O que os portugueses não inventam para não pagar as suas dívidas?

Olha, deixa-me contar-te uma cena que me aconteceu e que ainda hoje me deixa meio atrapalhada quando me lembro.

Foi naquela altura em que eu e o meu marido, o Joaquim, ficámos fechados em casa por causa da quarentena. Os dois, de molho, e a carteira a ficar cada vez mais leve. Faltava uma semana para nos pagarem e tínhamos pouquíssimos euros para dar conta do recado.

Não vou mentir, ainda havia algumas coisas no frigorífico, por isso pensei: Vá, Mariana, ainda se desenrasca! Agora digo isto a rir, mas na altura não teve piada nenhuma.

De repente lembrámo-nos de um tipo a quem tínhamos emprestado dinheiro há uns meses. Não era uma fortuna, mas dava-nos imenso jeito naquela fase.

Enquanto eu punha água ao lume para um chá, o Joaquim já andava a vasculhar nos contactos até encontrar o número. Pegou no telefone e ligou. Quando finalmente alguém atendeu, o Joaquim começou logo num tom firme, a pedir os euros de volta. Mas juro-te, em menos de um minuto, mudou o tom passou da autoridade para a comoção, quase a pedir desculpa.

Desligou o telefone e contou-me que o nosso devedor lhe disse que a mãe dele tinha morrido. E nós, ainda por cima pessoas de coração mole, concordámos logo que podíamos (e devíamos) esperar que ele recuperasse antes de falar de dinheiro.

Passaram-se umas semanas, e nesse tempo tentámos ir levando a vida. Num sábado, decidimos fazer um jantar especial só para animar e fomos à mercearia ali ao lado comprar umas verduras. Estávamos a sair e, de repente, cruzamo-nos com a falecida mãe do nosso devedor ali, vivíssima e de cesta na mão.

Só me faltou desmaiar. O Joaquim, então, ficou de tal maneira passado que, mal entrámos no carro, foi logo com pressa ao bairro do rapaz.

Quando chegámos, demos de caras com ele completamente bêbado, sem vontade nenhuma de conversar, quanto mais devolver dinheiro. O Joaquim estava mesmo a perder a paciência e ia quase partir para a briga, quando o tipo se rende e acaba por confessar que inventou tudo aquilo mal viu o número só para não ter de pagar naquele momento.

Lá foi ao quarto buscar o dinheiro e deu-nos, meio envergonhado. Depois desse dia nunca mais o vi pela cidade.

E diz-me lá tu, depois de uma destas, quem é que ainda acredita e confia nas pessoas, pá?

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