Ouve só, isto parece cena de novela, mas foi mesmo real. O meu irmão, Henrique, quando acabou a faculdade, mudou-se para longe, para o Porto, para começar a trabalhar. Ele tinha planeado ficar lá só um ano para juntar algum dinheiro e depois regressar a casa, aqui em Lisboa, para comprar um apartamento. Mas como se costuma dizer, o destino gosta de pregar partidas. Lá acabou por conhecer uma rapariga e apaixonou-se, ao ponto de decidirem casar. O Henrique acabou por ficar por lá. Nenhum de nós conhecia a tal mulher misteriosa. Na altura do casamento deles, imagina só que eu estava a umas semanas de ter bebé, já de barriga mesmo grande, então decidi nem pensar em meter-me numa viagem dessas. O meu pai também não pôde ir porque no trabalho não lhe deram folga, por isso só a minha mãe é que foi ao casamento. Ela conheceu a minha cunhada, mas a verdade é que não criaram grande ligação, ficaram por ali. Os noivos foram de lua-de-mel e a minha mãe voltou sozinha para Lisboa uns dias depois. Lembro-me que dizia que a rapariga era bonita, simpática, sempre de sorriso, mas pronto, nunca a conhecemos verdadeiramente. Os anos foram passando e nada.
Este ano, o Henrique surpreende-nos com uma novidade. Fez planos para uma viagem à la portuguesa com vários destinos: primeiro viriam eles cá a casa, depois iam a um casamento de uma amiga dele, logo a seguir tinham um encontro com colegas do liceu e depois iam até ao Algarve para se juntar aos pais dela, antes de regressarem ao Porto. Vinham cá passar dois dias. Olha, eu nem me preocupei muito. Sim, a casa cá é pequena, mas podíamos sempre ir para a casinha de campo dos meus sogros em Sintra. Eles emprestaram-nos aquilo sem problema. É certo que já não via lá obras há anos, mas tirando o aspeto meio antiquado, vivia-se bem. Nesse dia, até estava animada, ansiosa por finalmente conhecer a tal cunhada fantasma. Chegam eles. E bem, a partir daí foi uma comédia dramática.
O Henrique apresentou-nos e, olha, mal a mulher põe um pé na sala, começa logo a reclamar: que se vinha a derreter de calor durante a viagem, que o comboio era barulhento, que era apertado, que estava desconfortável, enfim. Depois, lá fomos para a casa de campo, quis mostrar tudo, toda contente, ela a fazer cara de quem acabou de comer limão, especialmente ao ver o duche e a casa de banho parecia que tinha visto coisa do outro mundo. Foi logo meter o Henrique de lado, ficaram a falar baixinho, e não tarda o meu irmão vem pedir ao meu marido para os levar de volta ao centro. A minha cunhada disse que dali não mexia no duche. Lá foram para minha casa, ela tomou banho, pôs-se toda arranjada, depois lá voltámos para o campo. Quando chegou a hora da comida, outra novela não comia nada do que tínhamos preparado, e olha que nos esforçámos ao máximo! Se não era pelo glúten, era pelo azeite, ou porque não sei quê… Acabou só a comer legumes e mesmo esses a olhar como se estivessem envenenados. O quarto? Nem pensar em dormir lá. Voltámos para o nosso apartamento em Lisboa. No dia seguinte, fomos passear, e olha, parecia que eu tinha levado o meu filho de três anos e ela trocada: ora se queixava que estava calor, ora se queixava das pernas, ora dizia que estava aborrecida. Saí-me um alívio quando se foram embora, nem te digo! Fico mesmo a pensar como é que o Henrique aguenta aquilo há anos. Conseguiu dar-nos volta à cabeça em apenas dois dias!






