ficava distante, pensativo, monossilábico. – Que tens tu? – perguntava Inês. – Nada. Só cansado. Inês começou a sentir-se a mais. A que atrapalha. Até que, por acaso, ouviu um telefonema. Sérgio estava na casa de banho. Pensou que a porta estava fechada. Ela ficou entreaberta. Inês ouviu: – Olga, não chores… Já disse que ajudo… Claro que ajudo. Sabes que estou sempre aqui para ti. A voz dele, macia. Quase íntima. Inês saiu dali. Sentou-se no sofá. Percebeu tudo, de repente. Não é ela que o manipula. É ele que permite. Porque lhe convém. Inês aguentou três dias. Sem fazer cenas, só observando. Como quem estuda um inseto raro – friamente, de fora. E viu: Sérgio sabia toda a agenda da Olga. Sabia os horários da creche, das consultas, dos hobbies. No calendário, tudo dela. O dela – Inês – esquecia. Mensagens constantes. O telemóvel a vibrar. Ele a responder – e logo a cara com aquele ar suave, culpado, secretamente feliz. Uma noite o telefone tocou enquanto ele tomava banho. Inês viu: “Olga”. Por instinto, atendeu. – Sérgio? – a voz da Olga, a chorar. – Sérginho, podes vir? Estou tão mal. Não tenho ninguém. Só tu. Silêncio de Inês. – Sérgio? Estás a ouvir? Não aguento mais sozinha. Por favor. Sempre estiveste do meu lado. Inês desligou. Sentou-se. Riu-se, de repente. Que ingénua. Que cega. Sérgio saiu da casa de banho – molhado, só de toalha. – Olha que a Olga te ligou – disse Inês. Ele parou. – Tu atendeste?! – Atendi. Ela chorava. Dizia que tu sempre estiveste presente. Ficou mudo. Procurava o que dizer, pensava nas desculpas, ela via-o na cara dele. – Inês, ouve… A Olga está a passar uma fase complicada. Não tem ninguém. Só eu. Não posso deixá-la! – “Deixá-la”? – Inês sorriu. – Sérgio, divorciaste-te dela há quatro anos. Não é tua mulher. É tua ex. Já a deixaste. – Temos um filho em comum! – Então isso significa o quê? Que tens de acudir cada vez que ela diz “Dioguinho”? Mandar-lhe dinheiro às escondidas? Saber a agenda dela ao segundo? – Exageras! – Eu?! Sentiu algo partir por dentro. Pegou na mala, começou a fazer a mala. – Sabes, Sérgio, passei tanto tempo a convencer-me que o problema era ela. Que ela te manipula, que usa o filho, que não sabe largar. Mas a verdade é que o problema não é ela. É tu. És tu quem permite, tu até gostas. Dá-te jeito: duas vidas. Uma ex mulher que precisa, uma nova mulher que aguenta. E tu nada decides. Porque assim é mais cómodo. – Inês, não vás. – Não vou embora – disse ela baixinho. – Saio. Saio deste triângulo, onde o meu lugar é sempre o terceiro. Não estou a lutar contra a tua ex-mulher. Só saio do vosso jogo. Sérgio ficou parado no meio da sala – molhado, perdido, triste. – Inês, espera. Vamos falar. – Não há nada para falar. – Inês vestiu o casaco. – Tu escolheste há muito tempo. Eu é que fui burra o suficiente para não ver. Agora vejo. Clarinho. Abriu a porta. – Adeus, Sérgio. Manda cumprimentos à Olga. Agora ela pode ligar-te a qualquer hora. A porta fechou-se suavemente. Um mês depois, Inês estava num café com Leonor. – Então, como estás? – perguntou a amiga. – Estou bem – sorriu Inês. – Mesmo. E era verdade. Os primeiros dias doeram. Mas aguentou. Arranjou um T0, um trabalho, defendeu o mestrado. Sérgio ligou. Mandou mensagens longas, confusas, desculpas, promessas. “Inês, desculpa. Percebi tudo. Tinhas razão. Começamos de novo?” Inês não respondeu. Porque sabia – não valia a pena recomeçar. O problema nunca foi a Olga. Era ele. Enquanto ele não mudasse, nada mudava. – E ele? – Quem? – O Sérgio, claro. – Nem sei. Não falamos. Leonor sorriu. – Não te arrependes? Inês pensou. Arrepender-se? Não. Estranhamente, não. Sentia alívio. Como tirar um peso velho das costas. – Fiz uma escolha. Por ele. E por mim. Leonor sorriu. – Foste corajosa. – Não, só cresci. Sérgio ficou sozinho. A Olga, curiosamente, deixou de ligar. Afinal, sem Inês como plateia, o jogo perdeu sentido. E quando Sérgio tentou reaproximar-se, levou nega. – Foste tu que escolheste ela, lembra-te. Agora vive com isso. Eu já tenho a minha vida. Não preciso de ti para nada. Sérgio tentou recuperar Inês. Esperou-a à porta, mandou mil mensagens. Mas ela foi firme. – Sérgio, deixa-me. Deixa-te a ti também. Não somos compatíveis. Tu tentaste duas vidas ao mesmo tempo. Eu só quero uma. Mas verdadeira. Inês caminhava pela cidade ao entardecer – e pensava como é estranho o mundo. Tanto tempo a temer ficar sozinha, perder o Sérgio. E no fim, não perdeu nada. Porque quem não sabe escolher, não tem nada para dar de verdadeiro. E ela merecia tudo o que fosse verdadeiro. Afinal, achas que faz sentido ele voltar para a primeira mulher? Já que com a Inês não deu certo…
Tenho 65 anos e, embora sempre tenha sido relativamente tranquila com a minha aparência, ultimamente os cabelos brancos começaram a ganhar terreno — não apenas fios soltos, mas autênticas madeixas, principalmente nas raízes. Ir ao cabeleireiro já não me parecia tão simples como antigamente; entre o tempo, o preço e a espera, comecei a pensar que talvez não fosse assim tão terrível aventurar-me a pintar o cabelo sozinha em casa. Afinal, passei a vida a fazê-lo! O que poderia correr mal? Fui à drogaria do bairro, não a uma loja especializada para cabeleireiros. Disse que procurava uma “tinta para cabelos brancos”. A funcionária perguntou-me a cor e eu respondi: “castanho normal, nada de especial”. Mostrou-me uma caixa com aspeto sério e discreto, com uma mulher de cabelo bonito na capa. Dizia que cobria os cabelos brancos a 100%. Fiquei convencida. Não li mais nada. Voltei para casa certa de que em uma hora estaria tudo pronto. Vesti uma t-shirt velha, preparei uma toalha, misturei o conteúdo conforme as instruções e apliquei a tinta em frente ao espelho da casa de banho. No início parecia tudo normal; a cor estava escura, como sempre. Aproveitei para lavar a loiça e arrumar a cozinha enquanto esperava o tempo recomendado. Ao fim de uns vinte minutos, algo estranho: ao olhar-me ao espelho, o cabelo já não estava castanho, mas sim roxo. Pensei que fosse do reflexo da luz na casa de banho, disse a mim mesma que era impressão minha. Mas, assim que fui enxaguar, percebi que algo de muito errado se passava. À medida que a água passava pelo cabelo, ia mudando: primeiro roxo, depois castanho escuro e, por fim, quase preto. No reflexo do espelho, lá estava eu — com reflexos lilás e violetas e um tom impossível de descrever. Os brancos tinham desaparecido, sim. Mas a que preço… Tentei secar o cabelo a ver se a cor mudava ao secar. Não mudou. Pelo contrário: intensificou-se ainda mais. Parecia saída de uma sessão fotográfica de moda adolescente do que uma mulher de 65 anos. Comecei a rir sozinha — não havia mais nada a fazer. Liguei por videochamada à minha filha e, mal me viu, quase se desfez a rir. Perguntou: “Mãe… o que é que fizeste?” Só consegui responder: “Marca-me um cabeleireiro, por favor.” No dia seguinte, tive de sair assim à rua. Pus uma toalha na cabeça, mas o roxo ainda se notava. No supermercado perguntaram-me se era um novo estilo. Na padaria, uma senhora elogiou a minha coragem por usar aquelas cores. Acenei, como se tivesse sido tudo intencional. Dois dias depois, fui ao cabeleireiro — sem qualquer orgulho. Mal me viu, a cabeleireira percebeu logo. Não me julgou, só disse: “Acontece mais vezes do que imagina.” Saí do salão com o cabelo arranjado, a carteira mais leve e a lição aprendida: há coisas que achamos que ainda conseguimos fazer como antigamente… até aparecermos com o cabelo roxo. Desde então, aceitei duas coisas — que os cabelos brancos chegam sem avisar, e que há batalhas que é melhor deixar nas mãos dos profissionais. Isto não é um drama familiar, mas sim um verdadeiro episódio de vida.